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Número 857,

Cultura

Música

Pela música, um desafio às trevas da ditadura

por Tárik de Souza — publicado 15/07/2015 04h06
Caixa traz a gravação do show histórico de Jards Macalé no Rio
AG. O Globo
Macalé-rio-de-janeiro

Macalé canta para 3 mil espectadores no Rio de Janeiro, enquanto o Exército cerca o prédio do Museu de Arte Moderna, em 1973

Eu estava entre os mais de 3 mil espectadores sentados no chão do salão do segundo andar do Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, enquanto o prédio era cercado por soldados do Exército. Na noite de 10 de dezembro de 1973, uma constelação de artistas reunida pelos produtores Jards Macalé e Xico Chaves desafiava a espessa treva da ditadura tripulada pelo general Médici, durante as tensas três horas do espetáculo Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos. O show foi associado às comemorações dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promovida pela ONU.

A leitura de trechos do documento, pelo poeta Ivan Junqueira, funcionou como epígrafe candente do evento, como o quinto artigo, “ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”. Ou o nono, “ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado”, ambos aplaudidos como afrontas às práticas do regime vigente. “Se fizéssemos sem a ONU a gente ia se ferrar”, admite hoje Macalé, radiante com a primeira edição completa, em três CDs, das fitas gravadas às escondidas pelo técnico de som, o inglês Maurice Hughes.

Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos
Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos - Diversos - Caixa com 3 CDs
Das 60 músicas iniciais, 40 foram vetadas pela censura. A proibição foi desrespeitada, mas Chico Buarque não pôde cantar Vai Trabalhar, Vagabundo. Contudo, desvelou “uma música que estou compondo agora, chupada do Jorge Ben”. Posteriormente assinada com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, a sarcástica Jorge Maravilha (Você não gosta de mim/ mas sua filha gosta) seria interpretada, erroneamente, como alusão ao apreço pelo compositor da filha do ditador seguinte, Ernesto Geisel, ainda longe do poder.

Da suave bossa de Johnny Alf (Eu e a Brisa) e o samba dissonante de Paulinho da Viola (Roendo as Unhas) ao “iê-iê-iê realista”, rotulado pelo autor, Raul Seixas (Ouro de Tolo, Mosca na Sopa), mais o anárquico Jorge Mautner (Samba dos Animais) e a devota Gal Costa (Oração de Mãe Menininha), o roteiro cravou surpresas. Com espaço até para os delírios percussivos de Edison Machado e Pedro dos Santos, em meio a desempenhos farpados de Milton Nascimento (Nada Será Como Antes), Gonzaguinha (Desenredo), Luiz Melodia (Abundantemente Morte) e o próprio Macalé (Anjo Exterminado).

*Publicado originalmente na edição 857 de CartaCapital, com o título "Um desafio às trevas"