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Número 857,

Internacional

Agência Pública

EUA espionaram ministros de Dilma e o avião presidencial

Assessores pessoais da presidenta também foram grampeados pela NSA, revela o WikiLeaks. Por Natalia Viana e Julian Assange
por Natalia Viana e Julian Assange* — publicado 04/07/2015 07h57, última modificação 04/07/2015 08h07
Celso Junior / Estadão Conteúdo
Palocci-Espionagem

Palocci, ex-ministro da Casa Civil de Dilma, foi um dos espionados

Na mesma semana em que Dilma Rousseff realizou a primeira viagem presidencial aos Estados Unidos, informações secretas obtidas pelo WikiLeaks revelam detalhes sobre a espionagem da NSA, sigla em inglês da Agência Nacional de Segurança, contra a presidenta e assessores próximos, ministros e um integrante do Banco Central.

As informações, às quais a Agência Pública e CartaCapital tiveram acesso em primeira mão, revelam que a espionagem da NSA no início do governo Dilma centra-se não só na figura da presidenta, mas em integrantes ou ex-integrantes importantes do governo nas áreas econômica, financeira e diplomática. São 29 “alvos”. Entre eles, Antonio Palocci, então chefe da Casa Civil. 

O celular do assistente da presidenta Anderson Dornelles, responsável por cuidar das ligações pessoais de Dilma, também estava na mira da NSA. Nem o avião presidencial escapou da bisbilhotagem norte-americana. 

As informações provêm de uma base de dados usada pela NSA para selecionar “alvos” cujas comunicações devem ser analisadas. Os arquivos sobre alvos (ou “selectors”) brasileiros referem-se a 2011 e fazem parte de uma série de vazamentos realizados nas últimas semanas. 

Recentemente, o WikiLeaks publicou uma lista de 69 nomes que seriam alvo da NSA na Alemanha, incluídos ministros e representantes para comércio, finanças e agricultura, além do assistente pessoal da chanceler Angela Merkel. Também foram publicados dois resumos de conversas interceptadas em 2011. Em uma delas, Merkel discute com seu assistente a crise grega. No fim de junho, o WikiLeaks revelou que os EUA espionaram o presidente francês, François Hollande, e dois ex-presidentes, Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, além de ministros das Finanças e empresários. Em resposta, Hollande realizou uma reunião de emergência do seu gabinete e ligou em seguida para Obama, que garantiu que os EUA deixaram de fazer espionagem. O ministro de Relações Exteriores convocou o embaixador americano em Paris para pedir explicações. Merkel fez o mesmo.

Diferentemente dos vazamentos europeus, os dados sobre o Brasil não contêm mensagens interceptadas, apenas enumera os alvos preferenciais dos EUA.   

Para monitorar a chefe do Executivo, a NSA selecionou nada menos que dez telefones diretamente ligados a Dilma. São telefones fixos de escritórios, como aquele usado pelo comitê de campanha, em 2010, no Lago Sul de Brasília, celulares marcados como “relações de Dilma” (“liaison”, em inglês) e a linha fixa do Palácio do Planalto.

Dornelles, assessor pessoal de Dilma, foi incluído na lista de “alvos” da NSA no primeiro ano do mandato e seu celular passou a ser atentamente monitorado.  O gaúcho de 35 anos, chamado pela presidente carinhosamente de “bebê” e “menino”, é há duas décadas seu fiel escudeiro. Começou a trabalhar como office-boy da presidente aos 14 anos, quando ela presidia a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, e a acompanhou em todos os cargos públicos desde então.  

O tema de interesse em espionar Anderson Dornelles está descrito como “Brasil: Assuntos Políticos”. Espioná-lo era considerado prioridade de “nível 3” (todos os alvos brasileiros estão nesse mesmo patamar) para o governo dos EUA. Quanto mais baixo o número, segundo a classificação da NSA, maior a prioridade. 

Dornelles-espionagem
Dornelles, assessor pessoal da presidenta, também na lista dos espiões. Créditos: Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo

Todos os alvos brasileiros têm prioridade “3”, enquanto os alemães são considerados prioridade “2”, assim como os presidentes franceses.

Outro integrante espionado foi Antonio Palocci, que deixou o governo em junho de 2011, após denúncias de enriquecimento ilícito: seu patrimônio aumentou 20 vezes entre 2006 e 2010. O então ministro Palocci era o principal articulador político do governo. 

A presidenta não era deixada em paz pelos ouvidos atentos da NSA nem mesmo quando estava em viagem. O telefone via satélite instalado no avião presidencial, o Airbus Força Aérea 1 também estava na mira. O avião é equipado com sistema de comunicação por satélite da empresa britânica Inmarsat, que opera 11 equipamentos posicionados em órbita geoestacionária ao redor da Terra. Nada disso evitou que os espiões norte-americanos pudessem acessar livremente o conteúdo das chamadas presidenciais a bordo do avião.  

Assim como no caso de Alemanha e França, o novo vazamento do WikiLeaks é eloquente ao mostrar que o governo dos EUA tinha como alvos preferenciais negociadores da política econômica e, principalmente, financeira. Nelson Barbosa, hoje ministro do Planejamento, foi espionado quando era secretário-executivo do ministério da Fazenda. O número fixo assinalado pela NSA é usado ainda hoje pela secretaria.  

Outro espionado foi o ex-chefe de gabinete do Ministério da Fazenda Marcelo Estrela Fiche, exonerado em dezembro de 2013. O embaixador Luís Antonio Balduíno Carneiro, que em 2011 era diretor do Departamento de Assuntos Financeiros do Itamaraty e hoje atua como diretor da Secretaria de Assuntos Internacionais do ministério da Fazenda, e o subsecretário de Relações Internacionais, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel, também constam na lista. 

A procuradora-geral da Fazenda, Adriana Queiroz de Carvalho, era outro alvo. Vinculada à Advocacia-Geral da União, a Procuradoria representa a União em disputas judiciais e dá assessoria jurídica ao ministério sobre créditos tributários, entre outros assuntos.

Luiz Awazu Pereira da Silva, que se prepara para assumir a vice-presidência no Banco de Compensações Internacionais, considerado o banco central dos bancos centrais, não escapou. Era diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. Posteriormente, comandou a Diretoria de Regulação do Sistema Financeiro e a Diretoria de Política Econômica do BC.  Nesse posto, atuou diretamente sobre a política de juros, como os aumentos ou redução da taxa Selic.

Além dele, também foi espionado o atual embaixador brasileiro nos EUA, Luiz Alberto Figueiredo Machado. O interesse em Machado teria relação com as negociações de acordos climáticos. Em 2011, eleera diretor do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Itamaraty. Foi secretário-executivo da Rio+20 e chefiou ao menos três delegações brasileiras nas Conferências da ONU para o Clima. Machado assumiu o Itamaraty após a saída de Antônio Patriota, em 2013, e permaneceu até o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff. 

A NSA monitorou ainda o telefone da residência do embaixador Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães em Genebra, o atual embaixador na Argentina, Everton Vieira Vargas, quando era representante na Alemanha, e a embaixada brasileira em Paris, segundo os arquivos. Procurados, nenhum dos “alvos” quis se pronunciar. 

As novas revelações do WikiLeaks mostram pela primeira vez os alvos específicos da NSA no Brasil. Em 2013, documentos vazados por Edward Snowden haviam revelado que milhões de e-mails e ligações de brasileiros e estrangeiros em trânsito no país foram monitorados. Snowden também revelou que as comunicações da Petrobras e de Dilma Rousseff eram espionadas.

Em resposta, a presidente cancelou uma viagem aos EUA que estava agendada e criticou publicamente a espionagem americana na Assembleia-Geral da ONU. Junto com o governo alemão o Brasil propôs ainda à ONU uma proposta que prevê regras para garantir o direito à privacidade na era digital.

Porém, antes da recente viagem aos EUA, Dilma Rousseff já dizia considerar o conflito como “uma coisa do passado”. Agora, depois da visita, considerada bem-sucedida, resta saber como o governo vai lidar com essas novas – e preocupantes – revelações. Afinal, pouco se sabe ainda sobre quais informações sigilosas foram acessadas e como isso foi usado para o benefício econômico e político dos americanos.

O que dizem os documentos

A base de dados publicada pelo WikiLeaks demostra como funciona o aparato de espionagem da NSA. Embora o órgão americano intercepte milhões de registros de telefonemas em diversos países, apenas alguns telefones são considerados alvos prioritários, aos quais os analistas devem estar sempre atentos.

Para que a espionagem seja conduzida é necessário que ela siga uma ordem de “Necessidade de Informação” promulgada pelo Departamento de Inteligência Nacional. O código dessa autorização aparece em todas as comunicações, bem como a unidade dentro da NSA que é encarregada de espionar as conversas.

Um documento de “Necessidade de Informação” de 2002, feito sob medida para espionar os franceses, estabelece como áreas de interesse informações sobre relações econômicas bilaterais, política macroeconômica e financeira, orçamento, contratos internacionais e negociações com instituições financeiras internacionais. Documento semelhante foi produzido sobre o Brasil, segundo consta na base de dados, mas seu teor não consta do vazamento do WikiLeaks.   

*Colaborou Renan Truffi