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Número 850,

Cultura

Papinho Gourmet

Criatividade e vanguarda

por Marcio Alemão publicado 24/05/2015 08h45, última modificação 24/05/2015 10h08
Será que precisa aprender a falar espanhol pra ser chef?
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Dois jovens. Dois, quem sabe, futuros chefs

Dois jovens. Dois, quem sabe, futuros chefs, encontram-se na palestra do estrelado e festejado chef Andoni Aduriz, do igualmente celebrado restaurante Mugaritz.

– Será que precisa aprender a falar espanhol pra ser chef?

– Tô achando que sim. Tem um monte de estrelados na Espanha, né?

– Fala sério, bro, todo dia é uma coisa nova que jogam no currículo da gente.

– Mas olha só, pelo menos a gente não precisa mais aprender nem francês nem italiano.

– Pode crer. Esses caras não tão com nada, né? 

– Agora é espanhol, inglês, alemão e dinamarquês.

– Muita coisa, bro. Já não basta a gente ter de se tatuar, raspar o cabelo...

– Ih! Olha lá o chef espanhol.

– Que maluco! Ele não é tatuado nem careca.

– Ele acabou de dizer que a gente precisa se rodear de gente criativa se quiser ser criativo.

– E essa parada de ter de ficar repetindo o que a gente quer?

– Tem nome. Neurolinguística.

– Funciona.

– Lembra daquele meu suflê? Eu fiquei repetindo: vai crescer, vai crescer, vai crescer...

– E não cresceu.

– Não funciona com suflê, mas funciona com gente, eu acho.

– Ou viu o papo do gosto? Eu sempre disse que gosto não é o mais importante na gastronomia.

– Tô ligado. Tem a ver com a cultura. Papo complexo. Mas achei maneiro. Se alguém não gostar do que cozinhei, eu entro com esse papo.

– Bro, dá uma olhada na cozinha do restô do chef!

– Uau! Imagina a gente trabalhando numa dessas.

– Imagina a gente fazendo uma dessas. Tem de pensar pra cima, cara!

– Não entendi. Você quer ser arquiteto?

– Se liga, bro, a gente vai ser dono de restaurante, a gente vai ser dono de restaurante, a gente vai ser dono de restaurante!

– Pode crer. Neuropapo. Grana, grana, grana.

– Viu essa? O cara recheou um suspiro com sementinhas comestíveis!

– Muito louco. Descontextualização. É isso, né?

– Bro, esse papo de cozinhar tá ficando complexo demais.

– Também tô achando. Ficou ligado no prato metáfora?

– E tem a parada forte da química, as reações, a coisa da espuma, da gelatina.

– E se a gente tentasse a física nuclear?

– Mais fácil, né?

– Partiu buraco negro?

– Partiu!