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Número 845,

Sociedade

Análise / Vladimir Safatle

Hegel, Lacan e o mato

por Vladimir Safatle publicado 15/04/2015 03h43
Em seu novo livro, Christian Dunker traz a psicanálise como capítulo privilegiado da formação intelectual do Brasil
Divulgação
Dunker

Mal-estar, Sofrimento, Sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, o novo livro de Christian Dunker

Mal-estar, Sofrimento, Sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, novo livro de Christian Dunker, é a prova maior da vitalidade madura do pensamento psicanalítico brasileiro e de sua capacidade singular de ampliação de seu universo de questões. Ele coloca a reflexão social psicanaliticamente orientada na linha de frente de construção de um modelo teórico no qual problemas nacionais são apresentados com um setor elucidativo de potencialidades ainda pouco exploradas ligadas a questões gerais de reconhecimento social. Dunker já vem, desde seu Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica: Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento, se firmando como um dos mais originais psicanalistas da atualidade, graças à sua capacidade de fornecer chaves compreensivas que, ao mesmo tempo, recolocam a psicanálise em um espectro no qual clínica, teoria da cultura e história das ideias se encontram e abrem campos ainda inexplorados. Não deixa de ser interessante salientar como, em um momento no qual a produção psicanalítica perdeu muito de sua força criativa em países onde ela sempre foi muito presente, é no Brasil que ela encontra atualmente uma renovação na aliança entre práxis clínica e teoria, não se contentando em pensá-las em dissociação.

O livro de Dunker tem ao menos quatro desenvolvimentos de grande originalidade, e um só bastaria para justificar seu interesse. Primeiro, ele consegue sintetizar um modelo de desenvolvimento de práticas disciplinares diferente dos aparelhos ideológicos tradicionais, como família, Estado, Igreja, escola e empresa, entre outros. Trata-se do condomínio. Afinal, só mesmo um país como o Brasil poderia transformar um pesadelo distópico (a Alphaville do filme homônimo de Godard) em sonho de consumo. Dunker recebe na clínica pacientes que sofrem por viver a lógica do condomínio com seu tipo de figura de autoridade (o síndico), suas ansiedades e defesas contra o mal-estar. Vai de sua astúcia mostrar como essa forma singular de habitar produz modos de sofrer que lhe são próprios e que fornecem uma chave privilegiada para desmontar o nacional como patologia.

Partindo desse ponto, o livro traça um impressionante movimento de introdução da psicanálise como capítulo privilegiado do processo de formação intelectual do Brasil. Trabalho exaustivo e historiográfico de grande riqueza. Muitos já haviam percebido a peculiaridade da transformação da psicanálise em forte tradição de produção intelectual nacional, mas Dunker talvez seja um dos primeiros a vincular tal singularidade à capacidade da psicanálise de ter se colocado como uma clínica social das fantasias de superação do atraso da condição da alma nacional que remonta à sua apropriação literária por Oswald e Mário de Andrade. Enquanto clínica social, ela não estava apenas presa à perpetuação do fantasma da “superação do atraso”.  Antes, ela esteve em vários momentos à procura de um modelo capaz de dar conta de nossa formação que não se reduzisse ao cortejo de fracassos e inadequações.

Aqui encontramos o terceiro desenvolvimento do livro de Dunker e um dos mais originais. Trata-se de procurar reconstruir a base normativa da psicanálise por meio da transformação de seu fundamento antropológico. Não mais a antropologia totêmica freudiana, nem mesmo a antropologia estruturalista de Lacan, mas o perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro. Mudança na base antropológica que implica, ao mesmo tempo, modificações na razão diagnóstica e abertura a um horizonte de recompreensão da natureza do sofrimento de um Brasil entre muros. A floresta contra o condomínio: há de se admirar a beleza poética dessa solução intelectual.

Como se não bastasse, Dunker termina seu livro utilizando tal base antropológica para reposicionar as potencialidades das teorias contemporâneas do reconhecimento, abrindo um espaço de discussão que se recoloca claramente para além dos problemas da experiência nacional. Não é somente o Brasil que está entre muros, mas a dificuldade de nosso pensamento em se livrar das estruturas normativas do indivíduo moderno e de uma individualidade centrada na redução egológica do sujeito. Contra isso, como disse com grande propriedade José Aidar, Dunker convida Hegel, após ler Lacan, a adentrar na Floresta Amazônica. Alguns podem levar um susto com tal alta-costura, mas, como dizia Tom Jobim, o Brasil não é para amadores.