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Número 847,

Cultura

Crônica

Dr. Cabral

por Marcio Alemão publicado 29/04/2015 04h52
Restaurante bom tem que servir o que eu gosto
Minimorgan/Istockphoto
Gourmet

Pode parar! Se eu quisesse conselho, sugestão, eu ia comer na casa da minha mãe.

Futuro próximo. Temos vários restaurantes três-estrelas Michelin e colocamos mais 12 na lista da revista boliviana Los Mejores! Sim, a Bolívia tornou-se a mais importante capital gastronômica do planeta.
Em São Paulo, no bairro de Capão Redondo, novo polo gourmet, iremos encontrar um dos muitos restaurantes agraciados com três-estrelas.
Comida italiana revisitada, na verdade, ítalo-peruana. O local chama-se Ceviche Arrabbiato e quem adentra ao elegante salão é o Doutor Cabral.
– Bom dia, Dr. Cabral.
– Como vai, Dr. Cabral?
– Prazer em vê-lo, Dr. Cabral.
– Deixa eu acompanhar os senhores até sua mesa, Dr. Cabral.
–Dr. Cabral vai ao local pelo menos cinco vezes por semana.
– O senhor vai querer o seu vinho ou lhe trago o seu drinque?
– Você me traz primeiro o meu drinque, pra mim e pro meu amigo, Dr. Meira.
– Perfeitamente. E lhe trago os pasteizinhos de carne– seca?
– Com queijo coalho, veja lá!
– Sem dúvida.
Meira, curioso, pergunta:
– Pastel de carne-seca, Cabral? Mas aqui não é o templo da grande cozinha ítalo-peruana contemporânea?
– E por causa disso vou pedir um ceviche com espuma de rigatoni? Restaurante bom tem de servir o que eu gosto.
Chega o maïtre com os drinques.
– Muito bem, aqui estão as caipirinhas de saquê com lichia e Campari. Saúde!
– Grazie, Romildo! Prova essa caipirinha, Meira. Criação minha.
Meira, constrangido:
– Parabéns, Cabral!
– E o que eu vou trazer para os senhores comerem? A sugestão do chef, hoje...
– Pode parar! Se eu quisesse sugestão, conselho, essa merda toda, eu ia comer na casa da minha mãe. 
– O senhor me perdoe, mas a sugestão do chef é exatamente uma de suas criações, il gran bollito com choclo, o milho boliviano, e carne louca. Acompanha uma macarronada com muçarela de lhama e tomates andinos.
– Meira, você vai enlouquecer com esse prato.
– Eu temo que sim. 
– Aqui estão os pasteizinhos, bom apetite!
– Prova, Meira! Prova e me conta!
Meira prova, não acha nada e não se contém:
– Cabral, me desculpa. Esse restaurante é considerado um dos melhores do mundo e você vem aqui pra comer pastel, caipirinha de saquê, bollito com macarrão?!
– E quem você acha que sustenta os grandes restaurantes do mundo, os megafamosos, os estrelados? Os gourmets? Pessoas de paladar apurado? Ledo engano, Meira. São os ricos e broncos como eu. Aliás, meu fundo de investimento é dono disso aqui. E quem paga a conta são os bacanas ou bananas que viajam por conta da firma. Hoje são os russos, os chineses, coreanos e brasileiros com família e babá. Se eles estão preocupados com a comida? Acho que não. O que vale é o valor da conta, o espetáculo, o assunto. E posso te oferecer um vinho?
– Manda.
– Romildo, traz o meu Pommard 1990, com gelo e laranja. 


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