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Número 849,

Política

Análise/Vladimir Safatle

Empresários de si

por Vladimir Safatle publicado 13/05/2015 05h17, última modificação 25/05/2015 09h28
O sujeito neoliberal não segue normas positivas, calcula resultados e, por isso, flexibiliza normas continuamente
Marcos Santos/USP Imagens
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Várias pessoas descrevem a tal terceirização como uma espécie de liberação, em prol de uma realidade na qual os indivíduos poderiam ser empresários de si mesmos.

Algumas reações ao projeto de generalização da terceirização vindas de setores da dita opinião pública evidenciam o caráter relativamente bem-sucedido da implantação ideológica do neoliberalismo entre nós. Pois não é sem surpresas perceber como vários descrevem tal terceirização quase como uma espécie de liberação em relação a uma noção rígida de emprego, isto em prol da aceitação de uma realidade na qual os indivíduos poderiam ser algo como empresários de si mesmos. Processo que transforma o risco gerado pela insegurança social generalizada em expressão de um mundo de oportunidades abertas para exercitar o espírito concorrencial daqueles que teriam capacidade empreendedora. Nestas horas, há de se ter clareza da economia psíquica de tal mentalidade neoliberal até para termos consciência da maneira mais eficaz de combatê-la.

Nesse sentido, vale a pena lembrar como o neoliberalismo não é apenas um modo de regulação dos sistemas de trocas econômicas baseado na maximização da concorrência e do dito livre-comércio. Ele é um regime de gestão social e produção de formas de vida. Thatcher mostrou ao menos a virtude da honestidade ao afirmar: “A economia é o método. O objeto é modificar o coração e a alma”. Essa modificação do coração e da alma foi completada quando os sujeitos internalizaram um “ideal empresarial de si” como dispositivo disciplinar.

Tal ideal empresarial de si foi o resultado psíquico necessário da estratégia neoliberal de construir uma formalização da sociedade com base no modelo da empresa. Estado, igreja, escola, hospitais, todas as instituições se reconfiguraram a partir do modelo da empresa. A generalização da forma-empresa no interior do corpo social abriu as portas para os indivíduos se autocompreenderem como “empresários de si mesmos” que definem a racionalidade de suas ações a partir da lógica de investimentos e retorno de “capitais” e que compreendem seus afetos como objetos de um trabalho sobre si ,tendo em vista a produção de “inteligência emocional” e otimização de suas competências afetivas. Ela permitiu ainda a “racionalização empresarial do desejo”, fundamento normativo para a internalização de um trabalho de vigilância e controle baseado na autoavaliação constante de si a partir de critérios derivados do mundo da administração de empresas. Essa retradução das dimensões gerais das relações inter e intrassubjetivas em uma racionalidade de análise econômica baseada no “cálculo racional” dos custos e benefícios abriu uma nova interface entre governo e indivíduo, criando modos de governabilidade muito mais enraizados psiquicamente.

Se voltarmos os olhos para a estrutura interna de tal ideal, veremos como ele é baseado na racionalização das ações a partir de uma dinâmica de maximização de performances. Ações que visam a pura maximização de performances devem se organizar de maneira similar a atividades econômicas baseadas na extração da mais-valia e, por consequência, nos processos de autovalorização circular do Capital. Essa racionalidade própria a uma sociedade organizada a partir da circulação do que não tem outra função a não ser se autovalorizar, que determina as ações dos sujeitos a partir da produção do valor, precisa socializar o desejo levando-o a ser causado pela pura medida da intensificação, pelo puro empuxo à ampliação que estabelece os objetos de desejo em um circuito incessante e superlativo. Como disse uma vez a guru de Eric Packer, o yuppie de Cosmópolis: “Você gastou esse dinheiro pelo próprio número em si. Cento e quatro milhões. Foi isso que você comprou, Eric”. Você não comprou objetos, mas o empuxo à ampliação financeiramente mensurável que destrói todo e qualquer objeto, que faz com que objetos sejam apenas os suportes de sua própria mensuração. Essa estrutura psíquica cujo desejo é causado pela pura medida da intensificação pede uma economia psíquica baseada em uma lógica empresarial da pura acumulação e intensificação.

Por fim, é importante salientar que um ideal empresarial de si baseado na dinâmica de maximização de performances exige a flexibilização contínua de normas, tendo em vista o crescimento de quem vence relações de concorrência. O sujeito neoliberal é muito mais um agente calculador de custos e benefícios do que um sujeito a quem se espera a conformação às normas sociais. Ele não segue normas positivas, ele calcula resultados, por isso ele flexibiliza normas continuamente. Dessa forma, criou-se uma economia psíquica que naturaliza um mundo que parecia ser o avesso de toda naturalidade.