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Número 856,

Cultura

Plural

Os retratos do esplendor

por Rosane Pavam publicado 01/07/2015 04h08
O Museu de Arte de São Paulo exibe 30 obras essenciais de seu acervo de arte italiana entre os séculos XIII e XVIII
Tintoretto-Itália

O óleo sobre tela de Tintoretto 'Pilatos Apresenta Cristo à multidão', de 1546

O menino Jesus volta o rosto da mãe em sua direção, ou talvez o gesto signifique que deseja sufocá-la com suas mãos de bebê. Em A Virgem com o Menino de Pé, Abraçando a Mãe (Madonna Willys), a madona contém a ira enquanto perscruta algo que nos é vetado olhar. No quadro realizado por Giovanni Bellini em 1480, a mãe jamais impede a ação do Filho de Deus, aparentemente resignada em nunca se equiparar a ele. Eis por quê, artificialmente de pé, a criança ganha uma altura elevada, contida pelas mãos torneadas da mulher. A luz é clara, as cores resplandecem, um parapeito se interpõe entre a cena e o observador, e a paisagem ao fundo se vê interrompida de forma abrupta por um painel de puro verde que parece descer dos céus. A cena geométrica, na qual linhas de composição dançam em paralelismos, não é a usual entre tantas representações religiosas do puro amor materno, e mais parece evocar um embate de forças no Olimpo que um mortal deve observar com a distância prudente.

Perturbador pela clareza pictórica, tanto quanto por suas possibilidades interpretativas no decorrer do tempo, esse óleo sobre madeira recebeu inúmeras cópias e reinterpretações. Entre elas, as promovidas pelo próprio Bellini, ilustre representante de uma família de pintores que, no século XV, transformou uma Veneza artisticamente provinciana no centro renascentista a rivalizar em importância com Roma e Florença. E é o Museu de Arte de São Paulo a possuir a obra dentro de seu acervo de arte italiana, único na América Latina pela quantidade e representatividade. Esta obra de Bellini se destaca em meio a três dezenas de óleos e esculturas que, compostos entre os séculos XIII e XVIII, integram o acervo do museu e podem ser vistos em seu segundo subsolo até o dia 20 de setembro na exposição Arte da Itália – de Rafael a Ticiano, sob a curadoria de Adriano Pedrosa e Tomás Toledo.

A ordem cronológica, diz Toledo, revelou-se ideal para compreender a diversidade da produção renascentista que domina a exibição, além da medieval e da barroca resultante. Os artistas ora cediam à representação como a ensinara o classicismo grego, ora ampliavam as paisagens, como seria a tônica romântica em Alessandro Magnasco, representado na exposição por Paisagem com Pastores, de 1710. Especialmente, como no caso do veneziano Jacopo Tintoretto, ensaiavam uma revolucionária celebração da vida comum. 

Dois dos quadros de Tintoretto expostos, o óleo sobre tela Ecce Homo ou Pilatos Apresenta Cristo à Multidão, de 1546, ou Lamentação sobre o Cristo Morto (ou Pietà), de 1560, parecem destoar da frieza e do rigor exibidos por aquela Virgem magistral. Nascido em 1518, dois anos depois da morte de Bellini, Tintoretto especializou-se no movimento dos personagens. Para compor poses complexas, valeu-se de pequenos modelos de cera, dispostos num palco e iluminados de diversos ângulos, de modo a experimentar efeitos de luz e sombra e composição.

Em Ecce Homo ou Pilatos Apresenta Cristo à Multidão, esta perplexidade se revela visível diante do palco. Um cachorro nos degraus traz o forte indício da vida nas ruas. Há drama e personalidade em sua representação, que parece convidar à participação de quem a observa. Desenhista formidável, Tintoretto ficou conhecido pelo revolucionário pincel, censurado como indesejável, contudo, pelo pintor, biógrafo e historiador Giorgio Vasari, aquele a exaltar a vida e a obra dos pintores do período, como os presentes na exposição Andrea Mantegna (São Jerônimo Penitente no Deserto, de 1448) ou Ticiano (Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo, 1552).

Virgem-arte-itália
A Virgem com o Menino em Pé, Abraçando a Mãe, de Bellini,1480
Antecessora da Virgem de Bellini, está exposta a obra primeiramente adquirida pelo fundador do museu, Pietro Maria Bardi, A Virgem em Majestade com o Menino e Dois Anjos, possuidora da obsessão simétrica que os renascentistas abandonariam pouco a pouco. A têmpera sobre madeira realizada pelo Maestro del Bigallo em 1275 seria doada por Bardi ao museu em memória de Lina Bo Bardi no ano de sua morte, 1992. E a obra estaria presente, ao lado de um pequeno óleo sobre madeira pintado por Rafael, no velório do fundador do Masp, sete anos depois.

Bardi adquirira Ressurreição de Cristo, de 1499, por firme intuição revelada a Walter Moreira Salles, o banqueiro e político mineiro que a doou ao museu. Mas não havia ainda para ela, em 1958, um certificado de autenticidade. Sua figuração variada, exposta de forma piramidal, seria atestada somente anos depois, quando, na Itália, descobriram-se os esboços de Rafael para a tela. Outro triunfo de Bardi fora recuperar para Pietro Perugino a autoria de São Sebastião na Coluna, óleo sobre tela realizado entre 1500 e 1510. A tela de inspiração simétrica (a figura do santo era de autoria do artista, enquanto o fundo fora pintado por integrantes de seu ateliê) mostrava o santo jovem e nu em seu martírio, em contraposição a representações anteriores que o traziam barbudo e vestido. A atribuição a Perugino deve-se ao crítico italiano Roberto Longhi, que derrubou uma antiga crença segundo a qual o quadro fora pintado por Rafael. Tratava-se, como Longhi queria, de uma variante de Perugino para uma conhecida pintura do Museu do Louvre, conforme está escrito em carta endereçada a Bardi em 20 de junho de 1947.

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São Sebastião na Coluna, óleo sobre tela de Perugino, 1500
A exposição recupera essa e outras correspondências trocadas entre a direção do museu e especialistas. Uma novidade está no modo de exibir os documentos. Em lugar de apartados do espaço expositivo, protegidos em balcões cobertos por vidros, eles se deixam entrever ao lado das obras, em painéis suspensos de 24 metros, à moda daqueles utilizados nos anos 1950, antes da inauguração da sede definitiva na Avenida Paulista, em 1968. Em dupla direção, conhecem-se assim o contexto artístico a envolver as obras do acervo e a história do museu a partir das ideias desenvolvidas pelo criador Pietro Maria Bardi e pela arquiteta de sua sede, Lina Bo Bardi.

Além disso, muitas imagens dimensionam a história do museu e os personagens a percorrer seus corredores. Uma fotografia em preto e branco parece destacar-se dentro da exposição. Nela, em 1958, o fundador do Masp e o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, postam-se diante da Virgem de Bellini. Bardi aproxima-se da pintura e nela aponta o parapeito, aquele a estabelecer, na pintura, uma clara distância em relação ao espectador. Conhecido pelo ímpeto modernizador, JK o observa, entre atento e surpreendido. Era como se, ao buscar compreender o quadro, desejasse fazer a história brasileira avançar, algo de tão difícil compreensão em tempos recentes.