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Número 845,

Internacional

Oriente Médio

Como é ser árabe sob a ocupação israelense?

por Gianni Carta publicado 11/04/2015 07h22
"Life in Occupied Palestine", textos de um jornal acadêmico reunidos em livro disponível grátis por meio do Project Muse, retrata o sofrimento de um povo
Gil Cohen Magen/AFP
Israel

Sob o governo de Benjamin Netanyahu não haverá Estado Palestino

Sob o governo de Benjamin Netanyahu não haverá Estado Palestino. Eis a principal promessa do premier israelense durante a campanha que o levou à sua quarta vitória consecutiva nas eleições legislativas de 17 de março. Saibam os mal informados a respeito de Netanyahu, agora com 65 anos, que ele jamais levou a sério “a solução de dois Estados”. E, a quem ignora as brutalidades perpetradas por Israel contra os palestinos, recomendo Life in Occupied Palestine, em Biography, publicação trimestral da Universidade do Havaí. O volume, publicado na primavera de 2014 e editado por Cynthia Franklin, Morgan Cooper e Ibrahim G. Aoude, “está disponível gratuitamente através do Project Muse, na internet, e cópias impressas também estão à disposição”, conforme Franklin esclarece.

Trata-se de uma compilação de textos edificantes para interessados em saber mais sobre as atrocidades israelenses, e também para estudiosos do tema. Life in Occupied Palestine oferece uma visão ampla, por dois motivos. Primeiro, os artigos são redigidos por acadêmicos de diferentes áreas e, portanto, com distintas abordagens e percepções da Palestina. Segundo, os autores têm diferentes origens e nacionalidades. Resultado: a edição especial torna-se um debate multicultural sobre a Palestina.

Magid Shihade, cientista político da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, relata “como o Estado colonial israelense interrompeu, de forma sistemática, a mobilidade, a memória e a identidade local e regional dos palestinos em Israel em geral”. Shihade estrutura seu artigo em torno de dois piqueniques, realizados em 1962 e 1972, nas cercanias do vilarejo de Kafr Yassif, colonizado em 1948. O acadêmico nos sustenta que “os governantes britânicos coloniais”, e principalmente os EUA, traíram a Palestina ao “entregá-la” aos sionistas. “Armados e financiados por diferentes países ocidentais, (os sionistas) destruíram todos os centros urbanos erguidos pelos palestinos antes de 1948.” Mais: “Deslocaram cerca de 84% da sociedade palestina, e arrasaram centenas de vilarejos e cidades”. O texto de Shihade aborda temas como a alienação, o medo, o racismo. E a transformação de povoados árabes de dimensões diversas em guetos.

Refaat R. Alareer, professor de Literatura Mundial na Universidade Islâmica em Gaza, conta como palestinos aprendem sobre o passado e a cultura com idosos em suas famílias. Os temas, aliás, “vão muito além do entretenimento”. Cynthia Franklin, professora de Inglês na Universidade do Havaí, diz ser favorável à “urgente necessidade de acabar com a colonização de Israel, a limpeza étnica e ocupação da Palestina”. Já a coeditora americana Morgan Cooper, residente há mais de uma década em Ramallah, onde é proprietária do Café la Vie, diz ter crescido “em uma sociedade onde o sionismo parecia ser um senso comum”. Por isso, levou um longo tempo “para juntar as peças e identificar o que estava errado”.

Life in Occupied Palestine tem esse objetivo: o de “desafiar a narrativa sionista” de acontecimentos na Palestina reportados (ou não quando antissionista) pelo The New York Times e outras dominantes plataformas midiáticas neoliberais dos EUA e fontes israelenses (...)”, resume Franklin. E é preciso acrescentar que, com raras exceções, a mídia ocidental é pró-Israel.

Franklin observa como Tel-Aviv lançou uma operação militar para encontrar três estudantes yeshivá, supostamente sequestrados em Hebron, em junho de 2014, pelo “grupo terrorista árabe” Hamas, o partido eleito diretamente, e a governar a Faixa de Gaza desde 2007. O Hamas tem um braço armado, visto que a faixa encontra-se sitiada pelos israelenses, e é considerada a maior prisão do mudo.

Em busca dos três estudantes na Cisjordânia, as Forças de Defesa de Israel (IDF, em inglês) invadiram universidades, cidades, aldeias. Seis palestinos perderam a vida. A invasão da Cisjordânia precedeu a guerra contra Gaza, no verão de 2014. Netanyahu retaliou por duas razões iniciais. O objetivo-mor era eliminar o Hamas, acusado de ter sequestrado e matado os três estudantes na Cisjordânia. E de haver lançado foguetes Qassam contra território israelense. No entanto, investigadores independentes informaram que o Hamas não havia organizado e realizado o sequestro, que resultara na morte dos estudantes. Os autores do sequestro e do lançamento de foguetes foram grupos radicais de Gaza, que consideram branda a ação do Hamas.

Netanyahu deslocou a atenção de seus compatriotas, e da mídia global, para os túneis construídos pelo Hamas para lutar contra as tropas da IDF em Gaza e em Israel. Os túneis também destinam-se inclusive a armazenar armas, e contrabandear produtos não permitidos para os palestinos. Os israelenses destruíram 40 túneis, mas vários permanecem intactos. As disparidades em termos de baixas entre os israelenses, a maioria soldados, e os palestinos são enormes. Durante a guerra de Gaza, de 50 dias, mais de 2,1 mil palestinos morreram. A grande maioria civis. As baixas israelenses são 66 soldados e civis.

Franklin diz a CartaCapital: “A melhor esperança é a de obrigar o governo israelense a respeitar o direito internacional, de acordo com o movimento BDS, isto é, Boicote, Desinvestimento e Sanções”. Cooper, por sua vez, aplaude a resistência armada a uma ocupação “ilegal e imoral”. Um fato trágico a marcou para sempre: viu um menino palestino de 15 anos de idade ser queimado vivo por soldados israelenses. “A ocupação militar israelense e a colonização da Palestina são ilegais e imorais”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 845 de CartaCapital, com título "Ser árabe sob o tacão de Israel"