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Número 844,

Economia

Análise / Thomaz Wood

O inimigo interno

por Thomaz Wood Jr. publicado 13/04/2015 04h07
A história de dois ícones da fotografia mostra a fragilidade das empresas diante de crises e das mudanças
Khánh Hmoong/Flickr
Kodak

A gigante americana Kodak dominou a indústria fotográfica por décadas

Todos os dias, umas tantas empresas são criadas. Outras tantas somem, e com elas desaparecem sonhos, planos e empregos. Entre as infantes, a mortalidade é assombrosa. As que vencem as dores do crescimento e a barreira da puberdade enfrentam os monstros gêmeos da burocracia kafkiana e da indigência gerencial.

O fato é que poucas empresas superam uma década de existência e raras tornam-se organizações centenárias. A longevidade é usualmente atribuída a quatro fatores: primeiro, um foco permanente na atração e no desenvolvimento de bons gestores; segundo, uma boa dose de conservadorismo na gestão financeira; terceiro, a capacidade de construir relações saudáveis com funcionários, clientes, fornecedores e outros grupos de interesse; e quarto, a capacidade de se adaptar às mudanças ambientais.

Duas histórias empresariais, revistas recentemente, trazem alertas e lições para interessados no tema. A primeira refere-se à Kodak, gigante norte-americana que dominou a indústria da fotografia por décadas. A segunda refere-se à Leica, empresa alemã, símbolo de imagens de qualidade. A Kodak foi fundada em 1888, sofreu com o avanço da digitalização e foi à bancarrota em 2012. Ressurgiu das cinzas um ano depois, como uma versão pálida do passado glorioso. A Leica foi criada em 1849, sobreviveu às rupturas tecnológicas e segue cultivando corações e mentes.

Quentin Hardy, do jornal The New York Times, revelou recentemente um retrato da vida após a morte na Kodak. No seu ápice, a empresa chegou a ter 145 mil funcionários em todo o mundo. Hoje, tem 8 mil. Em 1990, a empresa faturou 19 bilhões de dólares. Hoje, fatura menos de 10% desse valor. Dos 200 prédios que a empresa ocupava na cidade de Rochester, 80 foram demolidos e 59 vendidos. O que restou parece um museu da Revolução Industrial. O impacto na comunidade foi dramático: desemprego, queda na renda e aumento da criminalidade.

Entretanto, ainda há vida e esperanças nas ruínas. A Kodak deixou de ser uma empresa de produção de massa para atender a alguns nichos de mercado: no cinema, na imprensa e na indústria de embalagens. O dinheiro vem do passado. E o futuro também. A aposta da empresa é usar sua ampla base de patentes e cérebros para desenvolver novos produtos. Entretanto, segundo a descrição de Hardy, o ambiente reflete decadência e a conversa saudosista resvala frequentemente para lamentações em torno de oportunidades perdidas.

A Kodak foi, em seu tempo, uma típica empresa de tecnologia. Atraiu talentos e inovou, mudou comportamentos e ajudou a criar uma indústria. Vergou sob o peso de sua própria arrogância e da dificuldade para se adaptar a um novo mundo. Não foi a primeira nem será a última a ser derrotada por si mesma.

Se a história da Kodak é amarga e tem desfecho incerto, a história da Leica acena com um final (por enquanto) feliz. A empresa, cujos produtos povoam os sonhos de fotógrafos profissionais e amadores, enfrentou o fim do filme de celuloide e encontrou um nicho lucrativo, fabricando máquinas digitais de alta qualidade e design tradicional.

Ellen E. Jervell, em texto veiculado pelo Wall Street Journal, conta a luta da centenária organização para vencer o desafio da digitalização. A empresa continua vendendo máquinas fotográficas que se parecem com aquelas de seus anos de ouro, celebradas por luminares da fotografia tais como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e Robert Frank. A diferença é o recheio, que agora é digital.

Unir tradição, qualidade e inovação parece valer a pena. Na tradicional loja B&H, de Nova York, é possível comprar os modelos mais simples por 699 dólares. Entretanto, para ter acesso a uma “verdadeira” Leica, o entusiasta desembolsará de 6,5 mil a 15 mil dólares. Haja entusiasmo!

A empresa sofreu com a digitalização e quase foi à falência. Jervell conta que a Leica foi salva por Andreas Kaufmann, ex-professor, fundador do Partido Verde alemão, que apostou parte da herança familiar na empresa. Sua direção e seus investimentos resultaram em produtos digitais tecnicamente e comercialmente bem-sucedidos. Não é pouco em um mundo poluído por centenas de milhões de smartphones. As próximas décadas mostrarão se jovens gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Facebook terão aprendido as lições de antecessoras como a Kodak e a Leica.