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Número 846,

Economia

Negócios

As ilhas de otimismo da economia

por Samantha Maia — publicado 29/04/2015 04h52
Os poucos setores com bom desempenho tentam resistir ao aprofundamento da crise neste ano
Marcelo Camargo/Fotos Públicas
Supermercados

O faturamento dos supermercados cresceu 1,8% em 2014 e 1,93% no primeiro bimestre deste ano em relação a janeiro e fevereiro do ano passado.

Em um momento de indicadores econômicos desoladores, a exemplo do crescimento do PIB de 0,1% em 2014 e previsão de uma variação negativa de 0,9% neste ano, aumento do desemprego para 5,9% em fevereiro e queda na produção da indústria de 7,1% em janeiro e fevereiro, em relação ao mesmo período do ano passado, alguns setores mostram faturamento crescente, manutenção dos investimentos e das contratações. Alguns desses segmentos alimentam o seu otimismo com o bom desempenho em 2014. É o caso das drogarias, com crescimento de 12,8%, fabricantes de produtos de higiene e beleza, com 11%, e produtos de limpeza, com 11,2%. Dependentes diretos da renda disponível (renda pessoal menos a tributação direta) dos consumidores, esses setores podem, porém, ter o bom desempenho afetado pelas demissões dos trabalhadores. De acordo com a Federação do Comércio de São Paulo, a confiança do consumidor paulistano medida em abril, de 101,6 pontos, é a menor em 12 anos.

Representantes dos supermercados e das drogarias projetam para 2015 um crescimento semelhante ao do ano passado, com a expansão do número de estabelecimentos e o deslocamento do consumo de bens duráveis para o de bens essenciais por eles comercializados. “O consumidor não consegue trocar o carro ou fazer um financiamento porque os juros estão mais altos, mas não deixa de comprar um produto de beleza ou um medicamento”, diz Sérgio Mena Barreto, presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, para quem o setor só será atingido se houver desemprego em massa no Brasil. Em 2014, o faturamento das vendas de itens de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos chegou a 101,7 bilhões de reais no Brasil, 30% dos quais conquistados a partir de lançamentos. A receita líquida da Natura, multinacional brasileira do setor, cresceu 5,7% em 2014. No Brasil, o faturamento avançou 1,9%.

 “A crise não é igual para todo mundo e acredito que ela é passageira”, diz Francisco Deusmar de Queirós, proprietário e presidente da rede de farmácias Pague Menos, com aumentos de 18% nas receitas e de 6,3% no lucro em 2014. O crescimento deu-se com a ampliação da abrangência da empresa a partir da abertura de 96 lojas e da contratação de 2 mil funcionários, em um investimento de 120 milhões de reais. Para 2015, a rede planeja investir 150 milhões de reais na abertura de outros 98 pontos de venda.

Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, tem uma perspectiva menos otimista. “Segmentos muito ligados à renda disponível dificilmente não sentirão neste ano a redução do poder de compra dos brasileiros, mesmo que de forma mais amena.” Souza ressalta que os últimos dados do IBGE mostram uma desaceleração generalizada na contratação de trabalhadores pela indústria. Segundo o instituto de pesquisa Data Popular, 42% dos trabalhadores da classe C já fazem “bico” para complementar a renda, o que pode representar certo fôlego para quem comercializa bens essenciais, mas confirma a deterioração do mercado de trabalho. Um estudo recém-divulgado pela Organização Internacional do Trabalho prevê que o Brasil terá um desemprego ligeiramente crescente neste ano e no próximo.

O primeiro impacto da retração da renda no consumo de bens essenciais é a migração de produtos mais caros para outros mais baratos. O fenômeno ainda não foi sentido nos supermercados e nas drogarias. Para Barreto, a mudança de comportamento que levou os consumidores, ao longo dos últimos 20 anos, a comprar produtos de maior valor agregado no ramo de higiene e cosméticos, como resultado da estabilização da economia e do crescimento da renda, não parece ameaçada. “Ainda lidamos com uma renda estável, sem taxa de desemprego alta”, diz o executivo. A Abrafarma prevê crescimento do setor semelhante ao do ano passado, de 12%, com a abertura de 500 lojas, com a contratação de cerca de 3 mil trabalhadores.

A principal preocupação das farmácias é a variação cambial e o seu impacto no custo das matérias-primas dos medicamentos, quase todas importadas. Com preços regulados, o governo concedeu reajustes abaixo da inflação para a indústria farmacêutica, o que deve reduzir a margem de negociação de descontos com o varejo.

O faturamento dos supermercados cresceu 1,8% em 2014 e 1,93% no primeiro bimestre deste ano em relação a janeiro e fevereiro do ano passado. Segundo João Sanzovo, vice-presidente da associação das empresas do setor, as companhias mantêm os planos de investimento e a previsão para 2015 é crescer 2%, em linha com o ano passado. “Continuamos com necessidade de abrir novas lojas e contratar funcionários. Alguma mudança pode ocorrer em 2016, a depender dos resultados da economia.”

Maior varejista do País, o Grupo Pão de Açúcar registrou lucro de 1,7 bilhão de reais em 2014, valor 26% superior ao do ano anterior. O número de empregados na rede aumentou de 156 mil em 2013 para 160 mil. A previsão para 2015, segundo a rede, é investir 1,8 bilhão de reais para aumentar os locais de venda em 6%. O valor é semelhante ao investido em 2013 e 2014.

Assim como no ramo das farmácias, os supermercados acompanham com maior preocupação a inflação dos produtos, redutora do poder de compra da população. Segundo a Abras, uma cesta de 35 produtos de maior consumo teve alta de preço de 5,64% em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês de 2014.

Os produtos de limpeza são um exemplo de itens com alta constante nas vendas, mas incorporam um aumento dos custos relacionados principalmente aos insumos importados e aos gastos com energia. O impacto do preço não deve, porém, afetar as vendas, segundo Maria Eugenia Saldanha, presidente da associação que representa as indústrias do setor, pois o maior estímulo à demanda, a entrega de moradias do programa Minha Casa Minha Vida, será mantido. “Quando o cidadão muda para uma casa nova e compra eletrodomésticos, ele aumenta a sua necessidade de consumo de produtos de limpeza, por isso acreditamos que em 2015 a demanda vai se manter.” Em 2014, o crescimento do volume de vendas foi de 8,5%, com a contratação de 1,5 mil trabalhadores.

O impacto da crise hídrica preocupa hoje o setor mais do que a econômica. “Os nossos produtos demandam o uso de água e temos acompanhado as mudanças de hábitos dos consumidores dentro da nova realidade de restrição do recurso.”

No setor de serviços, as empresas de cartão de crédito estão entre aquelas que não sentem impactos da crise. Com crescimento acima de dois dígitos no Brasil há uma década, o mercado de cartões movimentou 979 bilhões em 2014, número 14,8% acima do registrado 2013. Para este ano, a projeção é aumentar as transações em 12,5%. “Crescemos em substituição a outros meios, como cheques e saques, e devido à aceitação em um número maior de estabelecimentos”, diz Ricardo Vieira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços. O uso do meio de pagamento alcança hoje 30% dos gastos das famílias no Brasil, e as companhias acreditam existir muito espaço para crescer mesmo durante um período de crise econômica. O índice de inadimplência, que poderia aumentar em consequência da redução da renda disponível da população, mantém-se no patamar de 7% desde 2013.

A dúvida é saber se esses setores continuarão na crista da onda caso a crise se arraste por mais tempo do que o esperado. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 846 de CartaCapital, com o título "Ilha de otimismo"