Você está aqui: Página Inicial / Revista / CBF: Barco furado / Operação Lava Jato: Fala o denunciante
Número 850,

Política

Lava Jato

Operação Lava Jato: Fala o denunciante

por Fabio Serapião — publicado 25/05/2015 03h00
Hermes Magnus, ex-sócio de José Janene, diz que a investigação pode avançar
Felipe Rau/Estadão Conteúdo

Ao condenar o doleiro Alberto Youssef pela lavagem de dinheiro proveniente dos desvios praticados pelo falecido José Janene, o juiz Sergio Moro ordenou a devolução de 1 milhão de reais a Hermes Freitas Magnus. Esquecido em meio aos vários delatores, empreiteiros e políticos citados na Lava Jato, o empresário foi sócio de Janene na Dunel Indústria e, ainda em 2008, denunciou o parlamentar quando descobriu que o empreendimento era utilizado para lavar dinheiro. As informações de Magnus levaram a Polícia Federal ao esquema de desvios na Petrobras e estimularam a descoberta de mais detalhes do esquema de corrupção patrocinado pelas construtoras.

O empresário, que hoje vive em Portugal, conversou com CartaCapital. Segundo ele, após um ano de operação, o balanço é positivo, principalmente pelo trabalho desenvolvido pelo juiz Sergio Moro. Magnus acredita, no entanto, ser possível ir mais além. Youssef, acredita, ainda não contou tudo o que sabe aos investigadores e caso sigam o caminho do dinheiro vão descobrir, diz, um esquema suprapartidário. “O Janene transcendia partidos, ele tinha amigos em todas as legendas e todas as esferas. Temiam a língua dele.”

Sobre Janene

Janene era um mestre da maracutaia, em criar mecanismos e subterfúgios para o crime. Com a sua morte, Youssef assumiu o posto e começou a deixar rastros. Ele não tinha a malícia em lidar com esse mundo político. O Youssef era um office-boy de luxo, seu papel era limpar o dinheiro desviado desses esquemas. Claro que não dá para elogiar esse PT de hoje, mas o Janene dizia que isso era inerente à política. Sobre o mensalão, ele dizia que todos os governos pagavam, o único que não pagou, segundo ele, foi o Collor. Não pagou por não conseguir, o PC Farias não tinha capacidade, dizia ele.

O que falta investigar

Se os investigadores me ouviram, eles seguiram os rastros do Claudio Mente, Carlos Alberto Pereira da Costa e Ruben de Andrade, os sócios da CSA Securitizadora e da CSA Project Finance, que era minha sócia. A investigação pode mostrar onde está o dinheiro dos fundos de pensão, das maracutaias envolvendo a venda de energia das eólicas e esquemas no setor elétrico. Então, acho que se seguir essa turma das CSAs, dia e noite, eles chegarão a várias vertentes do esquema, do IRB a Itaipu, passando pelo Banco do Nordeste e outros.

Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann

O Janene gostava de falar a onde seus rivais iam cair. Ele falava do anel viário de Maringá. O Alberto Youssef teria lavado dinheiro dessa obra para Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. Ao voltar aos tempos do Janene e rever minhas anotações, encontrei uma na qual ele falava que ia dar muito pano pra manga. Pelo que soube, o ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel arquivou essa investigação sobre  o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, responsável pela obra.

Alberto Youssef

Eu sei que o Youssef tem muito mais a falar, muita coisa foi sintetizada. De fato, ele não contou tudo. Minha tese é de que ou há um conformismo da força-tarefa ou é uma estratégia: Ok, você está mentindo, mas vamos te pegar lá na frente. Ele precisa provar que não há mais nada de dinheiro no exterior. Apresentar provas. O Janene e o Youssef tinham laranjas no exterior. Precisa desarticular essa turma, para depois eles não voltarem a cometer crimes, como aconteceu com o doleiro no caso Banestado.

O árabe

Não saía da minha empresa um árabe- americano chamado Nabil Harajli, que andava com o Janene pra cima e pra baixo. Em 2008, o Janene esteve em Pasadena e esse árabe foi junto. Nessa época, eu vi o deputado tratando por telefone com outra pessoa que parecia ser de uma empreiteira. Na sequência, ele desligou o telefone e perguntou ao Carlos Alberto Pereira da Costa (laranja do esquema e delator da Lava Jato) se o cheque da Queiroz Galvão havia sido compensado. Esse cara está lá fora com a grana desses caras. O interessante é que esse tal árabe foi testemunha no mensalão do Janene. Foram duas testemunhas, o árabe e o Fernando Henrique Cardoso. Por que o Youssef e o Carlos Costa não falam do árabe na delação?

Conta em Luxemburgo 

Se a CPI quer saber se existe essa conta, ela precisa ir atrás da investigação das autoridades portuguesas sobre as ramificações do Banco Espírito Santo em Luxemburgo. O Janene, uma vez que viajei para a Europa para visitar uns clientes, queria me pedir para transportar dinheiro de uma conta dele no Banco Espírito Santo para o Brasil. Voltei sem fazer o favor. Sugiro outro caminho. Em 2008, recebi a visita de enviados de um cliente sueco que queriam conhecer a nova estrutura da Dunel. Estiveram em Londrina, hospedados no hotel do Youssef e do Janene. Este sueco, o Lars Perers, era um especialista no mercado financeiro e criador de cavalos de raça. O Janene o convidou para conhecer seu haras e no caminho eu atuei como tradutor. Janene contou que usava muito offshore, pois o sistema tributário no Brasil era punitivo. O sueco disse que eles só usavam os canais em Luxemburgo, porque os impostos na Suécia eram pesados também. Eles ficaram de aprofundar a conversa. Depois do ocorrido, perdi contato com o cliente e agora aparece essa conta em Luxemburgo. Tudo pode ter começado naquela conversa. 

Outro lado

A senadora Gleisi Hoffmann e seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo,  afirmaram que nunca mantiveram contato com Janene e Alberto Youssef. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 850 de CartaCapital, com o título "Fala o denunciante"

registrado em: , ,