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Número 848,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Os super-ricos e o resto

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/05/2015 10h19, última modificação 10/05/2015 10h41
A estrutura social está cada vez mais parecida com a hierarquia corporativa
Brazil

A sociedade retratada no filme Brazil, 1958, Terry Gilliam, é desigual e consumista, com tecnologia onipresente e governo totalitário

Brazil é uma distopia satírica dirigida por Terry Gilliam, em 1985. O personagem central é Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce. A sociedade retratada no filme é desigual e consumista, a tecnologia é onipresente, o governo é totalitário, as corporações são poderosas e impessoais, a mãe do protagonista é obcecada por cirurgia plástica e o seu trabalho não tem sentido. As semelhanças com as empresas e a sociedade contemporânea são notáveis.

A vida imita a arte. Em um texto sobre os movimentos populares na sociedade do século XXI, Noam Chomsky traça a origem dos termos Plutonomia e Precariado. O primeiro surgiu de um estudo realizado há dez anos por analistas do Citigroup, segundo o qual o mundo está dividido em dois blocos, a Plutonomia, formada pelos super-ricos, e o resto. O objetivo dos autores era orientar os investidores a selecionar as melhores ações, aquelas de empresas que produzem para os abastados.  

A Plutonomia surgiu das condições do capitalismo moderno: governos simpáticos às grandes corporações, estado de direito que garante a liberdade econômica, espaço para “inovações” financeiras, proteção de patentes e mão de obra qualificada e dócil. Os super-ricos concentraram a riqueza dos países desenvolvidos anglo-saxões, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. Entretanto, os criadores do termo acreditavam que formações similares surgiriam em economias emergentes, como Brasil, Rússia, Índia e China.

A contrapartida da Plutonomia é o Precariado, formado por um contingente que vive em condições de insegurança e incerteza, tende a crescer e tornar-se um componente relevante da estrutura social. O economista Guy Standing é autor do mais conhecido livro sobre o tema, The Precariat: The new dangerous class, publicado em 2011. Standing advoga que a transformação global da economia está gerando uma nova estrutura de classes, substituta da anterior, cuja espinha dorsal era formada pela burguesia e pelo proletariado.

A nova estrutura, segundo o autor, é composta de vários grupos. No topo encontra-se uma plutocracia internacional, a usar seu poder econômico para influenciar e moldar o poder político. Abaixo dela vicejam elites nacionais e compõe com a primeira uma classe hegemônica. Logo abaixo, vem o grupo assalariado, com rendimentos elevados e segurança no emprego. Seus membros ocupam o topo da pirâmide das grandes empresas e nichos privilegiados da máquina do Estado. É uma confraria pressionada, perde integrantes para os grupos logo abaixo, frequentemente por causa de processos de terceirização. Parte desse contingente é constituída por consultores e pequenos empresários, que sonham em pertencer à elite. Abaixo desses situa-se o velho proletariado, mais um grupo em processo de redução, com poucas chances de sucesso na luta pela manutenção de conquistas passadas. O precariado está abaixo do proletariado e constitui, segundo Standing, uma “classe em construção”. Seu trabalho é caracterizado pela flexibilidade e incerteza. 

Standing observa que o precariado é constituído por três subgrupos. O primeiro é formado pelos desterrados do proletariado, com baixo nível de instrução, frustrados e propensos a serem seduzidos pelo populismo de extrema-direita. O segundo é composto de imigrantes e minorias, frequentemente nostálgicos e politicamente passivos. O terceiro é constituído por profissionais qualificados, inseguros sobre seu status na sociedade e sujeitos a trabalho eventual. O autor identifica ainda um lúmpen precariado, formado por miseráveis que vivem nas ruas, à margem da sociedade.

A tipologia de Standing pode ser vista como um modelo em construção. Entretanto, seus componentes podem ser facilmente observados nas pirâmides empresariais. No topo, os controladores e suas famílias, servidos por grupos seletos e bem remunerados de executivos. Nos escalões médios, gestores e profissionais especializados, aspirantes naturais à vida nos andares superiores. Abaixo deles, um exército de analistas e operários, lutando para preservar salários, empregos e benefícios. Ao redor, contingentes cada vez maiores de prestadores de serviços, dos mais qualificados assessores aos menos instruídos provedores de serviços básicos. A uni-los a sujeição às intempéries econômicas e aos humores dos contratantes. A sociedade parece imitar as corporações.