Você está aqui: Página Inicial / Revista / O senhor do caos / Hercule Florence, viajante inquieto
Número 849,

Cultura

Exposição

Hercule Florence, viajante inquieto

por Ana Ferraz publicado 20/05/2015 02h23
O artista francês retratou sem preconceitos o Brasil
Coleção Academia de Ciências da Rússia
exposicao-hercule-florence

Habitations des Apiacás Sur l'Arinos, aquarela pintada por Florence em 1828

Após dois séculos de contato com o homem branco, os índios Apiaká, originalmente distribuídos pelas margens dos rios Arinos e Juruena, em Mato Grosso, perderam o idioma, o modo de vida tradicional e se miscigenaram. Chegaram a ser considerados extintos em 1957, mas registra-se nos dias de hoje uma população estimada entre 500 e mil indivíduos, que vivem na margem direita do Rio dos Peixes (MT). A memória do grupo, evanescida pelas circunstâncias, foi recuperada graças ao fabuloso trabalho do artista francês Hercule Florence, que de 1825 a 1829 percorreu o interior do Brasil a bordo da monumental Expedição Langsdorff. “O jovem inquieto e apaixonado por viagens criou registros visuais e textuais detalhados e precisos sobre as paisagens, a flora, a fauna e as populações indígenas do Rio de Janeiro à Amazônia”, afirma Glória Kok, que, ao lado de Francis Melvin Lee, faz a curadoria da exposição O Olhar de Hercule Florence sobre os Índios Brasileiros. 

“Os homens tatuam o rosto, tatuagem que é sempre a mesma em todos, enquanto a das mulheres é mais simples e uniforme. Além da do rosto, que parece uma distinção tribal, capricham os homens em desenhos do tipo, espalhados pelo peito e pelo ventre, em que predominam quadrados e ângulos retos, paralelos entre si.” Dessa forma o artista descreve os Apiaká, imortalizados na belíssima aquarela Habitation des Apiacás Sur l’Arinos (abril, 1828), cedida pela Academia de Ciências da Rússia. 

O olhar de Florence sobre os índios é destituído das marcas do preconceito e da discriminação, explica a curadora, “na contracorrente da elite brasileira e europeia do século XIX, que os julgava como inferiores e o processo de mestiçagem, como degenerescência. É preciso frisar que ele sempre foi contra a escravidão”. A exposição traz desenhos inéditos do manuscrito L’Ami des Arts, fac-símiles do Carnet de Dessins, caderno de notas da Expedição Langsdorff, da Bibliothèque Nationale de France, reproduções da Academia de São Petersburgo, peças do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, obras do Instituto Hercule Florence e da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, além de fotografias do Instituto Socioambiental. 

O Olhar de Hercule Florence sobre os índios brasileiros
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
Cidade Universitária, São Paulo. Até 30 de junho