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Número 849,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

O liberal clássico

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 18/05/2015 09h14, última modificação 10/06/2015 19h50
Keynes abominava o individualismo utilitarista tanto quanto o comunismo
Gifford-Mead/Alamy/Latinstock
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O biógrafo. Davenport escapou de quase todas as esparrelas

Em sua edição de 6 de maio, a revista Veja entregou a seus leitores uma entrevista com o biógrafo e historiador inglês Richard Davenport-Hines. Davenport é autor de várias biografias encastradas em episódios históricos populares. Vale a pena a leitura das histórias de vida dos tripulantes e passageiros do Titanic ou a narrativa, entre ácida e sarcástica, sobre o caso Profumo, escândalo que explodiu em 1963. An English Affair: Sex, Class and Power conta as travessuras sexuais e políticas de John Profumo, ministro das Relações Exteriores de Sua Majestade. O affair Profumo revela o espírito da Londres profunda, governada por um arranjo social peculiar “entre espiões, especuladores imobiliários, garotas de programa, puritanismo sexual e jornalistas mercenários de Fleet Street”.

Davenport concedeu seus talentos de historiador e biógrafo a John Maynard Keynes. Publicou, neste ano, The Universal Man, The Seven Lives of John Maynard Keynes. O projeto de revelar em Keynes o Homem Universal de seu tempo é realizado de forma brilhante: a formação e o desenvolvimento de Keynes são analisados a partir da ação concreta do homem de carne e osso inexoravelmente atormentado pelos conflitos e contradições de sua época.

O intelectual, o professor, o homem público, o financista, o amante dos homens, das mulheres e das artes surge de corpo e alma em sua participação na vida social, política e cultural da Inglaterra abalada por profundas e traumáticas transformações ocorridas da era Eduardiana à Primeira Guerra Mundial.

A Grande Guerra foi um terremoto que abalou os fundamentos da economia, da sociedade e sacudiu o ambiente cultural da Europa. O abalo foi devastador. Nas Consequências Econômicas da Paz, as reflexões de Keynes derramadas nos capítulos que cuidam da Europa antes e depois da guerra são uma tentativa de demonstrar a insubsistência dos pressupostos que sustentaram a Ordem Liberal Burguesa da belle époque.

O entrevistador anônimo – não há crédito para a autoria da entrevista – esmerou-se para enfiar o Homem Universal no espartilho do liberalismo econômico, que, dizem, faz sucesso nas lideranças que organizam panelinhas, paneleiros e panelaços. Davenport-Hines escapou com habilidade da estupidez binária que opõe intervencionismo versus não intervencionismo ou Estado versus mercado. Mas o entrevistado tropeça na bola ao afirmar que “Keynes acreditava no individualismo, na liberdade e nas artes. Não na burocracia, no comunismo e na regulação da vida”. Quem afirma ter esquadrinhado toda a obra do pensador inglês não pode ignorar que sua rejeição ao individualismo utilitarista dos liberais vitorianos era tão intensa quanto sua aversão ao comunismo. Keynes prezava como poucos a liberdade política e almejava o aperfeiçoamento do indivíduo. Era, no entanto, crítico feroz e implacável do individualismo utilitarista e do “amor ao dinheiro”.

No famoso escrito Minhas Primeiras Crenças, Keynes confessa que antes da guerra “a (minha) visão... calçava a ética do autointeresse; à medida que o autointeresse era racional, se supunha que os sistemas egoístas e altruístas conduziriam, na prática, às mesmas conclusões... Não era apenas que intelectualmente erámos pré-freudianos, mas nós tínhamos perdido algo que nossos antecessores tinham sem substituí-lo”.

Keynes sintetiza os efeitos do choque causado pela Grande Guerra sobre as consciências da contraelite inglesa acantonada em Bloomsbury: “Existíamos no mundo dos Diálogos de Platão; não tínhamos alcançado a República, muito menos As Leis”.

Depois da guerra e de Versalhes, Maynard acentuou sua rejeição do liberalismo vitoriano. No seu célebre artigo de 1926, O Fim do Laissez-Faire, Keynes, irreverente, ridicularizou a vulgarização do ideário liberal exposto nas Lições Simples para o Uso dos Jovens, panfleto que a Sociedade para a Promoção do Conhecimento Cristão do Arcebispo Whately “distribuía indiscriminadamente”.

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Um pensador universal

As tais Lições predicavam aos jovens ensinamentos inefáveis: “Provavelmente, deve causar mais dano do que bem qualquer interferência do governo nas transações monetárias dos homens, seja emprestando e tomando emprestado, ou comprando e vendendo qualquer coisa”. Keynes fulminou: “Em suma, o dogma se apropriou da matriz educacional. Tornou-se um receituário de manual. A filosofia política que os séculos XVII e XVIII forjaram para derrubar reis e prelados se converteu em leite para bebês e, literalmente, adentrou o quarto das crianças”. Ele vergastou a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”

As abstrações da racionalidade desmancharam-se diante dos horrores da vida concreta revelados pela guerra e pela Grande Depressão dos anos 30. Essa reviravolta espiritual persistirá como fundamento filosófico e metodológico da obra econômica de Keynes: das fantasias individualistas e racionalistas para os cruéis labirintos da história, da temporalidade e da incerteza.

Em 1933, no nadir da Grande Depressão, Keynes escreveu: “O capitalismo internacional decadente e individualista, cujas mãos nos aprisionam desde a guerra, não é um sucesso. Não é inteligente, não é bonito, não é justo, não é virtuoso − e não entrega o que promete. Em suma, não gostamos dele e já começamos a desprezá-lo... Mas ficamos extremamente perplexos quando imaginamos o que poderia ser posto em seu lugar”.

No último capítulo da Teoria Geral, Keynes justifica suas opiniões a respeito da imperiosa necessidade de prevenir as flutuações e a crise do capitalismo individualista, mediante a socialização do investimento. “Creio que uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a iniciativa privada.”