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Número 849,

Política

Editorial

Os três Poderes

por Mino Carta publicado 11/05/2015 05h19
E que diria Montesquieu ao constatar que no Brasil se chamam Eduardo Cunha, Gilmar Mendes e Joaquim Levy?
AFP
montesquieu-editorial

O pensador apunhalado em maio de 2015

Propala-se que a sociedade brasileira padece de exagerado, desbordante pessimismo. Afinal, o Brasil é a sétima economia do mundo, pagou suas dívidas etc. etc. O que vem a ser a sociedade brasileira, quais seus contornos precisos, confesso não saber. Sei que o advérbio afinal tem o poder de me irritar sobremaneira. Não há conversa, fala na tevê, texto midiático, isento do recheio de um ou mais afinal. Já houve tempo do inevitável com certeza, mais remotamente de a nível de. Talvez sejamos muito vulneráveis às modas em geral, e não me surpreenderia se surgissem os defensores da tese de que a moda atual é o pessimismo.

Pergunto aos meus macambúzios botões: será? Evidente, respondem em tom estranhamente soturno, claro, claríssimo. Encaro-os, a me fingir de desentendido. Ora, ora, que sentimento o toma, perguntam do seu lado, quando constata que as figuras mais representativas deste país são hoje Eduardo Cunha, Gilmar Mendes e Joaquim Levy? São os três poderes da democracia brasileira, três conforme manda Montesquieu. Insistem: como deixar de ser otimista? Espíritos condoídos às vezes deságuam em sarcasmo.

Costumo declarar-me anarco-gramsciano. Apossei-me de uma regra de comportamento de Antonio Gramsci, recomendava pessimismo na inteligência e otimismo na ação. Significa jamais entregar os pontos, mesmo em situação adversa. A apropriação do conceito não é indébita. O próprio pensador italiano a tomou do escritor francês Romain Rolland. A lição não vale somente para mim, mas também para CartaCapital. Mesmo com vento contrário, não perdemos a bússola.

Vento forte, a bem da verdade, mistral bravo, noroeste carregado de umidade maligna, é preciso reconhecer. Vivemos uma crise de proporções imponentes, de origem mundial, complicada, porém, por graves erros da nossa lavra, econômicos e políticos, cometidos em boa parte pelo próprio governo e por quem o sustenta, ou haveria de sustentá-lo. E por males endêmicos, próprios de um arremedo malogrado de civilização. Triste resumo de um enredo que resulta em um governo travado, à beira da impotência.

No outro polo, uma oposição incapaz de desempenhar um papel construtivo, empenhada exclusivamente em promover os desígnios da minoria e devolver o País à condição de súdito de algum império. O questionamento da serventia dos partidos como mediadores de interesses sociais junto ao poder é fenômeno que hoje aflige todos os países democráticos, ou tidos como tais. No Brasil, a questão alcança níveis paroxísticos, mesmo porque o PT, o único que poderia assumir o papel com um mínimo de dignidade, está agora em escombros, tragado por seu próprio fracasso ao chegar ao poder.

Consta haver exemplos notáveis de criatividade no empresariado jovem, e CartaCapital se compromete a procurá-los e valorizá-los. A novidade não atinge, contudo, o patronato tradicional, perfeitamente representado pelos sonhos tucanos. Nesta moldura, a presidenta Dilma oscila entre um bancário graúdo e o instável, subdoloso apoio do PMDB, a inesgotável agremiação do poder pelo poder. Otimistas na ação, nós somos, céticos ao extremo, entretanto, em relação às perspectivas de um país que carece de homens e ideias.

Tudo contribui para favorecer, e mesmo impor, a ideia do caos, e nela cabem situações e personagens sem conta. Desde a aprovação da PEC da Bengala pelo Congresso até a presença de Marco Polo Del Nero na presidência da CBF, pessoa privada, para a costumeira conveniência de poucos, mas representativa de um esporte fundamental para a expressão da cultura brasileira. Sem contar a nomeação de João Doria Jr. para a chefia da delegação brasileira à Copa América, claro desafio ao próprio governo, integrado por um ministro do Esporte absolutamente inepto.

Desde a desastrada intervenção do ministro de Minas e Energia, que, em Nova York, representante do Brasil em uma conferência sobre o petróleo, admite a possibilidade da entrega de bens da Petrobras a quem estiver disposto a adquiri-los contra os interesses nacionais, até aspectos mais contundentes deste gravíssimo momento, como a ausência de uma sociedade (pois é, sociedade) civil e de uma nação pronta e acabada, livre da herança de três séculos e meio de escravidão e consciente da cidadania.