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Número 857,

Internacional

Estado Islâmico

O terrorismo sem fronteiras

por Gianni Carta publicado 05/07/2015 09h33, última modificação 06/07/2015 17h09
Os três atentados de sexta-feira 26 de junho provam a globalização do terror jihadista
Jassim Mohammed/ Reuters/ Latinstock
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Causa apreensão na Europe o retorno de vários convertidos. Terroristas potenciais.

*De Paris

Para celebrar o primeiro aniversário do “califado” do Estado Islâmico, três ataques terroristas foram deflagrados na sexta-feira 26 nas proximidades de Lyon, França. Em Sousse, 140 quilômetros ao sul de Túnis, capital da Tunísia. Em Kuwait City. Três continentes, mais de 60 mortos, centenas de feridos.

O porta-voz do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS), mais conhecido como grupo Estado Islâmico (EI) ou Daish, reivindicou o atentado em Sousse, onde um homem armado com uma Kalashnikov matou 39 pessoas e deixou 36 feridos. O Daish também assumiu responsabilidade pelo ataque de um homem-bomba em uma mesquita xiita no centro de Kuwait City, que deixou 27 mortos e mais de duas centenas de feridos. Não foi citado, porém, o ataque contra uma fábrica de gás em Saint-Quentin-Fallavier, sul de Lyon.

Por quê? Entrevistado pelo L’Express, o historiador Jean-Pierre Filiu comentou: “Foi um fiasco”. O autor do atentado decapitou seu patrão, conforme ritual comumente praticado pelo EI, mas o caminhão carregado de explosivos que ele projetou contra a construção da empresa não causou mortes. Mesmo assim, tudo leva a crer que o funcionário da transportadora tem elos com o EI. Após ter decapitado o patrão, dono de uma transportadora, enviou uma macabra selfie, a foto da cabeça decepada ao lado dele, para um amigo no Canadá. Detalhe: no momento o amigo está na Síria, militante do terror islâmico.

Numerosos analistas políticos, bem como periódicos na Europa e nos Estados Unidos, como o diário britânico The Guardian e o semanário americano Time, sustentam que os atentados “não foram coordenados”, como, por exemplo, aqueles ocorridos em Londres, dez anos atrás. As publicações percebem a gravidade dos ataques, mas por ora parecem rejeitar a existência de uma “coordenação”, para não semear nas populações mundo afora o objetivo-mor do Daish: insuflar medo.

Na França, onde em janeiro atentados mataram dez jornalistas do satírico Charlie Hebdo, e mais sete pessoas perderam a vida em sucessivos ataques em Paris, François Hollande disse: “Emoção não é a única resposta”. Acrescentou ser necessário pensar em como prevenir os atentados. O premier Manuel Valls concorda com o presidente no quesito medidas e prevenção. Porém, mais cético, ou realista, diz: “Esta guerra vai durar muitos anos”. Transparente é o seguinte: o Estado Islâmico transcendeu fronteiras. Se antes lutava no Iraque e na Síria, agora formulou um programa de atentados terroristas em solo estrangeiro. Criou, em suma, o terrorismo sem fronteiras. E tudo leva a crer que esse projeto terrorista parece superar ao da Al-Qaeda e de outros grupos.

De saída, o programa do EI é mais bárbaro: seus terroristas, vários deles treinados na Síria e no Iraque, decapitam as vítimas. Em miúdos, agora não vemos mais vídeos e imagens televisivas de figuras sombrias, cabeças envoltas em véus pretos, verdugos de vítimas ajoelhadas. Quanto aos ataques de sexta 26, aconteceram sucessivamente na mesma manhã em países de três continentes. Vale recordar que, quando perpetrados em um só país, como os EUA, ou em cidades, como em Madri, os atentados da Al-Qaeda tiveram menor eco do que se dá agora com os ataques concomitantes do EI.

Atentados podem acontecer a qualquer momento. O objetivo é sempre o mesmo: surpreender e matar o maior número possível de “inimigos”, isto é, estrangeiros. E também curdos e xiitas, os primeiros detestados por numerosos árabes, os segundos considerados heréticos pelos sunitas do EI. Daí a falta de reivindicação do atentado nas cercanias de Lyon, onde não houve grandes danos, apenas uma morte. Tratou-se, porém, da primeira decapitação em solo francês. E, assim, o objetivo dos atentados, o de semear medo, ganhou terreno.

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O problema para esses grupos é o fato de vários radicais não terem as características de um terrorista que passa à ação. Créditos: Emmanuel Foudrot/Reuters/Latinstock

Em reveladora pesquisa para o Journal du Dimanche, o Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) informa: na França, em estado de alerta máximo, 85% dos entrevistados consideram a ameaça terrorista “muito ou bastante elevada”. E, pela primeira vez na história contemporânea do país, simpatizantes socialistas, de centro-direita e da extrema-direita estão de acordo a respeito da gravidade da ameaça jihadista, como demonstram os respectivos elevados porcentuais: 89%, 90% e 89%. Para os europeus o quadro piora, porque 5 mil pessoas do Velho Continente foram lutar pelo Estado Islâmico. Destes, vários são oriundos de famílias de classe média. E inúmeros desses convertidos voltam para a Europa.

Esses ex-soldados fundamentalistas podem voltar a agir. É fácil delinear-lhes o perfil: frágeis do ponto de vista psicológico, eles ou elas também padecem de problemas de identidade, pois na maioria dos casos são de origem árabe, ou muçulmanos negros. A inserção desses franceses, italianos ou espanhóis em suas respectivas sociedades não costuma ser um passeio no parque. Na Europa, o racismo está em ascensão, impulsionado pela crise econômica. O caso encrespa com a crescente popularidade das legendas de extrema-direita, entre outras, a Frente Nacional, na França, e a Liga Norte, na Itália.

Como lidar com os ex-soldados do EI, ou de outros grupos terroristas, quando voltam para a Europa? Na França, por exemplo, foram criadas estruturas para alertar sobre a existência de possíveis nichos radicais, e outras para desradicalizar fundamentalistas. Grupos formados para tanto atuam em sintonia com outros, como a Associação Francesa de Vítimas do Terrorismo, esta especializada em detectar pessoas com potencial para a radicalização, ou já radicalizadas. O Ministério da Justiça implementou programas de prevenção e detecção de terroristas nas prisões, verdadeiros caldeirões para a criação de radicais islâmicos.

O problema para esses grupos é o fato de vários radicais não terem as características de um terrorista que passa à ação. Por exemplo, Yassin Salhi, o motorista que decapitou o patrão, não parecia ter o perfil do fundamentalista. Casado, pai de três filhos, emprego com contrato, ficha limpa na polícia. A DGSE, serviço secreto francês, monitorou Yassin em 2004, 2013 e 2014, quando esse filho de pais oriundos do Norte da África teve contato com salafistas. No entanto, provavelmente, por ele não ter antecedentes criminais, a DGSE deixou de vigiá-lo. À polícia, Salhi disse não ter contatos com o EI. Mostrou-se confuso, falou em tensões com a mulher. Mas, ao ser preso, gritou Allahu akbar, Alá é grande. Isso sem esquecer a selfie com a cabeça decepada.

Ainda mais indetectável como radical era Seifeddine Rezgui, o responsável pela carnificina de Sousse. Sem barba, estudante com mestrado, 23 anos. Talvez convertido ao frequentar mesquitas. Dia 26 chegou à praia do Hotel Riu Imperial Marhaba com um guarda-sol a camuflar uma Kalashnikov. Empunhou a arma e matou na praia do hotel, na piscina, no interior, até no estacionamento. Foi morto. Seu último post nas redes sociais diz: “Se o amor pela jihad é um crime (...) sou um criminoso”.