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Número 843,

Cultura

Brasiliana

Bonfá à Perfeição

por Rodrigo Casarin — publicado 04/04/2015 11h32
O ex-baterista da Legião Urbana diverte-se na produção de sua cachaça orgânica
Reprodução/Facebook
Cachaça Marcelo Bonfá

O nome da bebida é inspirado no título de uma das canções do Legião Urbana, de letra ácida, parte do disco Descobrimento do Brasil, de 1993

Alguns momentos da carreira de Marcelo Bonfá foram tensos. Um em particular não some de sua memória. Sobre um palco montado no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1988, viu um maluco agarrar Renato Russo, parceiro de Legião Urbana, que revidou com “microfonadas”, o primeiro dos incidentes da noite marcada por bombas, depredações e mais de 400 feridos. Ainda hoje, quase 20 anos após o fim da banda, um dos maiores fenômenos pop do País, Bonfá percorre o Brasil para tocar. A diferença é que a música não ocupa todo o seu tempo. O baterista dedica-se a outra atividade em um pedaço de terra localizado em Santo Antônio do Rio Grande, Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. A 1,3 mil metros acima do nível do mar, seu alambique produz a Cachaça Perfeição.

Em princípio, produzir cachaça era uma maneira de Bonfá escapar da vida corrida no Rio de Janeiro. “Sou um cara urbano, mas preciso do contato frequente com a natureza.” A ideia inicial de plantar café acabou abandonada por causa da dificuldade em obter bons grãos na região. Ao tomar a cachaça feita artesanalmente por um vizinho, que colhia a cana da propriedade de Bonfá, inclusive, teve o impulso de montar um alambique. “Não fazíamos nada com a plantação e fiquei surpreso com a qualidade da bebida. Tomei aquela branquinha, translúcida, aí resolvi fazer a minha também”, lembra.

Bonfá não entendia absolutamente nada de cachaça nem era consumidor frequente. A saída foi estudar o assunto. Para a empreitada, contratou Daniel Elói, filho de um ex-funcionário da fazenda, hoje seu mestre alambiqueiro, responsável por cuidar da produção, enquanto o músico se preocupa com a identidade visual, a concepção dos produtos e as vendas.

O alambique ficou pronto em 2010. O nome da bebida é inspirado no título de uma das canções do Legião Urbana, de letra ácida, parte do disco Descobrimento do Brasil, de 1993. As primeiras estrofes de Perfeição atacam: “Vamos celebrar/A estupidez humana/A estupidez de todas as nações/ O meu país e sua corja/De assassinos e covardes/ Estupradores e ladrões”.

O baterista explica: “O nome faz uma ponte com a minha carreira artística, mas também tem a questão de o produtor estar muito próximo do seu produto e sempre achar que ele é o máximo, bebe e fala ‘que coisa maravilhosa’, aí surgem nomes como a Boazinha, Fabulosa. Cuido da cachaça como se fosse um elixir, e ela realmente é. Se tomar com parcimônia, faz muito bem para a saúde. É um produto para apreciadores, não para beber muito”.

Dos 50 hectares da propriedade, apenas 3 estão ocupados pela plantação de cana. Segundo ele, a altitude e o clima no inverno produzem um efeito interessante no canavial, uma maior retenção do açúcar. E, por consequência, uma cachaça de ótima qualidade. Os outros 47 hectares, garante Bonfá, estão ocupados por Mata Atlântica. Ele vai além: nada de agrotóxicos e completa reutilização do material. O bagaço vira, por exemplo, energia. As leveduras utilizadas na fermentação têm origem na própria cana. Tudo 100% orgânico.

Bonfá produz atualmente 3 mil litros por ano da Perfeição, divididos entre as versões pura e a envelhecida em barris de carvalho. Essa é a pequena participação de sua destilaria no universo de 800 milhões de litros fabricados anualmente no Brasil (desse total, 30% são destilados por pequenos produtores como Bonfá), na onda de valorização, no País e no exterior, experimentada pela bebida nos últimos anos.

Isso não quer dizer que o negócio seja sempre financeiramente interessante. “Qualquer empresário é muito maltratado no País, é muito difícil se manter, até porque sobre os pequenos incidem os mesmos impostos e taxações dos grandes produtores”, queixa-se. Bonfá parece, no entanto, ter encontrado outra chama, além da música. “Um baita empresário e amigo meu disse que eu não ganharia dinheiro, não ficaria rico, mas tiraria uma onda e daria uma onda nos meus amigos. Então, é realmente uma paixão.”