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Número 857,

Economia

Economia

Mercado perfeito e moral

por Delfim Netto publicado 08/07/2015 03h10
O sistema financeiro, outra vez completamente desregulado, voltou ao local do crime
Marcos Santos/ USP Imagens
MERCADO-FINANCEIRO

Como não sabemos como terminaria a crise de 1929 na ausência da preparação para a Segunda Guerra Mundial, continuamos a não saber como terminará a crise em que vivemos.

A economia mundial enfrenta uma desarticulação só experimentada nos anos 30 do século passado. A crise de 2007-2009 teve origem em causas que não são as das flutuações cíclicas do capitalismo. Numa larga medida, trata-se das mesmas, ou muito parecidas, com as que geraram a de 1929, combatida nos Estados Unidos por Roosevelt com profundas intervenções na economia (o plano New Deal). Uma delas foi a resposta do Congresso, que sob estímulo do Executivo aprovou o Glass-Steagall Act, de 1933.

Os bancos comerciais foram proibidos de financiar investimentos: ficaram limitados à recepção de depósitos e a empréstimos de curto prazo. Aos bancos de investimento foram reservadas as negociações com as ações e bônus, formas típicas de financiamentos de longo prazo. Quais os motivos? O mais importante foi a descoberta de que alguns banqueiros importantes, que operavam simultaneamente o curto (comercial) e o longo (investimento) prazo, aproveitando-se de informações internas (insider trading), tinham desenvolvido comportamentos eticamente condenáveis. No fim do dia, eles teriam produzido ou, pelo menos, agravado a depressão. Quem não estiver convencido, deve ler o famoso Relatório Pécora, que resultou do inquérito feito pelo Congresso americano. Ele revelou os riscos para a estabilidade econômica escondidos na expansão de um sistema financeiro absolutamente desregulado, o mesmo que se recriou a partir de 2000, como veremos a seguir.

Todos sabemos que um eficiente e competitivo sistema financeiro é elemento essencial para a mobilização das poupanças que financiam o investimento, alma do crescimento econômico. Tudo bem considerado, entretanto, foi visível até os anos 80 do século passado, que, apesar de terem prevenido outra “grande depressão”, as restrições impostas pelo Act de 1933 não eliminaram a repetição dos “ciclos de negócios” ínsitos na organização econômica das sociedades por meio dos “mercados”. É importante reconhecer que a eficácia da corajosa e enérgica operação rooseveltiana dos anos 30 nunca pôde ser avaliada porque a emergência da Segunda Guerra Mundial alterou tudo. A mobilização da “máquina de guerra”, a partir de 1939, fez deslanchar a economia americana até a volta do primeiro “ciclo de negócios” após a paz: do segundo trimestre de 1953, quando terminou a Guerra da Coreia, até o primeiro trimestre de 1954. 

Se a crise de 2007-2009, que insiste em não terminar, tem a mesma origem que a de 1929, é preciso perguntar: como isso foi possível? A resposta é que, nos anos 90 do século passado, o sistema financeiro começou a libertar-se da regulação imposta nos anos 30, alegando que ela prejudicava o desenvolvimento econômico. Com apoio no Congresso e suporte “científico” inventado ad hoc por uma tribo de economistas, cujos membros se enganam e se divertem mutuamente com o conforto do “mercado perfeito” (até na moralidade!), teve sucesso. E muito lucrativo... Assistiu-se, assim, em 1999, à revogação final do Glass-Steagall Act, de 1933. Pois bem, em menos de dez anos, o novo sistema financeiro – outra vez completamente desregulado – voltou ao local do crime. Promoveu, ou pelo menos ajudou a promover, a maior crise econômica da economia real dos últimos 75 anos.

Como não sabemos como terminaria a crise de 1929 na ausência da preparação para a Segunda Guerra Mundial, continuamos a não saber como terminará a crise em que vivemos. Aparentemente, ela deixou uma desorganização que se manifesta na redução da capacidade política e do produto potencial de todas as sociedades, consequências da continuidade do absoluto domínio das finanças sobre a produção de bens e serviços, que até agora os governos foram incapazes de corrigir. É visível, por exemplo, a desorientação do Fed, que tem titubeado (e faz bem, porque as informações são contraditórias) diante do temor de uma recidiva, como aconteceu em 1937, quando antecipou sua manobra sobre a taxa de juros.

Foi essa incerteza que tirou da gaveta o fantasma da “estagnação secular” criado por Alvin Hansen, em 1939, e recuperado por Larry Summers, em 2013. O Brasil, pelo recente comportamento de seu Congresso, parece querer flertar com ela.