Você está aqui: Página Inicial / Revista / Negócios da China / A França dá o mau exemplo
Número 851,

Internacional

Imigração

A França dá o mau exemplo

por Gianni Carta publicado 23/05/2015 08h59
Paris rejeita política de cotas, mas apoia a ação bélica contra os traficantes
Tobias Schwarz/Reuters/Latinstock

A divisa da República Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, parece ter naufragado com sua recente política migratória. Em um encontro em Berlim com a chanceler Angela Merkel na terça-feira 19, François Hollande reiterou sua oposição ao sistema de cotas obrigatórias para a repartição de refugiados entre os países da União Europeia. O presidente francês não aceita, “de modo algum”, cotas para imigrantes. O motivo? “Temos regras relativas ao controle de fronteiras e às políticas de controle de imigração.”

O sistema rejeitado por Hollande foi proposto em 13 de maio pela Comissão Europeia. Cada país da UE receberia uma cota de refugiados de acordo com critérios definidos pelo PIB, taxa de desemprego e população. Um dos objetivos da CE seria aliviar a situação na Itália, Grécia e Malta, na linha de frente em face do fluxo de refugiados de várias nacionalidades oriundos do Norte da África. Mas o primeiro motivo das cotas é humanitário. Eis um exemplo que fala por si: segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), nos primeiros quatro meses deste ano alcançaram as margens do Sul da Itália 26.165 migrantes, cerca de 300 a menos daqueles a realizar a mesma proe­za, durante o mesmo perío­do, em 2014. No entanto, no ano passado morreram 96 pessoas, e neste, 1.700.

O cinismo das autoridades europeias esclarece as razões da hecatombe. Para tornar mais arriscada a travessia das embarcações clandestinas, decidiu-se substituir a Operação Mare Nostrum, da Marinha italiana, pela Triton, operação implementada pela Frontex, organismo da UE responsável pelo controle de fronteiras com sede em Varsóvia, Polônia. Criada após um acidente que deixou centenas de mortos, Mare Nostrum não somente recolhia migrantes de embarcações clandestinas sobrecarregadas para salvá-los, mas também socorria náufragos. Por exemplo, do fim de 2013 ao fim de 2014 salvou 140 mil náufragos, inclusive em alto-mar. Em contrapartida, Triton, a atuar desde outubro de 2014, age somente em águas a 50 quilômetros da costa italiana.

Causa estranheza a UE não voltar a estabelecer a Operação Mare Nostrum. Quanto às cotas, o obstáculo é Hollande. No encontro em Berlim na terça-feira 19, Merkel não escamoteou sua perplexidade diante do discurso do presidente francês a rejeitar o projeto da CE. Mais incisivo foi o premier italiano Matteo Renzi. Referindo-se claramente a Hollande em um programa televisivo na noite de terça, Renzi disse: “Gostaria que houvesse um pouco mais de humanidade na Europa”. Renzi acrescentou “estar um tanto irritado” com toda a preocupação que cerca a proposta das cotas para refugiados, em lugar de tê-las pelas “pessoas que morrem”.

Hollande confirma sua costumeira ambiguidade. É contra as cotas, mas favorável a uma “distribuição equitativa” de refugiados. Qual seria a diferença? A razão de Hollande é óbvia. O temor de parecer fraco em um país onde paira o espectro da direita anti-imigracão de Nicolas Sarkozy e, pior, da extrema-direita de Marine Le Pen. Em entrevista ao diário La Repubblica, Marine disse que a França é soberana e a única solução “é fechar as fronteiras” para os imigrantes. Indagada sobre o direito de asilo, por exemplo dos sírios, Le Pen foi categórica: “Nove em dez dos sírios são fundamentalistas”.

Enquanto isso, o premier francês, o neoconservador Manuel Valls, forte candidato para substituir Hollande nas eleições de 2017, diz: “A França não pode acolher toda a miséria do mundo”. A França, prossegue Valls, “já não fez muito” pelos imigrantes. Segundo dados do Eurostat, a média de aceitação de refugiados na UE é de 45,2%. Na França, a média é de 21,7%, na frente de quatro países, dois deles com fortes inclinações ultradireitistas, a Hungria, com 9,3%, e a Croácia, 10,6%. Carine Fouteau, do website Mediapart, demonstra como Valls, um durão mal informado, também não parece ler com atenção as diretivas da Comissão Europeia. Por exemplo, o premier francês pretende combater a “instauração de cotas de imigrantes”. Bruxelas fala, porém, em refugiados.

E aí entramos em uma área nevoenta, bastante conveniente, diga-se, para Valls. Segundo a convenção da ONU, refugiados recebem asilo político, de forma automática, ao chegar na UE. Por sua vez, migrantes econômicos são deportados, salvo os mais qualificados. Mas diferenciar um refugiado de um migrante econômico pode ser difícil tarefa. Por exemplo, um cidadão líbio pode, por até 2 mil dólares, arriscar sua vida em um barco sobrecarregado para chegar a Lampedusa, ilha ao sul da Itália. O líbio estará sujeito a ser jogado no mar, ou ainda a ser abandonado pelos traficantes diante de barcos da polícia marítima. E poderá se afogar. Se tudo der certo, o barco atravessa os 200 quilômetros a separar o país dele de Lampedusa. O que leva esse cidadão líbio, na maioria dos casos jovens, a correr tamanho risco? Talvez uma mescla de fatores: opressão, desordem civil, miséria.

Segundo Marine Le Pen, se os ministros do Interior de países da UE chegarem a um acordo sobre as cotas no dia 15 de junho próximo, os traficantes de migrantes celebrarão com champanhe. Em compensação, Hollande e Valls prontificam-se a participar de uma operação naval para combater os traficantes, chamada Eunavfor Med. Decidida por ministros da UE na segunda-feira 18, em Bruxelas, a operação visa destruir os barcos utilizados pelos traficantes. E, assim, Hollande e Valls calam a extrema-direita, e prosseguem com suas ambiguidades.