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Número 846,

Cultura

Música

Dois violões, uma alma

por Ana Ferraz publicado 22/04/2015 01h20
O Duo Assad celebra 50 anos de virtuosismo com CD e turnê pelo Brasil
Rodrigo Assad
duo assad

Sérgio, o mais velho, e Odair Assad, hoje...

O pai, jorge, era bandolinista autodidata. A mãe, Angelina, cantava e amava serestas. Na infância, em Mococa, interior de São Paulo, os encontros da família eram embalados a choro, valsa e samba. No toca-discos, revezavam-se os geniais Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), Jacob do Bandolim, Valdir Azevedo, Francisco Alves, Orlando Silva e Noel Rosa. Dilermando Reis e Augustin Barrios eram referências do violão. Foi sobre essa rica base musical que os irmãos e violonistas Sérgio e Odair Assad criaram sua identidade cultural.

“Fomos conhecer Andrés Segovia somente em 1967, quando eu tinha 15 anos. Antes dele, nossos modelos foram dois irmãos violonistas de Ribeirão Preto, Edson e Altamir Penha. Por meio deles passamos a gostar muito dos Índios Tabajaras, também dois irmãos brasileiros. E a partir dos anos 1970 nossa inspiração clássica foram Sérgio e Eduardo Abreu”, relembra Sérgio, que com Odair forma o Duo Assad, reverenciada dupla de violonistas que celebra meio século de carreira internacional com o CD O Clássico Violão Popular Brasileiro e uma turnê que inclui 29 cidades. Sexta-feira 17, apresentam-se no Teatro de Santa Isabel, no Recife, e no domingo 19, na Funesc Espaço Cultural, em João Pessoa.

Os irmãos Assad deixaram o Brasil em 1985 rumo à Europa. As portas para a notável carreira se abriram ao vencerem, em 1979, o prestigiado concurso Young Artists Competition, em Bratislava, atual Eslováquia. O virtuosismo e a sintonia perfeita, dissecada por críticos embasbacados com o que qualificam como unidade telepática, dois cérebros e um violão, intuição rítmica forjada na alma, foram conquistados com trabalho duro.

Se o pendor natural ao instrumento manifestou-se em verdes anos, chegar à sonoridade que se distingue pelo acúmulo de matizes exigiu perseverança e maturidade. “Foram anos de trabalho diário em busca da mesma flexibilidade rítmica, mesma respiração, mesmo contorno fraseológico. Mas o fator mais importante foi sermos complementares. Cada um possui uma qualidade muito forte que na soma gera a sintonia.”

Os garotos que nos anos 1960 tocavam chorinho em casa com o pai não supunham que o deleite viraria profissão. “Nunca tomamos a decisão de seguir carreira musical, tudo aconteceu naturalmente.” Pouco mais de um ano depois de começar a dedilhar as cordas estavam no palco do Teatro Record, ao lado de Jacob do Bandolim, no programa Bossaudade, comandado por Elizeth Cardoso. Depois de ouvir o duo, Jacob se dirigiu ao patriarca e sem meias palavras deu o veredicto: “Se eu tivesse filhos com esse talento, não cumprimentava mais ninguém”.

Vieram Flávio Cavalcanti, Moacir Franco, Airton e Lolita Rodrigues, todos no comando de atrações televisivas de enorme popularidade. Numa imagem da época, Moacir Franco, rosto jovem e fartos cabelos, conversa com os meninos. Calça curta e violão apoiado no colo, o caçula Odair se equilibra no banquinho, a perna num esforço para se apoiar no chão.

Em 1968, coube à argentina Monina Távora, afamada discípula de Andrés Segovia, burilar o talento dos dois violonistas, que se mudaram com a família para o Rio de Janeiro, por causa das aulas. A mestra não gostava de misturas musicais e proibiu os alunos de tocarem o repertório tradicional, àquela altura bem avançado, de choros, valsas, sambas e tangos. Abandonar as origens populares que tanto agradavam ao patriarca e aos próprios garotos era quase impensável. Os irmãos contornaram a determinação. Estudaram com afinco o repertório clássico e no paralelo continuaram a tocar composições de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e outros grandes.

“Quando saímos do Brasil pelas primeiras vezes para nos apresentar no exterior, nos arriscamos a colocar no programa compositores que considerávamos híbridos. Era o caso de Radamés Gnattali, Egberto Gismonti e Astor Piazzolla. Esta acabou por ser nossa contribuição para o enriquecimento do repertório para duo de violões e ajudou imensamente nossa carreira.” Cinco décadas e dois prêmios Grammy depois, o disco O Clássico Violão Popular Brasileiro é um tributo à origem dos Assad. “Os mestres do passado são nossos padrinhos musicais.”

A bem delineada divisão que até os anos 1970 separava o mundo do violão clássico do popular começou a se desvanecer ao longo das décadas de 80 e 90. A partir daí, o repertório da dupla, aliado ao virtuosismo e à criatividade, fez a diferença. Os nomes que acompanharam os músicos ao longo da jornada estão no CD recém-lançado. “O violão brasileiro tem sua própria personalidade. Ela foi criada ao longo do século XX, apoiada no desenvolvimento da nossa música”, diz Sérgio. Entre os músicos marcantes cita Américo Jacomino (Canhoto), João Pernambuco, Dilermando Reis, Villa Lobos, Luiz Bonfá e Baden Powell. “De cada um deles escolhemos as peças mais emblemáticas.”

No encarte, os violonistas comentam que a música popular brasileira é considerada por muitos como a mais sofisticada do mundo, dotada de grande complexidade harmônica, elaborados contornos melódicos e bem embalada por riquíssima variedade rítmica. “Desde Ernesto Nazareth, passando por Pixinguinha, nossa música sempre teve harmonia sofisticada.”

Na jornada comemorativa de 50 anos, Sérgio, que viveu nove anos em Paris e hoje se divide entre Chicago e São Francisco, e Odair, que mora em Bruxelas, se apresentam tanto em grandes capitais como em cidades modestas. Para Sérgio, a motivação é a troca de energia. “Fizemos boa parte dessas cidades e posso garantir que tivemos muita coisa em retorno. Encontramos pessoas interessantíssimas, conhecedoras reais desses rincões que nos apresentaram a um Brasil que cresce de forma positiva.”