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Número 856,

Internacional

Israel

Como a tese de "guerra moral" de Israel caiu por terra

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/07/2015 09h41
Sólido e devastador relatório da ONU desmonta os argumentos sionistas para as atrocidades em Gaza
Mohammed Abed/AFP
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Mais crianças foram mortas em Gaza que na guerra da Síria

Escaldada pela experiência da comissão da ONU presidida por Richard Goldstone sobre a guerra em Gaza de janeiro de 2009, a comissão sobre o conflito de 2014, comandada pela jurista e ex-desembargadora estadunidense Mary McGowan Davis, tomou muito mais cuidado em buscar provas, fundamentar acusações e evitar ilações desnecessárias, apesar da falta de cooperação de Israel, que não permitiu à comissão visitar Gaza ou falar com vítimas de ataques de foguetes palestinos.

A conclusão dos três meses de trabalho da comissão é semelhante à de 2009, porém mais sólida: Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra, mas aqueles dos israelenses foram mais extensos e sua responsabilidade é maior. A vice-chanceler Tzipi Hotovely criticou a “hipocrisia” das Nações Unidas em comparar Tel-Aviv com países que há muito não têm quaisquer direitos humanos básicos, mas isso é parte da questão. Israel alega merecer consideração especial dos EUA e do Ocidente por ser a “única democracia do Oriente Médio” e ter “o exército mais moral do mundo”. Esse discurso não lhe permite  portar-se com seus inimigos como a ditadura de Bashar al-Assad.

O Hamas foi responsabilizado pela morte de seis civis israelenses e um tailandês, ferimentos em 1,6 mil (inclusive 22 crianças), execução de 21 palestinos suspeitos de espionar para Israel e ameaça à população civil israelense ao redor de Gaza com a construção de túneis e o disparo indiscriminado de foguetes. Seria difícil a Israel confrontar a organização, entrincheirada em um território superpovoado como Gaza, sem danos colaterais a civis. Mas o relatório deixa claro que, ao contrário das alegações do governo de Benjamin Netanyahu, não houve esforço sério para evitá-los. Métodos muito mais terroristas e mortíferos que os do inimigo foram mantidos, apesar das críticas feitas desde o início da luta que durou 50 dias. “Quisemos enfatizar que o uso de explosivos em bairros densamente povoados é problemático e tem de mudar”, disse McGowan. “Não é ok jogar uma bomba de 1 tonelada no meio de um bairro.”

Além de ataques a prédios habitados, Israel destruiu bairros inteiros depois de exigir a saída dos moradores. perto de 28% da população de 1,8 milhão teve de fugir e 18 mil casas foram destruídas. Dos 2.205 palestinos mortos, 1.462 foram civis, 742 dos quais no interior de suas moradias. Isso inclui 557 crianças, mais do que as 368 vítimas infantis da guerra civil da Síria durante todos os 12 meses de 2014 (mas algo menos que as 710 mortes de menores de 15 anos no Afeganistão e 679 no Iraque no mesmo ano). Outras 4.249 crianças foram feridas e ao menos mil (de um levantamento sobre 2.955 atingidas) permanentemente incapacitadas. Houve 142 famílias com três ou mais integrantes mortos por bombardeios. 

O relatório não insistiu nos ataques de Israel a mesquitas, hospitais e escolas, em parte por não serem fatos novos, em parte por admitir implicitamente a versão de Israel de que o Hamas os usou como bases de ataques com foguetes a seu território, mas tomou nota da destruição de 30% das escolas e 50% dos jardins de infância e assinalou a extensão sem precedentes da destruição intencional de residências civis. A alegação de Tel-Aviv de ter avisado dos bombardeios com antecedência de minutos, por meio de telefonemas ou da prática de “bater na porta” com ataques iniciais de baixa intensidade, foi menosprezada pela comissão por ser ineficaz e não absolver o Exército de responsabilidade.

“O fato de Israel não ter revisado sua prática de ataques aéreos, mesmo depois de seus efeitos terríveis sobre os civis serem óbvios, levanta a questão sobre se isso foi parte de uma política mais ampla aprovada tacitamente, no mínimo, nos mais altos níveis do governo”, apontou a comissão, cobrando não só investigação, como indiciamento e punição dos responsáveis. Condenou em particular o arquivamento de um inquérito sobre a morte de quatro crianças ao brincarem em uma praia de Gaza em 16 de julho, sem interrogar as testemunhas. McGowan citou o caso como exemplo da incapacidade do Exército israelense de investigar a si mesmo.

Por mais que Israel queira ignorar o relatório, não poderá fugir das consequências. Para começar, ele abre caminho para processos contra autoridades israelenses no exterior, caminho aberto à Palestina desde sua admissão como integrante do Tribunal Penal de Haia, em abril de 2015, e torna cada vez mais problemáticas suas viagens ao exterior. De maneira mais ampla, é um sintoma claro de que o sionismo perde o controle da narrativa a seu respeito, ao menos fora das fronteiras do país.

A credibilidade do governo israelense na mídia, e mesmo entre aliados, não é mais o que era. O próprio Departamento de Estado dos EUA citou as estimativas de mortes de civis, mulheres e crianças palestinos da ONU em seu relatório sobre terrorismo de 19 de junho e não as de Israel, ao contrário do que fizera após a guerra de 2009. Deu caráter oficial a um novo e poderoso argumento para o movimento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, que em junho o primeiro-ministro Netanyahu citou pela primeira vez como uma ameaça existencial comparável ao Irã ou ao Hezbollah. Nos EUA, o movimento ainda é simbólico, apesar do amplo apoio entre estudantes universitários, mas a União Europeia aplica sanções reais contra produtos e investimentos nos territórios ocupados e a China proibiu o uso de suas empresas e trabalhadores nessas áreas. O investimento externo caiu 46% entre 2013 e 2014. Israel começa a ser visto como o era a África do Sul do apartheid em suas últimas décadas.

O Estado judeu recusa ouvir e promove uma propaganda que só prega aos convertidos, inclusive uma animação para ridicularizar os jornalistas estrangeiros em Gaza como idiotas e um livro do ex-embaixador Michael Oren para acusar Obama de trair Israel. Ao mesmo tempo, gera mais fatos concretos contra si mesmo. Não bastasse a morte e destruição em Gaza, a suspensão das negociações de paz e ministros que pedem abertamente a anexação de territórios palestinos, Israel maltrata e persegue refugiados e migrantes africanos, discrimina e reprime judeus negros, seu primeiro-ministro conclamou o voto judeu contra a “ameaça” dos cidadãos de origem árabe e seu vice-ministro do Interior, Yaron Mazuz, diz aos deputados árabes – cujos pais e avós viviam no país antes da migração sionista – estão lá de favor e deviam renunciar à cidadania por acusar o Exército de crimes de guerra.

Mais que o primeiro-ministro ou a chancelaria, com sua rejeição à consideração séria de negociações de paz e reconhecimento do Estado Palestino, é símbolo da ex-general e nova ministra da Cultura Miri Regev, que em entrevista a uma revista feminina reclamou daqueles cujos trabalhos deveria apoiar. “Artistas são um bando de ingratos que pensam saber tudo, de hipócritas que envenenam a vida. Não me sinto à vontade trabalhando com o mundo cultural.” Nestes dois meses de gestão, cortou verbas para um teatro por apresentar a peça sobre um palestino que matou um soldado israelense e ameaçou cancelar subvenções a uma companhia de teatro infantil na qual atuam crianças judias e palestinas por esta se recusar a se apresentar em colônias judaicas na Cisjordânia ocupada.

Igualmente sintomático do clima cultural tóxico foi o incêndio e depredação, por fundamentalistas judeus, da Igreja da Multiplicação de Pães e Peixes, templo beneditino construído no lugar do suposto milagre de Jesus às margens do Mar da Galileia. As paredes foram também pichadas com uma frase de condenação à adoração de ídolos digna do Estado Islâmico. Alguns jovens foram detidos para interrogatório, mas liberados sem acusações. 

Enquanto isso, a Rand Corporation, uma das consultorias mais ouvidas por Washington, adverte que Israel, cujo PIB é hoje de 290 bilhões de dólares, perderá 250 bilhões na próxima década se não fizer a paz, que lhe traria mais de 120 bilhões. Um estudo do próprio Ministério da Fazenda de Tel-Aviv, chefiado por Moshe Kahlon, aponta o risco de falência nacional, como resultado do crescimento da população judia haredim (religiosos ultraortodoxos que se dedicam à religião e não trabalham) e da população árabe marginalizada e excluída. Mesmo sem contar os territórios ocupados, esses dois grupos somarão metade da população em 2059. Antes disso, os judeus mais prósperos e produtivos, ou simplesmente mais ricos, poderão emigrar para fugir da carga fiscal crescente e da dívida pública insustentável. 

Somem-se a isso a instabilidade do Egito, o risco iminente de fundamentalistas se apoderarem da Síria e as mudanças econômicas, culturais, demográficas e geopolíticas que tendem a tornar Israel e o Golfo Pérsico menos vitais para Washington e o lobby sionista menos decisivo nas eleições estadunidenses. Não deveria ser preciso lembrar às lideranças israelenses que mesmo uma eventual vitória republicana em 2016 não garantirá um futuro para seu país se este não aprender a conviver com seus vizinhos, a começar pela Palestina.

*Publicado originalmente na edição 856 de CartaCapital, com o título "Guerra Moral? Conte Outra"