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Número 851,

Cultura

Papinho Gourmet

Salvemos os gansos

por Marcio Alemão publicado 27/05/2015 03h39
Proibir o comércio de fois gras vai ajudar quem?
Eduardo Estéllez/Getty Images

–Eu estou desesperado.

– Não é para tanto.

– Isso diz você.

− É consenso.

− Pois eu quero que você e seus seguidores vão pro meio do inferno.

− Veja só: típica reação.

− Típica do quê?

− De pessoas que se submeteram ao longo da vida a um tipo de alimentação que não considera o próximo.

− E essa tua frase é típica de pessoas ignorantes que confundem rendez-vous com art nouveau

− A agressividade é consequência do que você come.

− A agressividade é consequência do que sou obrigado a engolir. A sua estupidez e a dos teus demais seguidores é um bom exemplo.

− Estamos em pleno século XXI. A barbárie não pode seguir prosperando.

− Que espetáculo de frase. O que significa “pleno século XXI”? Os primeiros 10, 20 anos?  E sobre a barbárie, você acredita que essa lei resolve a questão?

− Parte dela.

− Uma parte insignificante.

− Diz você.

− Digo eu e a torcida do Barça no mundo todo.

− Você já presenciou a cena brutal do cone sendo inserido na garganta do pobre ganso?

− Você já encarou um boi, já viu seu olhar tristonho? Já viu um novilho pulando pelo pasto? Já viu milhares de galinhas amontoadas em um caminhão?

– Já.

− Eu pensei que você fosse capaz de utilizar argumentos mais contundentes.

− Ótimo: porque essa turma da Câmara não vai cuidar de assuntos mais relevantes pra cidade? Tem um monte de praças precisando de um bom nome, de uma boa homenagem. Viadutos sem conta à espera de uma placa nova, profissionais liberais ansiosos por terem o seu dia: o podólogo. Temos o Dia do Podólogo? Não é um assunto relevante?

− Dia 4 de dezembro.

− É uma sugestão ou uma informação?

− Dia 4 de dezembro é o Dia do Podólogo.

− Nossa! Então a turma tem trabalhado mais do que eu poderia imaginar. E ainda assim arrumaram tempo pra perturbar a vida de quem gosta de foie gras.

− Para proteger um animal.

− Nisso vocês são bons, admito.

− A sua ironia é pouco construtiva.

− E vocês acham que proibir o comércio de foie gras vai ajudar quem?

− Aos gansos.

− Agora você me pegou. De fato, os gansos não têm a quem recorrer. O sindicato dos gansos é um dos mais fracos, sem representatividade. É verdade. Se o pessoal da Câmara não cuidar deles, quem irá?

− Pois é.

− Pois é.