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Número 851,

Cultura

Quadrinhos

Milo Manara, um devoto admirador de Caravaggio

por Rosane Pavam publicado 29/05/2015 05h00
O italiano Milo Manara explica a razão de acrescentar ternura à análise da personalidade do biografado Caravaggio
Milo-Manara

Milo Manara repintou as obras do artista antes de biografá-lo

Um artista sublime, compassivo, nem sempre atormentado pela febre criativa. Assim é Michelangelo Merisi segundo o vê o artista italiano Milo Manara em A Morte da Virgem (Veneta, 66 págs., R$ 59,90).

Esta primeira parte de uma saga em dois volumes, inspirada nas cores e luzes do pintor milanês, ambienta-se na Roma em que Caravaggio, morto aos 38 anos, em 1610, deu-se a conhecer. Eis a primeira novidade deste trabalho de um dos maiores artistas da história dos quadrinhos, aquele Manara para quem, sob qualquer circunstância, o humor, a beleza dos movimentos e o erotismo presentes na vida devem transparecer.

Aos 69 anos, Manara diz a CartaCapital ter retratado o jovem Caravaggio a partir das feições do amigo aficionado pelo artista, o desenhista Andrea Pazienza, desaparecido aos 32 anos, em 1988. E a virgem morta que dá título ao volume é uma das três prostitutas de rua a ele ligadas, cuja história se vê descrita pela biógrafa inglesa Helen Langdon, em que muito Manara se baseou, e pelo historiador italiano Claudio Strinati, autor do prefácio de seu livro.

Nesta graphic novel, os personagens surgem vivos com suas paixões, um pouco à moda dos artistas que Manara conheceu no Brasil, responsáveis por “noitadas maravilhosas” em que o italiano diz ter cantado até tarde.

CartaCapital: Por que biografar Caravaggio? 

Milo Manara: A literatura, o cinema e a televisão contaram a história do artista várias vezes. Mas quis apresentar sua vida do ponto de vista de quem pratica a bendita profissão de pintor ou desenhista, habituado a suas alegrias e dores. O único a biografá-lo em seu tempo foi o rival Giovanni Baglione. Pareceu-me que um outro pintor (isto é, eu), ainda que em um nível artístico inferior a Baglione, mas que admirasse sua arte sublime, pudesse narrar a história de um jeito novo. E quis reconstituir a Roma daquela época a partir de quadros e de gravuras dos séculos XVI e XVII, algo jamais feito nas versões cinematográficas.

CC: Em algum momento o senhor teria sentido a sombra do artista pesar sobre o seu trabalho, como se o impedisse de continuar? 

MM: Caravaggio era agressivo, impetuoso, impulsivo, às vezes violento. Mas sua pintura também nos faz supor a existência de um homem compassivo em relação à miséria humana, terno com os amigos, os pobres, as modelos, entre elas uma prostituta de rua. Tenho a pretensão de privar de sua amizade e de contar com sua benévola compreensão. Sei que entre mim e Caravaggio há uma distância sideral. Apenas quis narrar sua história como um admirador devoto. Sua presença me pareceu compreensiva, jamais ameaçadora. 

CC: Como o senhor conheceu a obra de Caravaggio? 

MM: Aos 6 anos vi a Crucificação de São Pedro em meu catecismo e a imagem ficou. No liceu artístico, apaixonei-me definitivamente. Discorri sobre Caravaggio no ensino médio, quando passei a vê-lo como a um santo protetor, no lugar mais alto de meu Pantheon pessoal. Entendi como um amuleto da sorte meu nome ter as mesmas iniciais de Michelangelo Merisi (MM). Contar sua história coroou um sonho antigo.

CC: Manara e Caravaggio lidam com a rebeldia e o erotismo, ainda que o senhor se sirva do humor. Em que se sente diferir do artista? 

MM: Agradeço por me entender um pouco mais divertido do que ele. A pintura de Caravaggio não é divertida, antes dramática, tantas vezes desesperada, autêntica e verdadeira no limite da crueldade, uma pintura na qual, contudo, há compaixão e piedade. Guardadas as proporções, imagino ter em comum com ele a sensualidade e o desejo de transgressão. Infelizmente, contudo, à parte as iniciais, não compartilho seu gênio inalcançável.

CC: Por que, em sua opinião, ele seria um cineasta se vivesse na atualidade?

MM: O figurativismo resultou no conceitualismo, nas instalações distantes da vida, na arte a cada dia mais elitista e cerebral (a ponto de ser preciso um manual de instrução para entendê-la). Não creio que Caravaggio, se vivesse hoje, seria um artista plástico. Seu desejo de representar o mundo real, a sede de verdade, a escolha de se voltar ao povo encontrariam um espaço ideal de expressão no cinema, herdeiro da arte figurativa. Ouso até mesmo crer que tivesse escolhido os quadrinhos, mas digo isso em voz baixa. 

CC: Gostou do Caravaggio de Derek Jarman? 

MM: Vi todos os filmes sobre Caravaggio. O de Jarman, sem dúvida belíssimo sob o plano formal, apresenta-o perenemente atormentado pela febre criativa, presa do demônio da inspiração. O pintor, porém, trabalhava de maneira intensa por duas ou três semanas para depois se esbaldar com os amigos por três ou quatro meses. Quis estar mais próximo da realidade.

CC: Antes de realizar este trabalho, o senhor repintou de perto as obras do artista. O que descobriu durante o processo?

MM: Caravaggio foi um extraordinário e inimitável pintor de mulheres. Suas figuras femininas, ainda que sempre vestidas, estão entre as mais belas, sedutoras, amadas e modernas de toda a história da arte. 

CC: Seu livro não retrata Caravaggio como homossexual. Por quê?

MM: A acusação de homossexualidade, feita por Giovanni Baglione, foi uma vingança praticada contra o rival. Caravaggio havia escrito uma poesia feroz e indecente contra ele que iniciava por chamá-lo de Gioan Coglione... Ser homossexual durante o Estado pontifício era pecado passível de pena de morte. O fato de Caravaggio não ter recebido punição depois de acusado é a prova de que o juiz da prisão Tor di Nona, em Roma, onde ele esteve, não levou Baglione a sério. E eu também não o levo.

CC: O senhor desenhou para Federico Fellini o roteiro jamais filmado Viagem a Tulum. Ele lhe contava muitas histórias?

MM: Esperava impaciente cada estreia de Fellini. O diretor era uma inspiração muito antes que tivesse me honrado com sua amizade. E ele sempre nutriu simpatia pelos quadrinhos. A propósito desta simpatia, uma vez me contou ter recebido a visita de Lee Falk, o criador de Mandrake. Falk se parecia muitíssimo com seu personagem, a elegância, os idênticos bigodes, tinha até mesmo uma bengala com o pomo de prata. Em 1972, o diretor girava a sequência noturna de Roma de Fellini e a equipe permanecia na área externa ao Coliseu escuro. Fellini combinou com os eletricistas que as luzes seriam acesas de uma só vez. Assim, quando Lee Falk chegou, perguntou-lhe se sua bengala tinha os poderes de Mandrake. O desenhista negou, mas Fellini insistiu e lhe pediu que jogasse a varinha por terra. Lee Falk obedeceu e – ooooooohh! – as luzes se acenderam como fogo no Coliseu. Falk ficou pálido, contou-me um Fellini sorridente. 

CC: Ocorreu-lhe dirigir Viagem a Tulum no cinema? O senhor alguma vez se imaginou cineasta?

MM: Não, jamais. Em primeiro lugar, trata-se de uma obra de Fellini, não me permitiria tocá-la. Depois, o cineasta deve ter a qualidade de comando, como o capitão de um navio, e sou desprovido desse dom. Estou muito bem onde me encontro, na autocracia anárquica de um autor de quadrinhos. 

CC: À época do massacre no Charlie Hebdo, o senhor homenageou o desenhista Georges Wolinski ao mostrá-lo beijado no céu por uma bela mulher com o hijab. Depois do ataque terrorista, o senhor temeu que os artistas se sentissem intimidados?

MM: Wolinski me honrou com sua amizade afetuosa e nem sei dizer o quanto doeu em mim sua morte trágica. Em minha longa e afortunada carreira, seria inevitável ter sofrido censura. Fui convocado pela polícia política, meus livros em torno de Giuseppe Bergman (alter ego de Manara) foram proibidos na África do Sul em 1986, mas não gostaria de falar de meus pequenos problemas diante do massacre no Charlie. Qualquer autor pode ser intimidado nestas circunstâncias. Contudo, deve-se encontrar coragem de resistir à prepotência de quem quer impor a própria lei com violência. Somente um Estado rigorosamente laico pode garantir a liberdade, ainda que religiosa, a todos. 

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