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Número 846,

Saúde

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Aos obesos... a lei

por Riad Younes publicado 28/04/2015 04h49
Premier inglês quer tirar benefícios sociais dos gordinhos. Faz sentido?
Obesidade

Existe no Reino Unido um projeto de lei que impede que pessoas obesas recebam benefícios sociais se não participarem de programas de redução de peso

Tenho certeza de que esta moda tem boas probabilidades de pegar no Brasil. Imagine-se, assistindo entrevistas e debates entre candidatos à Presidência da República, ao Senado ou à Câmara dos Deputados, ouvindo a seguinte proposta genial: lei que impede os obesos de receber seus benefícios sociais, se eles se recusarem a participar de programas de redução de peso. Exatamente o que David Cameron, 

atual primeiro-ministro do Reino Unido pelo Partido Conservador, defenderia e recomendaria, caso seja reconduzido ao cargo na próxima eleição em maio.

Os argumentos dele são cristalinos. Se uma pessoa obesa não consegue trabalhar em decorrência de problemas de saúde ligados ao sobrepeso excessivo e essa pessoa se recusa a participar de programas de orientação dietética e de terapia comportamental, dirigidos justamente para ajudá-la a perder os quilinhos a mais, nada mais justo de que a sociedade civilizada se abstenha de pagar seus benefícios e auxílios de afastamento do trabalho e do desemprego. E assim, economizará à sociedade civilizada uma fortuna. Vários bilhões de libras esterlinas em cortes de benefícios. 

Tudo razoável. Não fosse um pequeno detalhe. Em artigo publicado na revista Lancet, o doutor Christopher Ochner e cientistas do departamento de nutrição da Universidade de Colúmbia em Nova York discutem os mecanismos fisiológicos inerentes aos indivíduos obesos que efetivamente os impedem de perder peso. Acaba por demostrar a quase total ineficiência das abordagens comportamentais e das dietas em ajudar o obeso a manter o “peso normal” por muito tempo.

Só para início de conversa, os médicos ainda não conseguiram definir claramente, usando o índice de massa corpórea (IMC), quem seria o indivíduo magro, normal, com sobrepeso ou obeso. Por isso deixei “peso normal” entre aspas. Voltando ao artigo do dr. Ochner, ele demonstra cientificamente a presença de múltiplos mecanismos que o corpo deflagra para evitar o emagrecimento, fazendo tudo para recuperar o peso máximo atingido. E essa tendência parece se manter de forma contínua durante toda a vida. O corpo cria modificações metabólicas, sistemas de prazer exacerbados, justamente para induzir a pessoa a ingerir o máximo e o mais calórico, com o único objetivo de voltar a engordar. Para o dr. Ochner,  o único tratamento com chances de reversão definitiva, até o momento, é a cirurgia bariátrica. 

Pois bem, sabendo desses dados científicos decepcionantes, seria justo alguém propor uma lei que restrinja benefícios sociais a um paciente obeso que se recusa a se submeter a tratamentos dietéticos e psicológicos com poucas chances de funcionar? Talvez seria mais coerente restringir os benefícios daquele que se recusar a se submeter à cirurgia bariátrica contra a obesidade. Mas, de novo, como exigir por lei que alguém seja obrigado a uma operação delicada, que tem alguns riscos claros de complicações sérias, e até de morte pós-operatória, mesmo com potencial benefício da saúde? Além do enorme custo dessas cirurgias indicadas para todos os obesos, seria ético, principalmente nas sociedades ditas civilizadas?

Sugiro às nossas autoridades brasileiras de saúde, independentemente do apelo eleitoreiro e do resultado da votação britânica, pensarem muito antes de importar ideias de coerção aos nossos doentes. Sugestão semelhante foi publicada pelos editores da mesma revista Lancet, ao lado do artigo do dr. Ochner. Antes que a moda pegue.