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Número 844,

Educação

Protagonista

Renato Janine é bem visto por especialistas

por Cinthia Rodrigues e Thais Paiva — publicado 06/04/2015 05h37, última modificação 06/04/2015 09h16
Para entidades, o novo ministro da Educação tem capacidade e articulação para encarar o desafio de transformar o slogan “pátria educadora” em realidade
Greg Salibian
janine ribeiro

A lucidez do acadêmico será útil ao governo

Após a abrupta saída de Cid Gomes, o Ministério da Educação, dono de um dos maiores orçamentos da Esplanada e vitrine do segundo mandato de Dilma Rousseff, iniciado sob o slogan da “pátria educadora”, engrossou o caldeirão de vaidades, traições e cobiça que incendeiam Brasília. O PT queria retomar a pasta, o PMDB desdenhava para comprar mais barato. Por causa das circunstâncias, surpreendeu a escolha de Dilma Rousseff.

Renato Janine Ribeiro tem inúmeras credenciais, mas nenhuma daquelas consideradas até então importantes pelos analistas políticos: não tem filiação partidária, costuma ser contundente em suas análises e desempenhava o papel de crítico lúcido da realidade nacional. Aos 65 anos, professor de Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo, Janine toma posse na segunda-feira 6.

Talvez por seu caráter inesperado, a nomeação de Janine é a primeira boa notícia produzida pelo Palácio do Planalto em semanas. Até uma parte da oposição elogiou a escolha. O senador e ex-ministro Cristovam Buarque foi um dos primeiros a se manifestar: “Trata-se de um dos melhores filósofos do Brasil, e mostra que a presidenta não colocou outra vez o ministério entre as pastas sujeitas a negociações partidárias, nem se submeteu às exigências das corporações universitárias”.

Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, também aprovou. “Ele é respeitado na educação, um bom técnico e, principalmente, reconhece o esforço que a educação pública precisa fazer para avançar.” Entre os principais desafios do novo ministro, Repulho destaca a implementação do Plano Nacional e suas 20 metas que nortearão o setor pelos próximos dez anos. “Estados e municípios têm feito a sua parte e o governo federal desempenha um papel fundamental nesse processo. Neste ano, a prioridade deve ser tirar o plano do papel.”

Alejandra Meraz Velasco, coordenadora-geral do Todos Pela Educação, acredita que o bom trânsito do novo ministro pelos diversos segmentos educacionais pode colaborar para uma gestão bem-sucedida. “Há três grandes questões que precisam ser resolvidas e necessitam de muita articulação política com atores diversos, além de abertura para o diálogo. Primeiro, a base nacional comum, segundo, o currículo de formação de professores e, terceiro, o sistema nacional de educação. E me parece que Renato Janine Ribeiro tem essa articulação.”

Intelectual assíduo e acostumado ao debate público, Janine tentava desde o fim das eleições de 2014 manter acesa a chama da racionalidade, tarefa difícil em um País dividido e tomado pelo discurso de ódio. Após a manifestação de 15 de março, o acadêmico rechaçou a defesa do impeachment e ironizou os clamores pela volta da ditadura, mas não deixou de observar que os protestos eram um reflexo da perda de voz da esquerda.

“O fato é que a esquerda não está nas ruas, e, sim, uma população mais de direita, defendendo uma causa que seria correta (o não à corrupção) da forma errada (identificam a corrupção só ao PT, e pior ainda, a Dilma)”, afirmou. “O ideal é mudar essa situação, o que implica tanto combater a corrupção quanto garantir a governabilidade. Ou seja, não adianta ignorar que as ruas foram tomadas pela direita e que pelo menos em São Paulo nós, que somos de esquerda, nos tornamos, já faz tempo, um alvo. Se dizemos o que pensamos, o que queremos, podemos ser hostilizados por um motorista de táxi ou por um qualquer. Basta começar um small talk numa sala de espera que vem, daí a pouco, uma idiotice qualquer. São idiotices, mas o problema é que os idiotas dominam a fala pública. É isso o que tem de mudar.”

Dias antes de ser nomeado, Janine concedeu uma entrevista a CartaCapital, na qual criticou o Partido dos Trabalhadores pelo abandono do debate ético, razão pela qual suas lideranças estariam acuadas. “O PT não apenas foge de qualquer discussão sobre o ‘mensalão’ e a corrupção na Petrobras, como também desistiu de apresentar seu currículo ético. A fome e a miséria também são chagas éticas em nosso País, e a oposição costuma ser muito insensível a elas. Mas como o PT pode apontar os erros dos adversários sem reconhecer os seus próprios?” E mais: “O PT renunciou à disputa pelas convicções ideológicas”.

Não por acaso, a chamada “nova classe C”, principal beneficiária das políticas sociais na última década, engrossa o grupo daqueles que rejeitam Dilma Rousseff atualmente. “O partido precisa reconhecer seus erros, reativar sua comissão de ética, e voltar à luta pelos corações e mentes. O PT tem um currículo ético a apresentar, precisa lembrar que erradicou a fome e reduziu fortemente a miséria. Foi um avanço ético e tanto para o Brasil.”

O filósofo lamentou ainda a interdição do debate por causa da exagerada polarização política. “Existem setores realmente empenhados na destruição do outro”, lastima. “A radicalização inviabiliza qualquer debate sério. De forma pueril, tudo se converteu numa luta do bem contra o mal. E contra o mal não há diálogo possível. É preciso erradicá-lo.”

O desafio de Janine agora será outro: transformar em realidade o slogan “pátria educadora” em um ambiente de contenção de gastos no governo e de redimensionamento das políticas sociais em decorrência do ajuste fiscal. O novo ministro precisará fazer “mais com menos”. Dependerá, portanto, de apoios, dentro e fora do Palácio do Planalto.