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Número 854,

Internacional

Turquia

Erdogan sonha em vão

por Gianni Carta publicado 13/06/2015 08h12
Derrotado nas urnas, o presidente vê ruir seu projeto de islamizar o país, cujo futuro torna-se uma incógnita
Murad Sezer/Reuters/Latinstock
Campanha-de-Erdogan

Durante a campanha, Erdogan disse ser o HDP um partido de gays, ateus e terroristas. Não adiantou

É o começo do fim de uma era, com um imprevisível futuro. Teve início nas legislativas de domingo 7, quando o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) angariou 41% das vozes, quase 10 pontos a menos em relação ao resultado de 2011. E, assim, a legenda dita islâmica moderada do presidente Recep Tayyip Erdogan não obteve pela primeira vez, nos últimos 13 anos, maioria absoluta. Inesperada, por sua vez, foi a marcante presença de Selahattin Demirtas, exímio orador de 42 anos a liderar uma formação secular de esquerda, pró-curda e pró-minorias, o Partido Democrático do Povo (HDP). Nunca, desde a imposição da barreira de 10% imposta por militares golpistas há quatro décadas, uma agremiação de núcleo curdo havia adentrado o Parlamento. Com 80 cadeiras, contra 258 do AKP, o HDP tornou-se a pedra no sapato de Erdogan. A legenda do presidente precisava de 276 assentos para dispensar qualquer aliança no Parlamento de 550 deputados. Apesar dos não desprezíveis 41% amealhados pelo AKP, o premier Ahmet Davutoglu, 56 anos, pediu demissão na segunda-feira 8. Erdogan aceitou-a prontamente. Davutoglu não passava de um Medvedev turco.

Três vezes premier, Erdogan, 61 anos, eleito presidente da República de forma direta pela primeira vez na história do país em agosto de 2014, precisava de maioria absoluta para realizar um referendo decisivo. Objetivo: conferir poderes executivos à Presidência. Por tabela, a Turquia deixaria de ser uma República parlamentarista. Se, por um lado, Davutoglu preferiu não encarnar o Medvedev turco, do seu canto Erdogan certamente ainda sonha tornar-se o Putin turco. Não surpreende o fato de que o presidente russo seja o maior aliado internacional de Erdogan.

Demirtas
Demirtas, líder do HDP pró-curdo, colheu um resultado que o torna a pedra no sapato de Erdogan / Crédito: Adem Altan/AFP

Como agirá Erdogan? Ele poderia governar sem maioria absoluta no Parlamento, o que o obrigaria a convocar eleições antecipadas. A alternativa seria formar uma aliança com a outra legenda conservadora, o Partido do Movimento Nacionalista (MHP), terceiro no pleito com 16,29% dos votos. No entanto, logo após o pleito, Devlet Bahceli, o novo líder do MHP, rejeitou a hipótese. Bahceli, segundo consta, menos reacionário que seus antecessores de inclinações francamente fascistas, sugeriu a aliança entre o HDP e o esquerdista Partido Republicano do Povo (CHP), segundo colocado no pleito com 25% dos votos. Difícil Erdogan aceitar. Davutoglu, no cargo até a formação de novo governo, tentaria forjar uma coalizão com o CHP, e até com o HDP.

As eleições realizaram-se sem incidentes no dia da votação, mas acidentada foi a campanha eleitoral, não faltaram ataques ao HDP, apontado por Erdogan como um partido de ateus, gays e terroristas separatistas. Setenta atentados à bomba foram cometidos nos comícios da legenda de Demirtas e deixaram dois mortos e centenas de feridos em Diyarbakir, no sudeste habitado pela maior minoria do país, a curda, equivalente a 20% da população. Demirtas disse: “Erdogan deveria ir a Diyarbakir, ele não é o presidente de 77 milhões de pessoas?” 

Tolga Demiryol, da Universidade Kemerburgaz de Istambul, disse a CartaCapital em uma entrevista em junho de 2013: “A Turquia nunca teve uma verdadeira democracia”. Proclamada de fato apenas em 1950, foi abortada por golpes militares. “Intervenções fardadas e seus subsequentes regimes atrofiaram o desenvolvimento da sociedade civil”, diz Demiryol, segundo quem a Turquia “está parcialmente dividida entre muçulmanos laicos, ou moderados, e os favoráveis à islamização do país”.

Nos seus primeiros mandatos como premier, Erdogan respeitou os valores de laicos e muçulmanos praticantes em uma Turquia europeia e, ao mesmo tempo, asiática. Nos sentidos geográfico e cultural. E a despeito da crise mundial, em 2013 a economia turca cresceu 4%. A Turquia era então um modelo de país muçulmano onde havia liberdades, e laicos e religiosos praticantes viviam lado a lado sob governos seculares. No entanto, naquele mesmo ano, Erdogan revelava uma faceta desconhecida. Há quem diga que passou a alimentar um sonho de sultanato.

Atentado-a-bomba
A legenda pró-curda sofreu 70 atentados à bomba durante a campanha. Foram 2 mortos e centenas de feridos / Crédito: Ilyas Akengin/AFP

Sempre em meados de 2013, uma multidão de jovens, na Praça Taksim e em ruas adjacentes de Istambul, enfrentava militares contra a “islamização” do país. À época, colhi a fala de Simla, uma jovem que protestava contra a proibição da venda de álcool a partir das 22 horas, e o banimento da pílula do aborto, e a considerei muito representativa: “Agora sabemos que temos poder, e poderemos voltar a agir”.

“Não creio que o AKP tenha perdido votos por causa de uma islamização do país nestas eleições legislativas”, observa uma fonte muito importante que prefere manter o anonimato, “pois não vivo em uma democracia europeia”. Ele teme represálias como aquelas de 2013? “Não, por ora temo forças ocultas que podem matar um punhado de críticos.” E emenda, a falar pelo telefone na terça 9: “Creio que Erdogan fará propostas atraentes e difíceis de recusar a partidos como o MHP e o HDP”. E como explicar o fato de o AKP ter perdido tantos eleitores? “A economia e a personalidade despótica de Erdogan se sobrepõem à agenda dele de islamizar o país.” O interlocutor diz estar farto de ver Erdogan na televisão e em outdoors. O pior, continua, é que o onipresente Erdogan, sempre a brandir o Alcorão, “sabe tudo”. Como Mussolini.

Diga-se que Demirtas obteve apenas três horas de campanha televisiva entre 3 de maio e 3 de junho. Por sua vez, Erdogan deu o ar da graça nos vídeos durante 54 horas. De acordo com a Constituição, o presidente da República deveria ser neutro. Demirtas foi sucinto: “Os partidários da democracia e da paz ganharam. Perderam aqueles favoráveis a uma autocracia e que se consideram proprietários da Turquia”.