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Número 849,

Economia

Estados Unidos

Os EUA avançam, aos trancos e barrancos

por Carlos Drummond publicado 15/05/2015 04h32
A expansão baseada na geração de empregos mal remunerados limita a retomada da maior economia do mundo
Brian Snyder/Reuters/Latinstock

Na permanente disputa entre os economistas otimistas em relação às perspectivas de recuperação da economia mundial desde a crise de 2008 e aqueles mais céticos, os últimos voltaram a acertar. Segundo o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, o PIB norte-americano avançou somente 0,2% no primeiro trimestre deste ano, em comparação aos 2,2% do último trimestre de 2014.  O indicador é fundamental para o planejamento de governos, empresas e cidadãos, dado o peso da economia dos EUA no dinamismo mundial, enfraquecido com a estagnação europeia, a desaceleração da China e a reversão do crescimento nos países emergentes. O consumo das famílias caiu e as exportações diminuíram, divulgou o banco. 

Na base do marasmo econômico está a criação de um grande volume de empregos com baixos salários, característicos do comércio e dos serviços, os setores de maior crescimento. No início da crise, em 2008, as ocupações com salários médios representavam 60% do total e cinco anos depois, somente 22%. O total de empregos com salários baixos passou, porém, de 21% para 58% no mesmo período. A parcela com salários altos manteve-se estável. 

Essa peculiaridade do crescimento recente indica uma confiança insuficiente no futuro dos negócios e ao mesmo tempo acentua a debilidade do processo. Ampliar a atividade por meio da abertura de lojas de uma rede de fast-food ou de escritórios de uma empresa de limpeza requer, na maior parte dos casos, um investimento substancialmente inferior ao necessário à ampliação ou à criação de uma fábrica. 

Nos últimos anos, a baixa remuneração generalizou-se nos Estados Unidos. Cerca de 45 milhões de cidadãos, ou 14,5% da população, vivem abaixo da linha de pobreza, mostrou um relatório do Census Bureau em 2014. Antes da crise, em 2006, essa parcela somava 12,3%. No extremo oposto, os ganhos do segmento com renda proveniente de investimentos no mercado ou de patrimônios imobiliários são os maiores dos últimos 60 anos, segundo o economista Gary Burtless, da Brookings Institution. “É realmente um fenômeno quando advogados, financistas, estrelas dos esportes e do entretenimento aumentam mais e mais a distância em relação àqueles condenados a apenas sobreviver.”  

Grandes setores com predominância de baixos salários lideraram a recuperação, confirma um comunicado sobre o aumento dos empregos mal remunerados e o crescimento da desigualdade emitido pelo National Employment Law Project. Três desses segmentos acrescentaram 1,7 milhão de empregos depois da crise e compõem 43% do crescimento líquido dos postos de trabalho: fast-food, varejo e serviços administrativos, de apoio e de limpeza, dominados por empregos temporários. Aproximadamente, 76% do crescimento das vagas nesses setores envolveu ocupações de baixos salários. 

Entre os segmentos com problemas mais agudos destaca-se o de fast-food, integrado por cadeias como o McDonald’s, KFC, Subway, Pizza Hut e Starbucks, as maiores do mundo. Um quinto das famílias com um integrante empregado no setor tem renda abaixo da linha de pobreza, de 11,49 mil dólares anuais para um indivíduo ou 23,55 mil para uma família de quatro pessoas. Cerca de 43% recebem salários de no máximo duas vezes esses valores, segundo o estudo Fast Food, Poverty Wages, de Sylvia Allegretto e outros pesquisadores do Centro do Trabalho da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. A remuneração média de quem trabalha na linha de frente das lojas é de 8,69 dólares por hora e muitos empregados recebem o salário mínimo, de 7,25 dólares. A baixa remuneração provocou sete greves da categoria nos Estados Unidos nos últimos dois anos para reivindicar um piso de 15 dólares por hora e o direito de sindicalização, com vitórias parciais em Seattle, Nova York, Los Angeles e Chicago.

Uma das consequências de uma recuperação concentrada na geração de empregos mal remunerados é o aumento do número de famílias com ao menos um integrante dependente de programas sociais do governo, mostram Ken Jacobs, Ian Perry e Jennifer MacGillivary, da Universidade de Berkeley, no estudo “The high public cost of low wages”.  “Mesmo com a expansão um pouco mais rápida da economia, os aumentos dos salários e dos benefícios para a maioria dos trabalhadores americanos permanecem na estagnação iniciada décadas atrás.” O salário-hora real do trabalhador médio em 2013 foi apenas 5% superior ao de 1979 e o do décimo inferior caiu 5% no mesmo período. Essa tendência agravou-se entre 2003 e 2013, quando os salários reais dos 70% pior remunerados permaneceram os mesmos ou caíram. 

Um indicador do achatamento salarial é o fato de 73% dos participantes dos principais programas sociais do governo integrarem famílias de trabalhadores. “Quando as empresas não pagam o suficiente, os empregados se voltam para a assistência pública para dar conta das suas necessidades básicas”, dizem os autores do estudo. Essa complementação de renda custa 153 bilhões de dólares anuais aos contribuintes. 

A situação grave da parcela da população com baixa renda pode piorar se o Acordo Trans-Pacífico for celebrado. O TPP, na sigla em inglês, envolve 12 países, entre eles Estados Unidos, Canadá, Japão, Chile, México e Peru. Juntos, eles respondem por dois terços do PIB mundial e um terço do comércio global. Além do rebaixamento das tarifas e das cotas praticadas no comércio internacional, o TPP abrange a revisão de regras sobre concorrência, empresas estatais, subsídios governamentais e outros pontos. “O tratado afetará a maioria de nós adversamente por aumentar a terceirização, ameaçar as negociações coletivas, minar as regulações ambientais, pôr em risco a segurança alimentar, limitar as prescrições de medicamentos e muito mais”, alertou a senadora Elizabeth Warren, da ala progressista do Partido Democrata em março. A campanha em defesa do TPP é liderada por dois integrantes ilustres do mesmo partido, o presidente Barack Obama e a senadora Hillary Clinton, pré-candidata a presidente nas eleições do próximo ano. 

O aumento da temperatura na discussão sobre o tratado mostra como a fraqueza da economia, evidenciada no desempenho do primeiro trimestre, acirra o debate político sobre as tendências e as alternativas. A impaciência abrange vários problemas, a exemplo das distorções no mercado financeiro e das bolhas de ativos provocadas pela taxa de juros em torno de zero e pela política de aumento da liquidez (quantitative easing), observa Alan S. Blinder, professor da Universidade de Princeton e ex-vice-presidente do Fed. “As distorções ameaçam a eficiência do excessivamente valorizado sistema financeiro. As bolhas podem estourar, com danos inimagináveis à nossa economia”, alerta. “A política monetária eventualmente começará a se normalizar, mas não em junho, talvez nem em setembro. Tempo, dizem, é tudo. E este é um tempo para paciência”, recomenda o professor.

Um “lobby impaciente”, afirma Blinder, identifica uma aceleração do valor dos salários, mas esta é muito modesta, de 1,5% a 2% ao ano para 2% a 2,5%. Um mercado de trabalho mais apertado pode acelerar a elevação dos salários. Os conservadores veem a taxa de desemprego de 5,5% em queda e consideram o mercado de trabalho cada vez mais pressionado.

A presidenta do Fed, Janet Yellen, e os integrantes do Comitê Federal do Mercado Aberto discordam e esperam pacientemente a melhora do mercado de trabalho, com queda do desemprego para 5,2%. “Uma multidão de cidadãos há muito tempo desempregada espera com eles”, diz Blinder.

*Reportagem publicada originalmente na edição 849 de CartaCapital, com o título "Trancos e Barrancos"