Você está aqui: Página Inicial / Revista / Os papéis de Duque / O olhar invisível
Número 843,

Cultura

Livro

O olhar invisível

por Rosane Pavam publicado 02/04/2015 03h49
A fotografia humanista de Juca Martins testemunha as quatro últimas décadas da história brasileira
Juca Martins
FHC Lula

Lula e FHC em encontro de oposições, a utopia desfeita

Em 1994, Heliópolis era um lugar longe demais. O pior dos mundos, possivelmente, à distância do Centro de São Paulo em que se encontrava Juca Martins. Iniciado no jornalismo 30 anos antes, contudo, o fotógrafo aprendera que o mundo ruim poderia originar um trabalho bom. E decidiu vestir-se como um daqueles desalojados do sonho para compreendê-los. Por um mês, calçou tênis com sola fina e bebeu o café aguado à mesa com vaso de flor. O resultado é que quase se transformou em um dos meninos de sua foto, a desenhar margaridas no chão. “Escrevo para me tornar invisível, para perder a chave do abismo”, anotou o poeta Murilo Mendes em uma descrição literária que talvez ilustre a virtude deste profissional do olhar. No recém-lançado livro Juca Martins (editoras WMF Martins Fontes e Museu da Cidade de São Paulo, 264 págs., R$ 68), estão duas centenas de suas imagens em branco e preto, enfileiradas como testemunhos históricos e pessoais das últimas quatro décadas. “Quando eu estou nos lugares, pô, eu abro o coração”, conta o fotógrafo a CartaCapital durante a entrevista feita em um bar paulistano, a seu pedido, para que a cervejinha alargue as ideias.

“Isto é uma técnica do zen-budismo: ‘Não deixe que seu pensamento vá além da situação em que você se encontra’.” Misturar-se à vida presenciada é um de seus requisitos para fotografar bem. Ou a vida presenciada seria a que o fotógrafo traz em si? Porque os meninos de Heliópolis pareciam repetir o Juca Martins de seis décadas atrás, embora ele tivesse se surpreendido com a interpretação a essa imagem do livro. Mas a hipótese se encaixa porque na Quinta do Minho onde nasceu, há 66 anos, Martins jamais rabiscou folhas de papel. Em lugar disso, escrevia na lousinha e apagava depois, à moda dos favelados de tijolo nas mãos, embora seu ambiente de origem exalasse outra riqueza. No norte de Portugal, as uvas davam bom vinho e a terra, alimento. Mas o menino só usaria cadernos aos 7 anos, e em São Paulo, onde o pai encontraria um emprego melhor.

Seu talento de pintor se expressa a cada composição fotográfica, perfeitamente angulada nas situações de intenso movimento. As multidões parecem se arrastar para muito além do campo fotográfico, à moda das pinturas da Comuna de Paris. Embora sejam fotografias sem fim, devem ter começado por algum lugar, quem sabe pelo pai. O pedreiro Antonio Marques Lourenço tinha talento visual, exercitado durante o serviço militar. Ele deixara ao filho um legado de bons desenhos de paisagens e de frutas. Menino, Martins desejava pintar como Van Gogh, mas a vontade passou em 1966, quando a revista Realidade surgiu.

Imersa no ambiente político ditatorial, a publicação de grandes reportagens parecia nada temer. E o que eram aqueles ensaios fotográficos de David Drew Zingg no Rio de Janeiro, acompanhados da poesia de Manuel Bandeira? “Era arte visual, mas também contato com a vida”, acredita o artista. “Como repórter fotográfico você vai até a comunidade, vive o que ela vive. Eu disse que essa seria minha profissão.” Começou na área de fotolitos da Editora Abril e passou à fotografia, como free lancer, para o Jornal da Tarde, a Folha de S.Paulo e as revistas Veja e Placar, até chegar à sonhada Realidade. “Aos 20 anos eu trabalhava para quem admirava. E tinha dinheiro no bolso, andava de táxi, só comia em restaurante.”

Martins mudou a fotografia brasileira quando, ao fundar a agência F4, em 1979, permitiu ao profissional viver da autoria. Depois desta que ele classifica como uma luta política, qualquer negativo brasileiro pertenceria a seu fotógrafo. Hoje com a Olhar Imagem, fundada em 2002, acontece o mesmo, e as 50 mil imagens da agência querem ver outros Brasis. Martins tem a consciência excitada, quer conhecer a floresta petrificada em Teresina, ousar como poucos fazem. Mas, depois de muitas décadas em que fumou um maço de cigarros diariamente, há um ano e meio se viu vítima de um acidente vascular-cerebral e desacelerou. Eliminou o fumo e aliviou a preocupação com sua saúde, manifesta pelas filhas, Lia, de 40 anos, e Luiza, 11, as duas com um enorme talento para desenhar.

Sua Serra Pelada, a que teve acesso antes de Sebastião Salgado, em 1980, e elogiada por este, tem a marca da pintura. Há vida nos semblantes, mesmo sob a convulsão do ouro. Martins conhece Salgado desde que este não poderia negar ter fotografado em cores e usado flashes. E, ao contrário do que ocorre com o trabalho do colega, suas fotos recusam a morte dos personagens. “Às vezes me dá a impressão de que o Salgado vai para a realidade com uma ideia preestabelecida”, pondera. “A criança do fotógrafo Steve McCurry larga o fuzil e bate bola. Massacrada, não perde a humanidade. Com o Salgado, ela tem o semblante pesado, algo que, eu acho, não é da criança, é do Salgado.”

Conhecedor da história fotográfica, vibra ao falar de Arthur Fellig, o Weegee, autor de incríveis reportagens noturnas, com flash, sobre os perseguidos pela polícia. Martins esteve em situação similar à daquele que admira (tanto quanto a Robert Capa, Cartier-Bresson ou Lewis Hine), quando, em 1980, pediu ao delegado José Wilson Richetti que o deixasse percorrer as áreas do Centro paulistano em seu turno. Sob a justificativa de prender traficantes, Richetti encarcerava prostitutas e homossexuais. Numa noite, Martins o viu parar uma Brasília da qual saiu um travesti, imobilizado ao chão sem nada ter feito. Lembra-se de ter colocado a máquina no chão e disparado a ação policial sem nem pensar. A foto ajudou a criar uma comissão parlamentar que investigou os agressores. E, depois que a IstoÉ sob direção de Mino Carta publicou a imagem, os pais do travesti puderam reencontrá-lo.

Às vezes, o perigo brasileiro poderia ser maior do que o oferecido pelo Líbano em 1982. Ele visitou Beirute a convite palestino. O objetivo era que seu parceiro, o deputado Fernando Morais, fizesse uma entrevista exclusiva com Yasser Arafat. Mas Fausto Wolff, repórter de O Pasquim e integrante da comitiva brasileira, após intuir ter sido passado para trás, deu um jeito de entrar no bunker onde eles esperavam o líder. A entrevista não se deu naquele momento porque Wolff, alto e de olhos azuis, foi entendido como um israelense. Confusão desfeita, os três jornalistas riram juntos, beberam conhaque Saint Rémy no país muçulmano e brincaram de atirar com Kalashnikov em um acampamento.

Uma criança em eterno êxtase, apto a enxergar outras. “Quando você fotografa a criança, prevê como o País será, bem ou mal.” Não tente mudar Juca Martins se ele abraçou a conciliação. Desde aquele encontro de oposições na São Bernardo de 1980, no qual registrou a proximidade entre Lula e Fernando Henrique Cardoso, ele lamenta que o Brasil tenha desistido da união. No dia chuvoso desta entrevista, iria registrar a passeata dos trabalhadores na Avenida Paulista. “Eles são meu assunto de interesse”, professou. “Mesmo esses de direita que estão por aí, eu defendo a convivência pacífica com eles. Se radicalizar, vou cair na luta civil, e eu sei o horror que é isso, eu cobri a guerra em El Salvador. Eis por que trato esses manifestantes como seres humanos. Sou um cidadão como eles, me sinto parte do que são.”