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Número 846,

Sociedade

Religião

Quem precisa de um deus?

por Redação — publicado 27/04/2015 04h31
Pesquisa mostra que o mundo ainda tem fome de fé. Surpresa: os jovens creem mais que os velhos
Deus

"Sou agnóstico porque não me considero em condições de debater questões que escapam ao exercício da razão"

É um engano acreditar que o ceticismo crítico instigado pelas revelações da ciência e a predominância das instituições laicas na vida cotidiana – salvo em redutos da teocracia, tais como Arábia Saudita, Israel e os estados caipiras dos Estados Unidos – tenham levado as pessoas a prescindir dos vínculos com o sagrado. 

O mundo não vive hoje em dia a empolgação medieval das Cruzadas (com a exceção de um ou outro surto tópico de fanatismo) nem a era sanguinolenta das guerras de religião (embora a fé ainda mate), no entanto, dois entre três habitantes do planeta professam – e confessam ­– algum tipo de credo.

E 63% é o índice correto dos que se dizem “religiosos”, de acordo com pesquisa da Win/Gallup International divulgada esta semana. Foram entrevistadas 63.898 pessoas em 65 países, e no mapa-múndi da fé, algumas surpresas despontam, além – como constatou Jean-Marc Léger, presidente do instituto de pesquisa – da adesão consideravelmente alta, em pleno século XXI, a deuses, santos, místicos e profetas. 

O maior espanto, porém, vem da constatação de que o maior contingente dos crentes localiza-se entre os jovens abaixo de 34 anos (66%), caindo para 60% entre os adultos acima de 54, o que demonstra que a maturidade pode, contrariando o estereótipo clássico das beatas carolas, alimentar o saudável cultivo da dúvida. De todo modo, a adesão da juventude a algum tipo de crença atesta – observa Léger – que o sentimento religioso está longe de minguar. No caso da garotada, apurou o Win/Gallup, filiar-se a uma religião – especialmente o islamismo e o judaísmo – pode vir no contexto de busca de identidade cultural e até mesmo virar uma bandeira política.

O Brasil, que se vangloria de ser o país mais católico do mundo, está, no quesito fervor beatífico, em pé de igualdade com a Itália, sede do papado, e com a Turquia muçulmana. Mas não chegam aos calcanhares dos campeões da crendice: Tailândia (94%), Armênia (93%), Bangladesh (93%), Geórgia (93%) e Marrocos (93%). Na mão oposta, a Europa Ocidental acolhe mais descrentes do que religiosos (na Suécia, 19%/76%). Mesmo na Espanha os que se dizem convictamente ateus chegam a 20%. Na Grã-Bretanha (30%/66%), mais da metade da população acha que religião é mais nefasta do que benéfica.

Se na China o materialismo histórico plantou raízes (61% se dizem ateus e só 7% são religiosos), a Rússia esqueceu de vez aquela imprecação marxista da religião como ópio do povo. Sobrevivem por lá 5% de ateus. E 70% dos russos agora se dizem religiosos, o que encheria de orgulho os antigos czares Romanov.

Nem esperança, nem medo
Por Mino Carta

Oscilo entre duas falas de Shakespeare. Uma diz ser a vida o sonho de um louco, cheio de som e fúria, a significar nada. A outra alega haver entre o céu e a terra muito mais mistério do que pretende a nossa vã filosofia. A primeira rufa o tambor nos meus momentos de trágico pessimismo. A segunda inspira meu agnosticismo.

Tenho excelentes amigos, crentes e descrentes, mesmo com eles, porém, não aceito discutir a existência de deus ou a imortalidade da alma. Diga-se que meu passado remoto poderia me levar por caminho diferente. Meu pai, primeiro mestre de agnosticismo e anticlericalismo, e coisas mais, me pôs a estudar no curso primário do colégio das Marcelinas, movido a tanto pelo declarado antifascismo das freiras, bondosas e valentes. Nem por isso deixavam de ministrar intermináveis aulas de catecismo.

Conduzido por minha mãe a uma aldeia piemontesa para fugir dos bombardeios que toda noite desabavam sobre Gênova, onde nasci, cursei os dois primeiros anos do ginásio em um colégio dos Padres Doutrinários, razão da escolha materna do nosso refúgio. Recordo as Marcelinas com ternura, não posso dizer o mesmo em relação aos padres, sobretudo no que diz respeito ao diretor do colégio, o qual era coxo como o demônio e, ao caminhar, inflava a batina do lado esquerdo igual a vela negra. Afirmava ele que Dante teria colocado Garibaldi no seu Inferno e que Voltaire morrera vomitando excrementos.

Fui coroinha competente, aprendi a servir missa em latim, mas o que me seduzia era a exibição, valorizada pela transferência do missal de um lado a outro do altar, cujos degraus descia com pés bailarinos. De mais a mais, vestia o roquete rendado pelas mãos da vovó Eugenia. Mesmo assim não tardei em descobrir na zona miasmática situada entre o fígado e a alma uma tendência à hipocrisia. De fato, em conversas particulares, definia deus como o Grande Humorista. Meu pai ria.

Sou agnóstico porque não me considero em condições de debater questões que escapam ao exercício da razão, dentro dos meus modestos alcances. Creio ser chegado a Spinoza, nem esperança, nem medo, recomendava. Deixo a emoção para outras circunstâncias. Fosse deus um velho de barba branca, e tivesse eu a ventura de encontrá-lo, não hesitaria em lhe dizer umas boas. Acho que, caso exista, não se incomoda com o destino de quem teria criado, indiferente como o Sol e a Lua.

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