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Número 851,

Internacional

Mediação

Francisco, líder espiritual e político

por Claudio Bernabucci publicado 31/05/2015 08h59, última modificação 09/06/2015 17h30
Empenhado contra o deus dinheiro, o papa cuida da paz mundial ao agir em relação a Cuba e, agora, à Palestina
Alvaro Padilla/Anadolu Agency/AFP

O Vaticano do papa Francisco quebrou outro muro diplomático na semana passada, ao reconhecer oficialmente a Palestina como Estado soberano. No dia 13 de maio, o Osservatore Romano, órgão da Santa Sé, informando sobre a positiva conclusão das negociações entre as delegações vaticana e palestina, anunciou a próxima assinatura de um tratado que regulamentará “aspectos essenciais da vida e da atividade da Igreja Católica na Palestina”.

O primeiro entendimento entre o Vaticano e os palestinos chegou em 2000, com o papa João Paulo II, mas naquele ano quem o assinou foi a Organização pela Libertação da Palestina (OLP). A importância do atual tratado é que será assinado entre a Santa Sé e o Estado Palestino.

“O texto do tratado”, informou monsenhor Antoine Camilleri, vice-ministro vaticano do Exterior, “define de maneira muito elaborada e detalhada” princípios e normas de liberdade religiosa que servirão de precedente e  poderão ser aplicados em outros países do Oriente Médio. Fato ainda mais significativo, como comentou o ativíssimo e discreto cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, é que o acordo foi concebido “com o intuito de contribuir de maneira concreta para a realização de um desenho que permita que os dois povos tenham seu próprio Estado”.

Com impecável noção de tempo, no domingo seguinte, 17 de maio, Francisco procedeu à solene canonização, na Praça de São Pedro, das primeiras santas palestinas da época moderna. Trata-se de Maria Afonsina Danil Ghattas e Mariam Bawardy, duas freiras do século XIX que viveram sob o Império Otomano, testemunhas da dúplice identidade cristã e árabe, bem como símbolos de dedicação aos pobres e de diálogo inter-religioso. Como a beatificação do bispo salvadorenho Óscar Romero, no sábado, e o recém-iniciado processo de canonização do brasileiro dom Hélder Câmara demonstram, a política no Vaticano tem sempre fundamental importância e influencia também a escolha dos santos. Não há dúvida, portanto, de que as duas novas santas se erguerão no imaginário dos cristãos do Oriente Médio como padroeiras do novo Estado e protetoras contra novos martírios, numa fase em que a liberdade religiosa é frequentemente reprimida com sangue e comunidades inteiras são obrigadas à diáspora.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, não podia faltar em Roma para celebrar também sua vitória diplomática nesse crucial momento político-religioso. Foi recebido pelo papa Francisco no Palácio Apostólico como chefe de Estado no sábado 16 e recebeu um medalhão com a figura do Anjo da Paz. “Esse anjo destrói o mau espírito da guerra”, comentou Francisco ao entregar o presente. “Pensei em você. Que você possa ser um anjo da paz”, concluiu. O papa já havia definido Abbas como “homem de paz” durante a visita a Belém, em maio de 2014, e da mesma maneira chamou o então presidente israelense Shimon Peres na etapa seguinte em Jerusalém. Em seguida, o pontífice argentino convidou ambos para uma oração pela paz nos jardins do Vaticano, em 8 de junho do mesmo ano, com a participação do patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

A oração não foi suficiente para influenciar positivamente o diálogo entre as partes e muito menos os resultados eleitorais deste ano em Israel. A vitória de Benjamin Netanyahu confirmou no poder uma coalizão de direita que é refratária a qualquer compromisso com os palestinos. Como afirma o escritor israelense Etgar Keret, “o país agora está tão dividido que parece povoado por duas tribos inimigas, com uma divisão enorme entre os que estão dispostos a fazer concessões e os que querem continuar a usar a força para controlar tudo”.

Claro que, nessas condições, Francisco não podia dar continuidade à política de aproximação paralela aos dois contendores encarnada nas iniciativas do ano passado com os dois presidentes. Contra o poder da força, portanto, Francisco optou por replicar com a carta do diálogo e a defesa dos oprimidos.

Durante o encontro com Abu Mazen no Vaticano, obviamente, foi abordada a questão do processo de paz com Israel. O papa expressou a esperança de que sejam retomadas as negociações diretas entre as partes – hoje interrompidas –, para encontrar uma solução justa e duradoura para o conflito. As reações de Israel foram imediatas e muito negativas. Fontes oficiais do governo de Tel-Aviv manifestaram “profunda desilusão” com a decisão do papa de “concluir um acordo que compreenda a definição do Estado da Palestina”. A irritação, fruto da derrota, foi inflamada. Com o amparo da resolução das Nações Unidas de 2012, que reconheceu a Palestina como Estado, também o Parlamento Europeu, em 2014, e, nos últimos meses, vários Parlamentos nacionais (como França, Reino Unido, Espanha, Irlanda e, ambiguamente, também Itália) tomaram iniciativa análoga, acentuando assim o isolamento internacional de Israel como nunca no passado. 

Poucos dias após a visita de Raúl Castro, presidente de um país, Cuba, que Francisco trouxe à ribalta internacional trabalhando de maneira discreta e influentíssima para o restabelecimento das relações com os Estados Unidos, o acordo com a Palestina representa sem dúvida outro importante êxito do papa Bergoglio.

Ao lado da ação diplomática, que trata sempre de tomar a intransigente defesa das populações pobres que mais sofrem as consequências dos conflitos, seu ministério é caracterizado pelo diálogo inter-religioso. Este espírito de abertura não cede, todavia, à necessidade de afirmar a verdade também quando é politicamente arriscado. Aconteceu recentemente que, definindo a deportação dos armênios na Turquia como “o primeiro genocídio do século XIX”, o papa sofreu o primeiro fortíssimo ataque de um líder muçulmano, o presidente turco Erdogan. E nenhum governo se levantou em sua defesa.

No entendimento de Francisco, para ajudar a humanidade a sair dos conflitos que a afligem –  “terceira guerra mundial não declarada” –, a solução da questão palestina é crucial. Para conduzir essa batalha de paz, o papa dispõe das armas contundentes às quais fazia irônica referência Josef Stalin, mas, na era da globalização, ele se confirma o mais audacioso e eficaz líder político e espiritual do planeta.