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Número 855,

Economia

Economia

A produção da crise

por Vladimir Safatle publicado 23/06/2015 04h11
Por meio da estrutura monopolista de sua economia, o Brasil inventou o capitalismo sem concorrência
Roberto Stuckert Filho
dilma-infra-estrutura

A Presidente Dilma Roussef em reunião de decisão sobre o pacote de infra-estrutura, possível solução para a retomada do crescimento econômico

economia é um campo de saberes peculiar. Desde que as discussões sobre economia política e formação socioeconômica saíram paulatinamente de circulação, desde a troca de Celso Furtado por Gary Becker, a economia procura nos levar a acreditar que ela não seria exatamente uma ciência humana, mas algo próximo de uma ciência matemática. Sendo assim, os sujeitos que aparecem como agentes econômicos não parecem mais ser portadores de crenças, desejos e afetos. Antes, eles seriam agentes maximizadores de benefícios. Seus sistemas de interesses poderiam ser descritos a partir de uma pretensa racionalidade fundada em cálculos de custos e ganhos passíveis de mensuração e quantificação.

Com essa ilusão epistêmica a respeito de seus objetos, a economia procura ignorar sua dimensão normativa e levar a sociedade a partilhar tal ilusão. Enquanto campo de saber que visa legitimar políticas de intervenção social, ela tem uma característica partilhada por toda e qualquer ciência humana, a saber, sua performatividade. Contrariamente às ciências exatas e naturais, os objetos das ciências humanas apreendem reflexivamente os modelos de explicação sobre si mesmos e produzem novos efeitos e comportamentos a partir da internalização de descrições. As descrições em ciências humanas não são meramente constatativas, elas não simplesmente constatam o que já estava lá à espera de ser descoberto. Elas são performativas, ou seja, elas produzem novas realidades a partir do momento que os objetos aceitam reflexivamente as descrições a eles imputadas. Por exemplo, uma sociedade que, a partir de certo momento, compreende seus conflitos sociais através do conceito de “luta de classes” começa a criar fenômenos antes não produzidos e abre uma nova série de efeitos. Um sujeito que, a partir de certo momento, vê-se como portador de “depressão” (sim, a psicologia também é uma ciência humana) produz uma série de efeitos por unificar sintomas dispersos no interior de um quadro compreensivo unitário.

Vale a pena fazer tal digressão epistemológica para falar sobre a atual crise econômica brasileira. Uma crise também, a seu modo, peculiar. Normalmente, crises de economia nacionais são expressas, entre outros índices, por um porcentual elevado na relação entre PIB e dívida, como no caso da Itália, com sua relação em 128%. Mas não é o caso do Brasil, onde os níveis dessa relação são absolutamente normais. No entanto, é fato que o País conhece há muito processos de retração de investimentos. Nada estranho para uma economia montada para ser uma plataforma de valorização do capital financeiro e dos rendimentos de rentistas através de taxas de juros substantivas. Por sinal, o Brasil é um país onde a economia é declarada em crise enquanto seus principais bancos aparecem periodicamente com recordes de lucro líquido. Isso talvez explique por que o Brasil deve ser a única nação no mundo no qual o presidente da federação das indústrias mais importante do país, localizada no estado de São Paulo, não é há muito um industrial, mas um investidor.

Mas é fato vermos em manchetes superlativas que o medo (um conceito psicológico) se instalou e provocou a paralisia da economia. Agora, é necessário “criar um ambiente melhor para os investimentos”. O que significa, no senso comum atual, abrir as portas para um processo sem freios de intensificação do trabalho e redução dos salários. Isso poderia significar também lutar contra o caráter monopolista do capitalismo brasileiro, com sua oligopolização extensiva da economia patrocinada com dinheiro público. Afinal, quem investe quando já tem a segurança de controlar seu mercado e suas margens de lucro mesmo sem necessidade de investimento. O Brasil, através da estrutura monopolista de sua economia, inventou o capitalismo sem concorrência.

Assim, com suas descrições repetidas como mantra encantatório pela imprensa e com seus arautos pagos por consultorias do sistema financeiro para sair em cruzada contra todos os que subam a voz diante dessas leituras interessadas (vide a polêmica recente envolvendo a economista Leda Paulani), o discurso econômico nacional produz uma crise com causas próprias e em causa própria. Não é difícil saber a quem tudo isto beneficia.