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Número 853,

Sociedade

The Observer

Charlie Hebdo: O lucro da tragédia

por The Observer — publicado 12/06/2015 04h24, última modificação 12/06/2015 04h24
Jornalistas da publicação francesa exigem a renovação editorial e a transformação do agora rico semanário francês
Martin Bureau/AFP

Aos 48 anos, Laurent Sourisseau, o Riss, conhecido por suas caricaturas de Nicolas Sarkozy, assumiu a função de editor do semanário satírico Charlie Hebdo depois de sobreviver ao atentado na sua reunião de pauta de 7 de janeiro, que resultou em doze mortos. Riss ocupa o centro de uma tempestade emocional diferente, em meio a discórdias entre a equipe editorial e a administração sobre o que fazer com as doações e os lucros de 12 milhões de euros ganhos por um jornal até recentemente à beira da falência.

O Charlie enfrenta o fardo de se reinventar depois que oito integrantes de sua equipe foram mortos a tiros, entre eles alguns dos mais conhecidos cartunistas do país, Charb, Cabu, Wolinski, Honoré e Tignous. O renomado cartunista Luz, que sobreviveu porque estava de ressaca e se atrasou para a reunião, anunciou sua saída para setembro, porque cada edição produzida sem seus amigos e colegas mortos é “uma tortura”. O nó em seu estômago é tão grande que ele lhe deu o nome de Ginette e em maio lançou um livro de desenhos a respeito.

Enquanto isso, a equipe trabalha no escritório temporário fortemente protegido em um andar do jornal Libération, entre flash backs e sessões de psicoterapia, reconfortando os parentes dos mortos e visitando os três sobreviventes ainda hospitalizados. “O clima é desanimador”, diz um jornalista. Mas todos reconhecem que em cada manhã de quarta-feira, no aniversário do ataque, eles deixam os maus sentimentos de lado e se sentam à mesa da reunião de pauta para fazer um bom jornal.

“O Charlie deve continuar e vai continuar”, comenta Riss. “O fato de todo o mundo voltar os olhos para cá nos incentiva a seguir em frente sem pavor.” O diretor é alvo de uma fatwa (condenação islâmica) depois de 20 anos no semanário, e há poucos dias houve relatos de que a polícia interrogou dois suspeitos por fotografar o edifício onde ele mora. No dia do ataque em janeiro, Riss se abaixou enquanto os outros ficaram de pé. Uma bala destroçou sua omoplata, comparada pelos médicos com “um prato quebrado no chão”. No hospital, ele pensou que atiradores voltariam para acabar com ele. “Cada um lida com isso de modo diferente”, diz. “Fisicamente, estou melhor que antes.”

Desde os ataques, o jornal recebeu 4,3 milhões de euros de 36 mil doadores de 84 países. O Estado francês deu 1 milhão de euros, o Google 250 mil e o grupo de mídia Guardian, 100 mil libras. Em paralelo, o aumento das vendas reforçou os lucros da publicação, que não tem publicidade. Antes do ataque, o Charlie tinha uma tiragem de 24 mil a 50 mil exemplares semanais. Mas sua “edição dos sobreviventes”, publicada depois dos atentados, vendeu 8 milhões de cópias, e as vendas semanais deverão se estabilizar em ao menos 100 mil. Hoje ele tem 200 mil assinantes pagos, em comparação com os 8 mil antes dos ataques, e os lucros das vendas desde janeiro estão em cerca de 12 milhões de euros brutos.

Contudo, mais da metade da equipe, Luz incluído, publicou recentemente um artigo no jornal Le Monde pedindo total transparência na utilização do dinheiro e exigindo que o jornal seja transformado em uma cooperativa. A administração prometeu que as doações serão distribuídas, por meio de um painel independente, às famílias das vítimas. Enquanto isso, os lucros serão reinvestidos no jornal. Mas Riss descartou um modelo de cooperativa, e nenhuma decisão sobre o futuro do jornal será tomada até setembro.

Riss possui 40% do Charlie, desde um acordo feito quando suas ações nada valiam. Outros 40% pertencem aos pais do ex-editor Charb, que herdaram sua parte, e 20% são propriedade do editor-gerente Eric Portheault. Há memórias amargas de 2006, quando a edição que apresentou charges de Maomé vendeu 500 mil exemplares e os acionistas anteriores silenciosamente levaram para casa dividendos de seis dígitos.

Outro desafio é reinventar o jornal digitalmente e na versão impressa e incentivar uma nova geração de cartunistas. Há dificuldades para preencher a enorme lacuna deixada pelos cartunistas mortos. Os artistas jovens preferem o mundo mais seguro e lucrativo dos livros de quadrinhos, novelas gráficas e ilustrações. Laurent Léger, jornalista investigativo do Charlie que sobreviveu ao ataque em janeiro e assinou o apelo coletivo por transparência, diz: “Tenho uma sorte incrível por estar vivo, e não posso me queixar. Mas estou desgastado, cansado, magoado em perceber que a administração tarda a assimilar a absoluta necessidade de reestruturar o jornal e o modo como é dirigido”. Ele acrescenta: “Meu sonho é uma publicação realmente criada de forma coletiva, mais jovem, com um tipo de sátira moderna, política como sempre, mas enfocada na cultura. Estou confiante em nosso futuro, porque pequenos passos foram dados na direção de torná-la mais coletiva. Claramente não o suficiente, por isso precisamos nos manter vigilantes”.

A produção de notícias continua, mas o acesso pode ser mais difícil. A repórter Solène Chalvon diz: “Os mesmos que estamparam Eu Sou Charlie na passeata de 11 de janeiro vetam a participação em nossas reportagens por questões de segurança. Por exemplo, colégios, clínicas de aborto, prisões, especialmente instituições do Estado. Isso torna o trabalho muito difícil”. 

“Não somos heróis e nunca quisemos ser”, disse Luz ao Libération sobre o terrível esforço de trabalhar desde os ataques. Nos escritórios do jornal, a equipe se sente bem recebida e ajudada. “As condições são boas e nós vemos outros jornalistas”, diz um membro da redação. “Mas, quando mudarmos e formos somente nós, terei mais medo. É por isso que qualquer diferença entre a equipe tem de ser resolvida agora.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 853 de CartaCapital, com o título "O lucro da tragédia"