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Número 850,

Política

Rosa dos Ventos

A cara do Brasil

por Mauricio Dias publicado 16/05/2015 10h02, última modificação 11/06/2015 17h27
De como os atuais congressistas melhor espelham comportamentos e demandas dos seus representados
Marcelo Camargo/ABr
cunha-renan

Cunha e Renan, perfeitos no papel que hoje lhes cabe

Diante de um governo fragilizado por forte crise decorrente da soma de conflitos políticos e de problemas econômicos, o Congresso Brasileiro, cuja regra é o vício e a exceção é a virtude, aproxima mais claramente hoje a identidade entre os eleitores e os eleitos. A semelhança vai muito além da coincidência. Não há nada de novo nessa situação, mas pela primeira vez é possível perceber com mais nitidez a cara do Brasil refletida em um Senado capitaneado pelo alagoano Renan Calheiros e uma Câmara, pelo deputado fluminense Eduardo Cunha. É tamanha a semelhança entre representantes e representados que o resultado faz lembrar o trabalho de criação de bons escultores em mármore de Carrara.

A hipocrisia reinante regalou-se com a costura feita pelo governo, via fisiologismo, para consolidar o apoio dos deputados à primeira aprovação de uma Medida Provisória no contexto do ajuste fiscal. Uma vitória política de Dilma. 

Parece, entretanto, que nunca antes governo algum usou esse sistema de troca para evitar dissidências na base político-partidária. Fisiologismo e corporativismo são moedas antigas, condenáveis, em circulação no mercado político. 

Sempre foi assim. No Império, as comendas; na República, as prebendas. Está nos anais da história mais recente ou, pelo menos nos arquivos deste colunista, um exemplo sintomático disso. Em 2002, no correr de uma entrevista ao extinto Jornal do Brasil impresso, o diplomata Paulo Tarso Flecha de Lima, iniciado nas negociações entre Executivo e Legislativo no gabinete de Juscelino Kubitschek, contou que a resistência dos parlamentares durava até serem chamados para uma conversa no Catete. O presidente dizia: “Do que vocês precisam?” 

E assim tudo se resolvia. Os aliados não se encantavam somente com o histórico sorriso do Nono, apelido do amável  JK. 

Naquele tempo, “anos dourados” para quem tinha o convite da festa, o Congresso girava, em geral, em torno de uma elite mais escolarizada do que rica. O pulso das duas casas podia ser medido por alguns líderes e políticos mais destacados, ambos eleitos pelos coronéis rurais. 

Senado e Câmara eram, então, resquícios do portentoso Parlamento do Segundo Reinado, inspirado no parlamentarismo britânico. Prevalecia, no ocaso do Império, a política dos barões assinalados. Os candidatos faziam curta peregrinação entre os eleitores, um jogo de cena, porque tinham garantidos os votos controlados por eficientes cabos eleitorais. 

Onde está o maior erro dessa história até então? Está na composição qualificada e na representação falsa.

O deslocamento maciço de pessoas do interior para as grandes cidades provocou mudanças fortes no processo eleitoral. Os coronéis rurais perderam força. Praticamente desapareceram. O dinheiro passou a ser o senhor das votações. A televisão tornou-se um instrumento fundamental e decretou o fim dos palanques. Houve um encarecimento monumental nos custos das campanhas.

Diante disso, o controle de postos privilegiados nas administrações públicas passou a ser o gerador de disputa e de recursos para os partidos. A representação de hoje é menos qualificada. É, porém, mais representativa.