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Número 848,

Cultura

Teatro

'Esqueça os Beatles e leia sobre Antonio Bivar'

por Alvaro Machado — publicado 12/05/2015 05h50
Autobiografia revisita a trajetória do dramaturgo e seu mergulho na contracultura
Renato Stock/Na Lata
Antonio Bivar

Verve, pendor à ironia e charme inextinguível

Inextinguível, o charme de 76 anos completos era patente antes do primeiro aniversário, quando explorou sozinho a chácara cuidada pelos pais, às margens do córrego Mandaqui, na capital paulista, para devorar diretamente do pé um vistoso pimentão. Restaram o talo e as sementes. É provável que a fruta vermelha tenha afiado a língua do futuro dramaturgo e escritor.

Antonio Bivar tomou gosto por prosear sem relógio com toda criatura que o destino lhe coloca à frente e registrar em escrita as ricas experiências que a vida lhe reservou a partir de meados dos anos 1960, quando sua inata elegância franciscana abraçou a contracultura. É o que conta a autobiografia recém-lançada Mundo Adentro Vida Afora - Autobiografia do Berço aos Trinta (L&PM, 216 págs., R$ 29,90), a abranger até o autoexílio do autor em Londres, 1970, após se liberar de prisão devida, em parte, a honesto título de matéria do Jornal da Tarde: “Esqueça os Beatles e leia tudo sobre Antonio Bivar. Ele também toma LSD”.

Em vista do mergulho do autor no desbunde, de sua distância da política engajada e pendor à ironia, Plínio Marcos forjou inolvidável bordão para o colega, assim como ele enfeixado pela crítica na chamada Nova Dramaturgia brasileira. “Enquanto estamos lutando pelo arroz e feijão, lá vem o Bivar com a sobremesa”, repetia alto Plínio no intervalo da estreia paulista de Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã, terceira peça do autor, com Maria Della Costa, em 1968.

“Gostei, ele captou o meu espírito”, observa Bivar. A estrela gaúcha tornou-se amiga pela vida, assim como a carioca Norma Bengell, que protagonizou a encenação concomitante de Cordélia Brasil no Teatro de Arena. A biografia menciona a dedicação da atriz, a varrer o palco com contrição dramática antes de cada sessão. “Ela ressurgia aqui após pavorosa carreira de starlet de filmes B na Itália, bancados por um amante paulista ligado a Adhemar de Barros.” A rentrée como dama liberal, porém, valeu a La Bengell sequestro pelo II Exército, do Rio de Janeiro. A temporada foi salva por Cacilda Becker, que conseguiu com governadores que Norma fosse devolvida a São Paulo.

“Durante muito tempo tive a impressão de vir do nada e resolvi detalhar minha genealogia para eu mesmo me entender”, justifica o escritor. Nasceu no “casebre” de um funcionário público, a mãe a completar o orçamento dos anos da Grande Guerra com costuras, até que a necessidade obrigou a família a transferir-se para a fazenda de avós em Ribeirão Preto.

As primeiras letras foram juntadas na manhã de Natal em que ganhou um livrinho do Zé Carioca. Mais tarde o fascinaram uma versão em quadrinhos de O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde, e fotos hollywoodianas na revista O Cruzeiro.

Amparado pelo ramo paterno carioca, empregou-se aos 21 na capital federal, onde ficou hipnotizado com as atuações de Dulcina de Moraes (1908-1996). Cursou a escola da diva para ser bem notado nos palcos locais e chegou a saltar em demi-plié, como um dos caçadores do balé Giselle da dupla Nureyev-Fonteyn, no Municipal carioca.

Não voltou a pisar o nobre palco, mas é no Rio que se assiste à encenação de parte de sua juventude. A profunda amizade com o dramaturgo paulista José Vicente (1945-2007), percorrida em dois livros, Verdes Vales do Fim do Mundo (1985) e Longe Daqui, Aqui Mesmo (1995), gerou Próxima Parada, texto coletivo a reconstituir o zeitgeist dos anos 70, com direção de César Augusto, de 8 a 31 de maio no Teatro Café Pequeno, Leblon.

A par dos próximos volumes, em esboço, alimenta diário com lances mais delicados para publicação post-mortem, a fim de evitar o ostracismo sofrido por Truman Capote com La Côte Basque. Revisitará sua carreira jornalística, como editor de estilo e colaborador das revistas Gallery Around, Interview e A-Z, nas quais chegou a escrever números quase inteiros com pseudônimos como Sra. Lisandro Deprê, Danúbia Leitão e Gilberto de Thormes.

impacto de seus nomes fictícios representou esteio da carreira dramatúrgica. Em 1967, sem conhecer o conteúdo de sua peça de estreia, cronistas como Carlinhos Oliveira e Sérgio Porto se deliciaram com o título: Simone de Beauvoir, Pare de Fumar, Siga o Exemplo de Gildinha Saraiva e Comece a Trabalhar. “Gildinha tornou-se fenômeno de divulgação espontânea”, lembra Bivar.

O ocultamento de identidades constitui expediente de Mundo Afora. A socialite do capítulo 60, que o conduz a terreiro de macumba da Baixada Fluminense comandado por seu próprio motorista travestido, é personalidade da MPB.

No imbróglio, o paulista desafia com sua fé peculiar a autoridade da líder local e é ameaçado com frase que iria parar na boca da atriz Yolanda Cardoso, em Alzira Power (1971): “O poder aqui dentro sou eu”. O autor explica ter sido “uma jogada com os vários powers que eclodiam, black, gay, flower, women’s etc.”

O trânsito pela música foi bem-sucedido: “Quando minhas peças passaram de moda, lá por 1973, sobrevivi com direção cênica de shows de Maria Bethânia, Rita Lee, Simone e outros, e consegui comprar um pequeno apê. Foi quando o crítico Sábato Magaldi escreveu o artigo Um Mito Que se Desfaz”, ri.

Além de abordar sua segunda fase dramatúrgica e a curadoria de eventos históricos do punk brasileiro, os próximos volumes lembrarão as marcas que o encanto pessoal do dramaturgo deixou em mais de um continente, com pedido de casamento de Maysa Matarazzo, namoro com a estrela francesa Micheline Presle em Paris e relacionamento de 15 anos com a editora britânica Jenny Thompson, falecida em 2008. Esta o introduziu à Sociedade Virginia Woolf, que Bivar honra com visitas anuais à Inglaterra, como narrado em Na Corte de Bloomsbury (2005).