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Número 849,

Sociedade

Brasiliana

Profissão repórter

por Germán Aranda — publicado 13/05/2015 05h17
No Complexo do Alemão, Viviane Ribeiro exerce o jornalismo em prol da comunidade
Alex Santana/CartaCapital
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A editora-chefe do Alemão Notícias cresceu nas vielas de Nova Brasília

Um celular e muita coragem bastam para Viviane Ribeiro exercer a função de editora-chefe do jornal Alemão Notícias, publicado no complexo de favelas mais conhecido do Rio de Janeiro. Assim, na cara e na coragem, a jornalista, nascida e criada na vizinhança, circula sempre alerta pelas ruas e becos que conhece como a palma da mão. A qualquer momento, sabe ela, o telefone pode se tornar um canal para divulgar abusos ou coletar provas em meio ao clima de tensão permanente. 

 “O caso da morte do Eduardo atingiu o ponto máximo de tolerância do complexo. A gente está num grito de socorro e se não tivéssemos saído às ruas, aquela notícia teria ficado em silêncio, como outras mortes, dentro dos muros invisíveis do Alemão”, desabafa a repórter sobre a morte, no começo de abril, de Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, assassinado, segundo tudo indica, por uma bala disparada por um policial.  “Soube da morte por um grupo de Whatsapp do jornal.”

Viviane Ribeiro começou a escrever em 2009. Seu objetivo era extravasar a dor da perda de uma irmã, morta aos 23 anos em decorrência de uma hemiplegia, paralisia parcial do corpo. Segundo a jornalista, a doença da irmã resultara de um erro médico durante o parto. O próximo passo foi criar um blog e falar dos problemas da comunidade. O blog migrou para o Facebook, conquistou seguidores e tornou-se um dos principais jornais online publicados no Rio de Janeiro. 

Uma viatura policial cruza com a Kombi que sobe até o pico do morro de Nova Brasília. Um PM aponta um fuzil, dedo no gatilho, para a condução repleta de crianças. “São os piores anos do Alemão”, afirma a repórter, indignada com a cena. “Pelo menos antes da UPP a gente sabia quando ia ter operação policial e nos resguardávamos nas nossas casas. Agora acontecem a qualquer momento.” E acrescenta: “Houve um tempo em que, no Alemão, era muito tranquilo morar”.

Viviane Ribeiro refere-se aos anos 70 do século passado, quando os pais chegaram na comunidade de Nova Brasília, “então cheia de mato e gado”, e construíram um pequeno barraco de madeira, que com os anos virou uma casa com quintal onde mora com os pais, dois sobrinhos, um simpático papagaio, um gato e um filhote de cachorro vira-lata. 

Regina e Vicente, os pais, se conheceram quando ela, empregada doméstica em Copacabana, o encontrou deitado em um banco na orla. O garçom nem sempre tinha tempo de chegar à casa do irmão depois de encerrar o expediente no restaurante e se preparar para uma nova jornada de trabalho. Ambos tinham chegado havia pouco do Ceará, ele após uma viagem na qual combinou quilômetros a pé com outros tantos de carona. Quem casa quer casa, e Vicente arrumou um pequeno terreno em Nova Brasília para abrigar a mulher e a futura família. 

Aos 38 anos, Viviane assistiu à emergência do narcotráfico, mas hoje os policiais são sua principal preocupação, assim como aquela dos vizinhos. O Alemão Notícias foi hackeado. Ela está convencida de que a polícia atacou o site por causa de seu ativismo, da mesma maneira que a ameaçou, conta, há um ano, após um protesto pela paz que provocou a morte do mototaxista Caio Silva, de 20 anos, alvejado por um PM quando estava desarmado e sentado na garupa da moto. Um vídeo amador enviado aos sites comunitários mostrou: Silva estava desarmado e não houve confronto. 

“Não importa se quem publica primeiro as tragédias ou informações é o Papo Reto, A Voz da Comunidade ou o Alemão Notícias, o importante é que criamos um costume no morador comum de fazer filmagens e fotos e isso nos dá a possibilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo.” Assim avalia Alan Brum, cientista social e coordenador da ONG Raízes em Movimento, responsável por uma rigorosa contagem de vítimas da violência em tempos de pacificação. Entre dezembro de 2013 e em março de 2015, houve 22 mortos (três policiais entre eles) e 58 feridos (36 agentes), segundo uma contagem baseada na imprensa comunitária e tradicional, em um conjunto formado por 15 favelas onde vivem cerca de 70 mil habitantes.

Em geral esquecidos pela mídia tradicional, ou por ela retratados de maneira preconceituosa, os moradores do Complexo do Alemão contam com Viviane Ribeiro para conhecer a realidade à sua volta. Contra fuzis, revólveres e cassetetes ela se vale do poder da informação.