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Número 844,

Tecnologia

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A confiança digitalizada

por Ernesto van Peborgh* — publicado 06/04/2015 05h37
Sistemas virtuais interpessoais avançam nas áreas de transporte, música, cultura e no uso da moeda
Guido Rosa
Digital

O algoritmo inteligente Blockchain redefine o conceito de confiança

dinheiro é o sistema global mais eficiente já concebido pelo ser humano para gerar confiança. “Pessoas completamente estranhas, ainda que se odeiem, chegam a um ponto em comum: o dinheiro. Ele serve para as pessoas que não se conhecem colaborarem, por acreditarem em uma mesma coisa”, diz o professor Yuval Noah Harari, autor do livro Uma História Breve da Humanidade. A moeda tem a capacidade de aproximar as pessoas com fortes diferenças e alinhá-las.

A confiança gerada pelo dinheiro está nele próprio, mais precisamente nos bancos, governos e bancos centrais habilitados a criar um sistema centralizado para imprimi-lo, controlá-lo, monopolizá-lo e emiti-lo também como dívida.

Esse sistema adquiriu total liberdade a partir do Nixon Shock, em 1971, quando se declarou o fim da conversibilidade direta da moeda dos Estados Unidos em ouro para dar lugar a um novo regime no qual um dólar é apoiado por outro. Desde então, o Federal Reserve emite dólares sem outro respaldo além da confiança na capacidade de pagamento do país.

O sistema financeiro global baseia-se, portanto, em acreditar que o sistema serve e funciona. O dinheiro fiduciário funciona como o núcleo de um sistema de poder e arbitragem entre o Estado e o mercado e marca o pulso do planeta. Crescimento e lucro são os lemas norteadores da sua lógica, marcada pela eficiência transacional e sua capacidade de transcender fronteiras.

É incrível essa estrutura de aparência indestrutível ser desafiada pela democratização informática. Em poucos anos, vimos o emergir de uma sociedade em rede que, operando supercomputadores e algoritmos altamente inteligentes, produziu a “uberificação” da economia. O nome vem de Uber, um serviço de táxi fornecido por carros particulares que, por meio de um aplicativo, conecta passageiros com condutores de veículos inscritos para oferecer transporte. O Uber tornou-se popular por ser econômico, prático, sustentável e inovador. Ele redefiniu o transporte de passageiros e o Spotify fez o mesmo com a indústria da música, o Netflix com o consumo online de tevê e filmes e o Utorrent, com o entretenimento.

Nesse processo, o dinheiro como é conhecido está sendo “hackeado” pelas mesmas forças de transformação descritas. Provavelmente, testemunhamos o surgimento de um novo sistema que tornaria obsoletas as atuais estruturas de financiamento.

Muito se escreveu sobre a Bitcoin, uma criptomoeda descentralizada global fora do âmbito dos bancos, governos, corporações e instituições. Mas ainda sabemos pouco sobre o conceito da Blockchain, a sua tecnologia de apoio revolucionária. Ela transcende a própria Bitcoin, por distribuir um novo protocolo criptográfico para os nós que constituem e tornar obsoletas as instituições intermediárias.

A inovação da Blockchain é um algoritmo inteligente que resolve um dilema conhecido entre os cientistas como “o problema dos generais bizantinos”: conseguir que pessoas que não confiam umas nas outras entrem em consenso por um objetivo comum, mesmo quando entre elas existam traidores com objetivos opostos.

A Blockchain redefine o conceito de confiança por permitir criar uma rede de computadores independentes, um commons, propriedade dos participantes. Esse algoritmo executa uma dupla verificação e audita toda a informação a cada transação, criando um sistema confiável, eficiente e de baixo custo transacional.

Um sistema pode ser definido como nós interligados que servem a um propósito. O emergente de um sistema é a sua propriedade mais potente, resultado da interação dos elementos que o compõem e que se torna propriedade do conjunto. No caso da Blockchain, o emergente permite que o sistema se organize espontaneamente sem leis explícitas, levando a um novo comportamento inteligente e disruptivo. É uma evolução transcendental no conceito de confiança, distribuída em uma rede democrática que produz o dinheiro (Bitcoin) sem necessidade de validação por um órgão central. A confiança permeia cada um dos circuitos interdependentes da rede, em uma espiral de retroalimentação positiva exponencial. Preparemo-nos.

 

*Ernesto van Peborgh é engenheiro e tem MBA pela Universidade de Harvard. É colunista do jornal La Nación e ministra palestras em empresas e organizações voltadas à educação. Foi um dos palestrantes do TEDx Buenos Aires. Presidiu o Citicorp Equity Investments e é sócio-fundador do Argentine Venture Partners, fundo capitalizado pelo AIG Southern Cone Fund. Lecionou na Universidade Católica Argentina e no MBA da Universidade de Belgrano. Publicou Redes: O despertar da consciência planetária, lançado pela editora DVS no Brasil e três outros títulos