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Número 858,

Economia

Inovação

A energia do ar

por Carlos Drummond, de Canoas — publicado 15/07/2015 04h06
A gaúcha Canoas aposta no aeromóvel como alternativa mais barata e eficiente de transporte
Ireno Jardim
Aeromóvel-economia

O projeto evita desapropriações, o que reduz o custo da construção

Um novo modal de transporte urbano de massa sobre trilhos, de média capacidade, desenvolvido com tecnologia nacional por uma empresa brasileira, está em implantação no município gaúcho de Canoas, de 350 mil habitantes. O pacote tecnológico do aeromóvel, fabricado pela indústria gaúcha Coester, de características revolucionárias quanto ao custo e à facilidade de inserção nas cidades, foi contratado e a prefeitura fez o primeiro pagamento, de 1,5 milhão de reais, para a parte inicial dos projetos executivos.

As primeiras obras incluem a construção das estações e da via elevada e o remanejamento das redes de eletricidade, telefonia e TV a cabo no trajeto da ferrovia. A etapa seguinte será o desenvolvimento dos veículos e dos sistemas de controle. “Seremos a primeira cidade do Brasil a usar o aeromóvel como transporte de massa”, anuncia o prefeito Jairo Jorge. “É uma solução à altura das exigências de mobilidade e ambientalmente adequada aos novos tempos, com motor elétrico de alta eficiência.”

Três linhas abrangerão os bairros Guajuvira e Mathias Velho, onde mora 70% da população de baixa renda da cidade. A capacidade de transporte diário de 120 mil passageiros, 288 por vagão, iguala-se àquela do sistema de ônibus. Esses funcionarão como alimentadores do modal. A conclusão do projeto, orçado em 800 milhões de reais, está prevista para 2018.

O aeromóvel está longe de ser um salto no escuro. Criado pelo empresário Oskar Coester nos anos 1960, tem uma linha em operação em Porto Alegre desde 1983, outra em Jacarta, na Indonésia, iniciada em 1989, e um ramal de transporte de passageiros do Aeroporto Internacional de Porto Alegre para a rede de transporte coletivo da cidade, instalado em 2013, com 1,5 milhão de passageiros transportados.

O consumo de energia medido em watts-hora por passageiro-quilômetro é metade daquele do VLT, um terço do metrô e um quarto do ônibus. O segredo é a leveza dos trens, possibilitada pela remoção dos motores dos vagões e sua instalação nas estações. O baixo peso permite definir traçados de alta sinuosidade, com curvas em ângulo reto. A pressão necessária para movimentar os vagões com propulsão a ar é surpreendentemente baixa, de 0,07 atmosfera, menos da metade da pressão arterial, de 0,16. O “vento” gerado pelos motores instalados nas estações incide sobre grandes placas na parte inferior dos carros. A pequena pressão aplicada sobre áreas extensas provoca a impulsão. “As composições funcionam como barcos a vela invertidos”, compara o empresário Marcus Coester, diretor da empresa fabricante dos trens. A leveza facilita a tração, flexibiliza o traçado e possibilitará a construção de 14,7 quilômetros, com 22 estações, sem nenhuma desapropriação, feito inédito.

O município assumiu o projeto, mas não pretende se assenhorear dele. “A ideia é contratar um operador por meio de Parceria Público-Privada, com qualidade e baixo custo”, diz o secretário da Fazenda, Marcos Bosio. “Não temos como subsidiar e o aeromóvel terá de cobrir 100% dos custos.”

Um dos instrumentos de custeio será a mudança do plano diretor, com o aumento da área construída condicionado à compra de índice construtivo do município, nas faixas de 500 metros de largura ao longo da ferrovia. A alteração pretende represar a previsível especulação imobiliária e reduzir o risco de expulsão da população de baixa renda a partir da valorização do entorno da nova ferrovia. “Quem pretende fazer um empreendimento imobiliário de até 8 mil metros quadrados em um terreno de 10 mil não pagará nada. Para construir 35 mil, comprará do município o índice construtivo necessário para obter os 27 mil da diferença”, explica Bosio. O dinheiro arrecadado irá para um fundo de mobilidade.

O primeiro efeito do anúncio do projeto foi a decisão do Grupo Multiplan de instalar em Canoas o seu 19º shopping, próximo ao futuro trajeto dos trilhos. A prefeitura negocia com a empresa a execução de várias obras públicas.

Aeromóvel-Estação
O trajeto do aeromóvel terá 22 estações em 14,7 quilômetros. A informatização na área de saúde reduz filas. Créditos:Ireno jardim

Convidado pelo governo dos Estados Unidos para visitar grandes empresas de transportes do país no começo do ano passado, Bosio foi alertado sobre o risco de desenvolver projetos na área, um indicador da preocupação da concorrência internacional com o projeto. Em setembro, o secretário foi ao Japão a convite da Sociedade de Engenharia Mecânica e de duas universidades interessadas no modal e conversou com possíveis fornecedores de sistemas e de componentes, que disputarão com empresas brasileiras.

O aeromóvel é o projeto de maior visibilidade da administração municipal, mas não o único a inovar. Outra iniciativa é a reformulação do sistema de saúde, com a integração e a racionalização da rede. A partir do monitoramento do afluxo a três hospitais e 50 postos do SUS, regula-se o deslocamento de pacientes entre as unidades para evitar superlotações. No pronto-socorro, um painel permite aos acompanhantes saber a etapa de atendimento dos pacientes a cada momento. Aqueles contam com uma sala especial de descanso e o apoio de uma assistente social. 

As possibilidades de visita aos internados foram ampliadas. A taxa de infecção hospitalar caiu de 3,14 ocorrências por pacientes-dia vezes mil, em 2012, para 1,06 neste ano, em consequência do “investimento na capacitação da equipe, melhora dos protocolos de segurança do paciente e assistenciais”, explica o secretário de Saúde, Marcelo Bosio. Com as mudanças na área da saúde, a satisfação dos usuários atingiu 79% entre janeiro e maio, segundo uma pesquisa encomendada pela prefeitura.

A atenção às minorias levou à criação da Rede de Proteção da Comunidade LGBT. “Pensamos em um mecanismo para dar atendimento legal e médico às vítimas de agressões. Vivemos um momento de ódio e retrocesso e os ataques homofóbicos não são violência comum, há crueldade”, afirma Fábulo Rosa, chefe da unidade coordenadora da Diversidade. A ideia é definir políticas públicas específicas para esse público.

Uma ampla consulta possibilitou a criação do ambiente institucional e político favorável à construção, em área da prefeitura, de um presídio estadual diferente, com estrutura para ensino e trabalho. “Os munícipes perceberam que não pretendíamos fazer aqui outro Presídio Central de Porto Alegre, o pior do Brasil”, explica Marcos Bosio.

A estratégia da administração é radicalizar a democracia com base na consulta permanente à população e abertura de informações. O portal da transparência, com 150 mil acessos mensais, apresenta todas as receitas e despesas, contratos, salários dos servidores e diárias de viagens. As informações, atualizadas a cada dois dias, são as mesmas utilizadas pela prefeitura. “O cidadão pode acompanhar a execução das metas e os gastos. É uma proposta de controle direto pelo cidadão, não está restrita às entidades”, explica a controladora-geral Tatiana Antunes Carpter.

O sistema administrativo da prefeitura reúne 13 ferramentas entre orçamento participativo, fóruns virtuais, congressos, conselhos, plenárias, audiências públicas e consultas nas ruas, e abrange indivíduos, entidades sociais e empresas. O público é convocado a opinar e decidir sobre desenvolvimento econômico, saúde, educação, meio ambiente, direitos das minorias e segurança, entre outros assuntos. A participação soma 168 mil indivíduos, nas contas da prefeitura. “Precisamos levar cada vez mais o cidadão para o centro dos governos e dar-lhe poder de decisão sobre os investimentos, as políticas públicas e o projeto estratégico da cidade, do estado e da nação”, diz o prefeito.