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Número 848,

Cultura

Memória

Um legado de liberdade

por Rosane Pavam publicado 01/05/2015 06h28
Ator e diretor, Antonio Abujamra exerceu o livre pensar
Reinaldo Marques/Ag. O Globo
Abujamra

Abu, a visão ampliada e o irônico fracasso

Livre pensar, para Antonio Abujamra, era só pensar. Morto aos 82 anos, na manhã de terça 28, em São Paulo, o diretor e ator paulista que iniciara carreira no teatro enquanto cursava jornalismo e filosofia em Porto Alegre sabia dizer a frase certa, impiedosa ou autoderrisória. Esse ato colado ao de provocar, exercido com arte e gosto, ajudara a batizar seu programa de entrevistas dos últimos 15 anos, Provocações, na TV Cultura. Sobre si mesmo, suas palavras: “Uma experiência que não deu certo. Quem sabe em 10 mil anos”. Sobre o ator de teatro: “Alguns se jogam acalorados, perdendo o domínio das emoções, a consciência dos efeitos. É preciso ter sempre à mão os livros de João Cabral de Melo Neto que ensinam como fazer um gesto com a mão suave, um toureiro diante da fera”. Sobre a cultura brasileira: “Sempre é uma complicação fazer qualquer coisa cultural no Brasil. A educação é uma merda. A internet está aí, ninguém sabe ensinar mais”. 

Abu também dizia que, por não saber britar pedras, tinha caminhado até o teatro, onde é admissível enforcar-se com a corda da liberdade, sem contar que fracassar ou bem suceder-se não passaria, ali, de impostura. Em sua opinião, no teatro mais fracassou, movido, contudo, pelo intuito de agir politicamente, de não copiar ninguém. Começou aos 20 anos, em 1952, como ator em Assim É se lhe Parece, de Luigi Pirandello, no Teatro Universitário de Porto Alegre. Em 1961, de volta da Europa, onde estudara poesia, dirigiria Cacilda Becker em Raízes, de Arnold Wesker. Insistiria na técnica brechtiana por 43 anos e 150 montagens, seria censurado, exigiria o rigor para a interpretação de suas soluções, tudo isto até atentar que, no palco, quem manda é o ator. 

Em 1987, com mínimos e brilhantes gestos, interpretou o monólogo O Contrabaixo, para então pular ao cinema, no papel de um jogador de sinuca em Festa, de Ugo Giorgetti, em 1989, e daí para a televisão (que conhecera antes como diretor), ao representar um bruxo na novela global Que Rei Sou Eu? “Foi um sucesso extravagante. Ravengar ainda passeia pelas ruas.” Nos últimos dois anos, desde a morte de Dona Belinha, a esposa por toda a vida, mãe de seus dois filhos, a quem ele atribuía amorosa santidade, reduzia o ritmo de trabalho, dedicado a seu programa de tevê.