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Número 852,

Cultura

Papinho Gourmet

Made in Brazil

por Marcio Alemão publicado 04/06/2015 04h04
O ufanismo chegou à cozinha

Sabadão de sol na casa do amigo.

Uma bonita mesa posta do lado de fora, na varanda.

E o dono da casa, feliz, oferece ao amigo um pedaço de pão com um pouco de azeite de oliva.

– Prova e me conta.

O amigo prova e não consegue achar nada.

– Contar o quê?

– Não é bom?

– Bom. Mas prefiro um azeite menos atrevido.

– Ah! Bingo! Atrevimento. Essa é a palavra. Este é um azeite 100% nacional, verde-amarelo, meu amigo. E se não fosse o atrevimento desses empreendedores, ele não existiria. 

– Talvez existisse uma banana ainda melhor ou um feijão de excepcional qualidade, uma mandioca sem fiapo grosso...

– Você é uma pessoa sem visão.

– O mundo já produz azeites excepcionais. Não vejo como concorrer e nem por quê.

– Por favor, meu amigo! Que besteira é essa? Só porque na Europa fazem os melhores vinhos a gente não deveria nem tentar?

– Francamente? Eu diria que sim. Por que não trocamos? Frutas por vinhos, por exemplo.

– E a soberania nacional, para onde vai? E o orgulho? E a Carta do Caminha, jogamos no lixo. Aqui tudo dá e nós, audazes e visionários brasileiros, de tudo fazemos e faremos.

O amigo percebe que naquele território a neutralidade não faz eco.

– Claro. Acho que você tem razão. Veja nossos embutidos, que maravilha. 

– Os artesanais são espetaculares ou não?

– E com uma característica muito particular: o excesso de sal, que cá entre nós é muito bom porque já chama uma cervejinha artesanal, brasileira, claro.

– Agora você tocou num ponto. O brasileiro é o povo mais genial do planeta. Descobrimos, de repente, que somos mestres cervejeiros bem melhores – não, não vou deixar o ufanismo me levar –, mas diria que tão bons quanto os alemães e os belgas.

– E mestres queijeiros.

– Posso falar? Prefiro muito mais o nosso reblochon do que o francês ou o suíço.

– Falando em França, vou te revelar uma das mais sórdidas manobras já urdidas no campo do lobby da gastronomia.

– Opa! Agora fiquei curioso. 

– O foie gras.

– O que tem o foie... não! É o que estou pensando?

– Exatamente, meu caro. Os franceses começaram a tremer quando provaram o nosso foie gras produzido por gansos que nunca falaram uma palavra em francês.

– Eu sabia! E não vai haver retaliação?

– Deveria. Você liga pra Dilma ou ligo eu?

– Faço questão. O foie gras é nosso!