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Número 856,

Internacional

Europa

Na França, a extrema-direita tenta refazer sua imagem

por Gianni Carta publicado 28/06/2015 07h54, última modificação 29/06/2015 15h37
Marine Le Pen rompe de vez com o pai, Jean-Marie, e reformula as posições da Frente Nacional
Robert Pratta/Reuters/Latinstock
Marine-Jean-Marie-Le-Pen

Ela busca o voto gay, ele define o homossexualismo como praga. Tudo indica que o presidente honorário será expulso nos próximos dias

As relações nunca foram límpidas e tranquilas na luxuosa villa do século XVII da família Le Pen, nos subúrbios de Paris. Lá coabitam desde o avô Jean-Marie, fundador em 1972 da legenda de extrema-direita Frente Nacional, e uma caterva de familiares, até uma neta com o marido e a bebê do casal. Histórias sobre as discórdias políticas da dinastia, sem deixar de lado alguns escândalos, sempre circularam França afora para o deleite de muitos.

Aproxima-se agora um final trágico. Em maio, Marine, a filha caçula de 46 anos e desde janeiro de 2011 presidente da FN, colocou o pai, Jean-Marie, de 87 anos, em dois bancos dos réus: no tribunal de Nanterre, região metropolitana de Paris, e no do congresso “extraordinário” de militantes da FN. Os motivos foram vários, e vêm se acumulando em um inexorável crescendo. De saída, o pai desaprova a maneira como a filha dirige a FN. Boa oradora, carismática, a ex-advogada divorciada duas vezes e mãe de três filhos fala em “desdiabolizar” a FN. A rivalidade de Marine com o pai, pelo menos na arena política, parece remontar a 2011, quando ela condenou publicamente o Holocausto. Por sua vez, o pai sempre repetiu ter se tratado de um “detalhe” da história.  Em maio, Marine suspendeu o ex-líder da FN pelo fato de ele ter repetido a peculiar versão das câmaras de gás em entrevista ao jornal Rivarol, considerado anti-FN por ter inclinações ainda mais direitistas, se isso for possível. Le Pen sênior disse mais: elogiou o marechal Pétain, aliado dos nazistas. 

Em jogo para Jean-Marie está o título de “presidente de honra”, e até sua expulsão da FN. Veredictos serão emitidos nos dia 2 e 10 de julho, em Nanterre, no congresso da FN. O advogado do fundador fala em “eutanásia política”. Do seu canto, Le Pen, protegido por guarda-costas na sexta-feira 12 em audiência em Nanterre, disse: “Não quero que minha filha use meu sobrenome”. Marine não estava presente. Segundo a própria, esse caso já estaria consumado, pelo menos para os militantes do partido: Le Pen sênior perderá seu título honorífico no congresso extraordinário do partido.   

Quais seriam os motivos de Marine levá-la a tuer le père, matar o pai? No tablado político, ela já obteve uma vitória. Um ano após as eleições europeias, a presidente da FN conseguiu finalmente formar um grupo no Parlamento em Estrasburgo. A suspensão do pai da legenda por causa das suas declarações antissemitas inquietavam até legendas direitistas xenófobas, como o britânico Ukip, que, portanto, não queriam aliar-se à FN. Embora o partido contasse com o apoio de 38 eleitos em maio de 2014, número superior ao limite de 25 aliados, os eurodeputados não provinham de 7 dos 28 países da União Europeia, segunda condição para a formação do grupo. Agora a FN conta com 36 eurodeputados, incluindo dois extremistas poloneses e um ex-filiado do Ukip de sete países. Portanto, a FN torna-se o oitavo grupo em Estraburgo, e assim disporá, entre outros, de orçamentos especiais para financiar o trabalho de 23 eurodeputados da legenda extremista francesa, e mais o de 86 assistentes. No entanto, uma clara vitória para Marine não parece ter sido o motivo principal da suspensão do pai.

Na novela Le Pen, a rivalidade política geracional veio à tona após uma tragédia ocorrida no ano passado. Aconteceu no estábulo da mansão Le Pen, setembro de 2014. Os ferozes dobermans de Jean-Marie destroçaram o amado gato de raça bengalesa da filha caçula, Marine. Um mês depois, a presidente mudou de casa.

Le Pen sênior, consta, nutre certo rancor pelo fato de a filha frequentar com assiduidade programas de rádio, televisão, e dar entrevistas para jornais e revistas. A mídia o boicotava, mesmo no auge, em 2002, quando chegou ao segundo turno do pleito presidencial contra Jacques Chirac. No primeiro turno, derrotara até o então premier socialista Lionel Jospin. Isso, é claro, explicaria sua entrevista para um jornal panfletário como o Rivarol. Por sua vez, Marine era muito apegada ao pai. Aos 13 anos acompanhou-o em uma campanha. Três anos mais tarde, quando a mãe Pierrette fugiu com o biógrafo de Jean-Marie, deixando-a e as duas irmãs mais velhas com o pai, Marine aproximou-se ainda mais dele. Pierrette, do seu canto, posou para a Playboy. Em 2004, seis anos após ter parado de exercer a profissão de advogada, foi eleita eurodeputada.  

Embora, ao assumir a presidência da FN em 2011, ela tenha dito que a experiência do pai seria “insubstituível” e “um apoio determinante” para a legenda, a relação dela com o pai mudou. De saída, ela revelou não ser antissemita. Expulsou os skinheads e os neonazistas do partido. Seu braço direito, o vice-presidente gay Florian Philippot, detestado por Le Pen sênior, profissionalizou a FN. Representantes do partido, tecnocratas engravatados, agora engajam cidadãos para eliminar o estigma do partido. Marine corteja o voto homossexual, mas não a ponto de marcar presença nas paradas pró-casamento gay, em 2013. Mais à direita que a tia, Marion Maréchal-Le Pen, de 25 anos e há três anos eleita deputada (a mais jovem desde a Revolução de 1789), participou dos protestos contra o casamento gay. Marion, chamada Marionnette do avô, não parece pensar de forma diferente dele. Segundo Le Pen, a homossexualidade “é uma anomalia biológica e social”.

Embora não admita ser chamada de extremista, Marine, forte candidata para a presidencial de 2017, não engana, é bom esclarecer. Para acabar com a imigração, diz, é preciso fechar as fronteiras. Sua luta contra a “islamização” da França é francamente racista. Também quer abandonar o euro e restabelecer o franco francês, e não lhe falta quem aprove. 

*Publicado originalmente na edição 856 de CartaCapital, com o título "Golpe de cena na novela Le Pen"