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Número 851,

Economia

Financiamento

O crédito entra no volume morto

por Vanderlei Campos — publicado 01/06/2015 05h06
A oferta de empréstimos para consumidores e empresas diminui, a demanda cai e a incerteza aumenta
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O aperto creditício coloca em risco cerca de 3 milhões de postos de trabalho

Após forte desaceleração da oferta de crédito desde o começo do ano, agora empresários e consumidores puxam o freio. Segundo a Serasa, a procura de empréstimos por indivíduos recuou 12,2% em abril, e a demanda das empresas caiu 12,3%. As instituições financeiras sustentaram seus lucros, no primeiro trimestre, mais em ganhos de tesouraria e melhoras operacionais do que em suas carteiras de crédito. As severas restrições impostas pelo ajuste fiscal à atuação dos bancos públicos, principais financiadores do setor produtivo, e a política de juros altos, que estimulam aplicações em títulos do governo, reforçam o pessimismo dos agentes econômicos quanto ao desempenho da economia.

No primeiro trimestre, o BNDES desembolsou 33 bilhões de reais, 24% abaixo do financiado no mesmo período de 2014, em consequência da nova política operacional. “O banco vem reduzindo os níveis de participação máxima em TJLP, a taxa de juros de longo prazo, nos seus financiamentos, e abrindo mais espaço para a presença do mercado de capitais no financiamento de longo prazo”, diz um comunicado da instituição. “Com juros que quase dobraram, para 11%, em algumas linhas, fica complicado. Praticamente, acabaram com o BNDES, a única fonte de investimentos a taxas compatíveis com o retorno na indústria, sem criar um mercado de capitais competitivo”, diz Mário Bernardini, diretor de Competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. “No mundo, os bancos cobram a taxa básica mais 5%, em média, no spread. Aqui, a Selic é 13% e o mercado chega a praticar 60%.” 

O aperto monetário pode custar a extinção de 3 milhões de empregos, com efeito limitado na inflação, alerta Bernardini. “A elevação da taxa de juro é uma bravata. Um terço da inflação se deve a preços administrados”, argumenta. O Banco Central prevê eliminar, até 2016, 3 pontos porcentuais da inflação dos preços administrados, mais 1% da inflação como um todo. Atingida a convergência para o centro da meta, a Selic começaria a ser reduzida. 

Uma depreciação de 20% no câmbio, com o dólar a aproximadamente 3,6 reais, teria um impacto de 5% nos custos da indústria. O setor ficaria mais competitivo, mas há resistência do pessoal endividado em dólar. Eles tiveram muitas oportunidades de adquirir contratos de swap e agora deveriam pagar pela imprudência.

As mudanças na remuneração da caderneta de poupança, feitas em 2013 com a perspectiva de uma Selic descendente, tornaram a aplicação pouco atraente. Além disso, pequenos poupadores sacaram as suas reservas para quitar contas. Como resultado, entre janeiro e abril deste ano, o Banco Central registrou a retirada de 23,7 bilhões de reais. Para Octavio de Lazari Jr., presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, a prosseguir nesse ritmo, a evasão chegará a 74 bilhões de reais no ano. Segundo determina a legislação, 65% dos depósitos destinam-se ao financiamento de imóveis. Desde abril, a Caixa Econômica Federal, detentora de 70% do crédito imobiliário, reduziu os financiamentos de 80% para 50% do valor total e aumentou os juros. As vendas de imóveis em São Paulo, que diminuíram 35% em 2014, esfriaram ainda mais. Em maio, os bancos reajustaram a tabela de juros para entre 9,7% e 12,5%, conforme a instituição e o perfil de cliente.

“A Caixa, o Banco do Brasil e o Santander têm uma situação diferente. Esses bancos tinham muitos contratos lastreados na poupança e, com a queda dos depósitos, têm de captar por meio de letras de crédito imobiliário. A captação a 6% passa a custar 12%”, informa José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC). “Daquele total, 20% são emprestados a taxas livres e 80% com teto de 12%. Com o tempo, os bancos cumpriram essa exigência com a compra de certificados de recebíveis imobiliários. Isso fez algum sentido, mas precisa ser revisto, até porque há CRIs lastreados em imóveis fora do perfil de Sistema Financeiro de Habitação”, diz Martins. “Deveriam criar um limite ou uma taxação na compra desses papéis, para incentivar os desembolsos em financiamentos”, resume Daniele Akamine, diretora da Akamine Negócios Imobiliários. Principalmente no caso dos três bancos mencionados, Martins sugere flexibilizar ao menos parte do recolhimento de compulsório, de 30% do saldo em poupança. “Poderia ser opcional, com possibilidade de depositar no Banco Central ou desembolsar em financiamentos”, propõe.

A CBIC apresentou três propostas ao BC. A primeira é ampliar o valor máximo do imóvel financiado pelo FGTS, dos atuais 190 mil reais para cerca de 300 mil. A segunda é o atendimento da faixa intermediária, entre 300 mil e 500 mil, pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos. A terceira, para atender a parcela do topo, é combinar as fontes poupança e LCI. O arranjo permitiria uma composição da captação com três taxas, os 6% da poupança, 3% do FGTS e 12% das LCIs. “O mercado de crédito imobiliário sairia da exclusividade da caderneta”, argumenta Martins.

A situação do crédito imobiliário pode piorar ainda mais no caso de aprovação da proposta do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de aumentar a remuneração do FGTS, atualmente em 3% mais a TR. “Entendemos a ideia de beneficiar os trabalhadores, mas essa emenda contraria a matemática. Com remuneração de 6%, em quatro anos os saques superariam os depósitos”, diz o presidente da CBIC. Para o setor imobiliário, avalia o executivo, dobrar o custo de captação implicaria duplicar também as prestações. “Isso excluiria o público que pode comprar imóveis de até 100 mil reais. Inviabilizaria o Minha Casa Minha Vida e comprometeria 400 mil famílias”, afirma Martins. “O FGTS possui um patrimônio gerador de receitas de 10,8 bilhões de reais em 2014. Propomos destinar parte desse valor à conta vinculada. O cotista receberia 3%, mais uma remuneração variável.”

Outro setor fortemente atingido pelo corte de crédito público são as escolas privadas. “As instituições com 40% dos alunos no Fundo de Financiamento Estudantil terão graves problemas de caixa, com risco de atrasos ou cortes na folha de pagamentos”, adverte João Guilherme Porto, professor de direito empresarial na Faculdade de Estudos Administrativos e assessor jurídico da mantenedora da Faculdade Arnaldo, ambas em Belo Horizonte. O teto de reajuste das mensalidades determinado pelo MEC, de 6,4%, dificulta o aditamento semestral do contrato para os alunos participantes do Fies. Além disso, os novos contratos agora exigem que o aluno alcance no mínimo 450 pontos no Enem para obter financiamento a 3,4% ao ano. Outra medida foi o corte de cerca de 1 bilhão de
reais nos recursos para a educação.

No crédito ao consumidor, a redução de 0,8% das vendas no varejo, registrada pelo IBGE no primeiro trimestre, evidencia um aumento da aversão ao endividamento. Conforme um levantamento da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, a parcela de consumidores que adiaram a compra da casa ou do carro aumentou de 28% para 50%. A proporção daqueles com intenção de reduzir as suas compras do dia a dia passou de 23% para 41%, um resultado coerente com a redução apurada pelo IBGE, de 1,4% nas vendas em supermercados. “Conforme os desdobramentos do ajuste fiscal, as perspectivas dos agentes econômicos podem melhorar. Mas, em segmentos como veículos, dificilmente os bancos abrirão a torneira como antes”, avalia Vitor França, economista da Fecomercio.

Diante dessas perspectivas, o otimismo do governo em relação à retomada da economia a partir de 2016 parece bastante exagerado. 

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