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Número 850,

Sociedade

Brasiliana

A inesperada virtude da ignorância

por Rafael Nardini — publicado 22/05/2015 02h42
Oliveira vendia cópias piratas de filmes cult, mas nunca entrou no cinema
Rafael Nardini
Odair-José na-antiga-banca

Para indicar os filmes aos clientes, Oliveira assistia em casa

Há cerca de dois meses, Odair José Cardoso de Matos Oliveira vendia uma média de 20 DVDs por dia. Na barraca improvisada a poucos metros do Espaço Itaú de Cinema, na Rua Augusta, em São Paulo, Boyhood, Relatos Selvagens e O Grande Hotel Budapeste integravam a lista dos mais procurados. Candidatíssimo ao Oscar (no fim perderia a estatueta para Birdman), Boyhood garantiu um ótimo retorno financeiro em janeiro e fevereiro. Foram comercializadas perto de 40 cópias.

É normal. Concentradas no início do ano, as principais premiações do cinema norte-americano despertam o interesse do público e catapultam as vendas na rua. Em outros verões, Oliveira chegou a embolsar 400 reais em um único dia. Uma vez, relembra, um único cliente levou 180 reais em DVDs piratas. O preço era tabelado, para não arrumar problema com os “concorrentes” do pedaço, todos, como Oliveira, oriundos da mesma cidade, a baiana Capim Grosso, a 272 quilômetros de Salvador.

“Era um por 8 reais, dois por 15 e três por 20. Mas o cliente sempre chorava e eu acabava fazendo quatro por 20.” Apesar de trabalhar em uma região repleta de salas de cinema, o camelô baiano nunca se deu ao luxo de conhecer uma. “Deve ser incrível ir com a família, os amigos. Não dá para ir sozinho. Até numa festa, se for para ir sozinho, eu não vou. Pode ser tudo de graça, bebida e tudo. Mas sozinho não dá. Pelo menos umas três, quatro pessoas.”

No mundo do comércio pirata de filmes Oliveira encontrou um nicho. Em vez de comédias sem graça, romances água com açúcar e blockbusters, ele vendia obras cult, de cineastas consagrados ou ditos inovadores. Sua banca no chamado Baixo Augusta era uma espécie de cineclube ao ar livre, feito para fãs da Sétima Arte, moderninhos e “intelectuais”. Embora nunca tenha pisado em uma sala de cinema nos arredores, Oliveira viu-se obrigado a assistir aos filmes para atender aos pedidos de dicas e informações da clientela exigente. Ele aprendeu rápido. Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, é “muito parado, sonolento”. Já 12 Anos de Escravidão é “pesado, mas vale o balde de pipoca”. Oliveira não recomenda Sétimo, drama argentino sobre sequestro de filhos. Não dispensa, porém, elogios a Boyhood, talvez por ser pai de quatro crianças. ”Gostei muito. É a primeira vez que vejo um filme durar tanto para ser gravado. A criança crescendo, evoluindo. Isso me chamou atenção. E foram 12 anos de gravação, né?” E Birdman, o vencedor o Oscar, viu? “Não, não. O meu DVD está com problema agora. Então a gente depende dos filmes que o aparelho aceita. Bom ou ruim, é o que o aparelho aceita.”

Desde sua chegada a São Paulo, em 2005, Oliveira fez um pouco de tudo. Foi garçom no restaurante Asian House e no Boteco Brasil, ambos na região da Avenida Paulista. Quando um emprego minguava, a rua era a guarida natural. Sua primeira barraca de camelô foi do lado de lá da Avenida Paulista, na região chamada de Jardins, bem em frente ao ponto onde hoje funciona uma loja da TAM. “Trabalhava com ‘artigos de Paraguai’. Fones, cabos USB... Depois de um tempo, casei e foi aí que eu saí da rua pela primeira vez, em 2007.” Naquela época, recorda, o “rapa” policial era mais ativo. “Cheguei a perder 900 reais em mercadoria.”

Há um acordo informal entre ambulantes e policiais. Quando um agente passa, os camelôs recolhem a mercadoria. A Polícia Civil, a mais temida, costuma passar uma vez por semana. Esconder-se de PMs é um exercício diário para os ambulantes da região. Nesse caso, o grande problema são os oficiais de bicicleta. “Descem a milhão, cercam e já era. Aquela bicicleta não tem pra ninguém. É muito leve. E correr com peso fica muito difícil.” Recentemente, Jonilson*, rapaz negro de cabelo aparado com máquina e um dos amigos de Oliveira, não foi ágil o bastante. Acabou na delegacia e precisou desembolsar 362 reais de fiança.

A ideia de acabar na delegacia como Jonilson mexeu com Oliveira. Para largar a banca de DVDs, o jeito foi cair no “gato”. O salário baixou, varia de 50 a 80 reais por dia. Um vizinho do Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, onde o ex-camelô divide uma casa de dois cômodos com Tamires, sua esposa, e os quatro filhos, conseguiu uma atividade menos atribulada. O franzino ex-ambulante agora faz bico em uma empresa especializada na execução de obras comerciais e corporativas. Ele tem trabalhado de madrugada, da meia-noite às 5 da manhã, no Shopping Pátio Higienópolis. “Lá é na marretona. Trabalhamos eu e mais uns dez.”

No dia em que conversamos, Oliveira tinha cumprido oito dias de trabalho. Faltavam mais oito. “Quero ficar por lá. Como minha esposa trabalha como diarista durante o dia,t rabalhar à noite é melhor. Pego meus moleques na escola e fico com eles à tarde.” 

*O nome foi alterado para preservar a identidade do ambulante.

**Reportagem publicada originalmente na edição 850 de CartaCapital, com o título "...ou a inesperada virtude da ignorância"