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Número 852,

Internacional

Reino Unido

Nos subterrâneos da pedofilia

por Gianni Carta publicado 30/05/2015 08h42
Uma investigação ainda em andamento revela 1.432 praticantes
Martin Godwin

Os resultados iniciais de uma investigação sobre a pedofilia no Reino Unido revelam a atividade de uma nebulosa rede, da qual, segundo dados ainda sujeitos a confirmação definitiva, participariam 1.432 cidadãos, entre eles, 76 políticos, 43 empresários ou executivos da indústria musical, e 175 oriundos da televisão, cinema e rádio. Iniciada no ano passado, a Operação Hydrant, dirigida por Simon Bailey, já colocou atrás das grades algumas personalidades como, por exemplo, o famoso publicista Max Clifford. Segundo Bailey, há centenas de milhares de vítimas. Somente neste ano, o número de denúncias de agressões sexuais aumentou em 71%, em relação a 2012.

Entre as 116 mil denúncias previstas para 2015, 52.446 remontam aos anos 1970, 1980 e 1990. Como disse ao The Guardian o deputado trabalhista Tom Watson: “Por gerações fechamos os olhos para o escândalo de abuso infantil na Grã-Bretanha”. Em 2012, Watson foi o primeiro a delatar a rede pedófila “ligada ao Parlamento de Westminster, e ao número 10 de Downing Street, o endereço de premier”.

De fato, em março deste ano, veio à tona outra bomba para macular a imagem da nação. Em entrevista ao Mail on Sunday, um deputado trabalhista contou que Margaret Thatcher condecorou o deputado liberal Cyril Smith, isso embora corressem rumores de que ele abusava de menores. Por coincidência, as investigações sobre o condecorado cessaram. Ele morreu tranquilo, em 2010. Como, aliás, a estrela midiática da BBC, Jimmy Savile, durante décadas um “predador sexual” de crianças, inclusive daquelas incapacitadas nos hospitais por ele bondosamente financiados. Savile morreu enquanto dormia, em outubro de 2011.

Sentada a uma mesa do elegante bar do Hipódromo de Longchamp, em Paris, a britânica Victoria Haigh avalia: “Nada vai mudar em relação aos pedófilos no Reino Unido”. Jóquei campeã e treinadora de cavalos, Victoria, de 43 anos, é vítima da rede de pedofilia britânica. Perdeu a custódia da primeira filha, agora com 11 anos, para o então marido, David Tune. Motivo: acusou-o de abusar da menina, então com 4 anos. Ao tentar se aproximar da filha em um estacionamento, foi condenada a três anos de prisão, em dezembro de 2011. Ficou presa por nove meses. Voltou à cadeia quando convidou a filha para o batismo da irmã, filha de outro casamento, Sapphire.

Victoria mudou-se para Paris. Antes de tudo, diz entre goles de San Pellegrino: “Queria protegê-la, embora eu tenha feito questão que Sapphire viesse ao mundo na República da Irlanda”. A filha de 4 anos, ruiva de olhos azuis, desenha ao nosso lado. Victoria diz sentir-se uma “refugiada”. Contratou uma advogada francesa para defendê-la na Corte Europeia. Objetivo: exigir o direito de se manifestar no Reino Unido. “A Justiça Britânica tratou o meu caso como se fosse aquele de um divórcio no qual se disputava a custódia de nossa filha.” No entanto, a filha mais velha, conta Victoria, “me falava que estava sendo abusada pelo pai”. À época, Victoria contestou o sistema jurídico britânico. Grave ofensa à Justiça do UK, que cuidou de se precaver. Resultado: foi considerada “mentalmente instável” e, assim, a filha mais velha voltou ao pai. As acusações de Victoria nem sequer foram investigadas.

Como apurou uma reportagem de CartaCapital em novembro de 2014, além de políticos e celebridades, estão envolvidos também juízes, advogados, psiquiatras e assistentes sociais. Os subterrâneos da rede pedófila britânica são sinuosos. E, como diz Victoria, “as pessoas dispostas a jogar luz sobre eles são silenciadas”.  No caso de Victoria, fonte também da matéria de 2014, a única opção era fugir do Reino Unido. Foi Ian Josephs, empresário de 83 anos formado em direito, quem a ajudou a ir para a República da Irlanda. Baseado no Sul da França, Josephs criou uma campanha por ele alcunhada Adoção Forçada. Objetivo: oferecer ajuda financeira a mães grávidas para sair do UK.

Josephs disse a CartaCapital: “Mais de 25 mil crianças anualmente são retiradas do poder de pais britânicos, a maioria dos quais não cometeu crimes”.  Acrescentou Josephs: “O sistema vale mais de 2 bilhões de libras por ano”. Essa soma, arrecadada graças às audiências em cortes secretas no Reino Unido, é repartida entre juízes, psiquiatras “domesticados” e assistentes sociais. 

Eis a questão: como definir o pedófilo? Normalmente, o adulto a abusar sexualmente de alguém com menos de 16 anos. Essa definição seria validada pelo fato de em vários estados dos EUA adolescentes poderem casar aos 16. Segundo o professor Michael Seto, psicólogo forense citado por Andrew Gilligan, do Daily Telegraph, pedófilo seria aquele com interesses sexuais por crianças pré-púberes, isto é, com menos de 12 anos. Atua em escolas, estabelecimentos de ajuda a crianças, centros religiosos etc. Essa escala etária parece um pouco rígida, visto que o amadurecimento das crianças varia. Em 1960, Josephs trabalhou no caso de uma mãe que perdeu o filho para a assistência social. O menino, de 12 anos, com QI de 150, elevadíssimo, estava recluso em uma escola quatro vezes mais cara que Eton, a escola privada de maior prestígio. Josephs indagou ao menino se o ensino era bom. “Péssimo.” Há algo de bom? “Sim, ganho dinheiro, e bastante, dormindo com os professores.” 

Apologistas da pedofilia não escasseavam no mundo acadêmico em 2014. Seminários em Cambridge questionavam se a pedofilia não seria algo “normal”. Gilligan cita o professor da Universidade de Essex, Ken Plummer, o qual escreveu, em 1981: “Dizem aos pedófilos que não passam de sedutores e estupradores de crianças... Dizem a eles que crianças são puras e inocentes, desprovidas de sexualidade...” Em 2012, Plummer escreveu: devido ao fato de a homossexualidade provocar menos “pânico”, “agora o novo pária é o pedófilo, o mais recente diabo popular...” Plummer ainda é apresentado no site da universidade como professor emérito. 

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