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Número 843,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

A nova bolha

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 03/04/2015 09h32
Medida adequadamente, a relação preço/rendimento das ações tem cheiro de crash
Spencer Platt/Getty Images North America/AFP
Bolsa NY

Os "mercados" dedicam-se, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas

Os “mercados” dedicam-se, mais uma vez, ao esporte radical de formação de novas bolhas: as bolsas americanas e os rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que sopram às alturas os preços dos ativos. Nas horas vagas (nas outras também), os JP Morgan da vida entregam-se à bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de dividendos com a grana do Federal Reserve.

Analistas do Office of Financial Research, órgão criado pela lei Dodd-Frank para soar o alarme dos desarranjos financeiros, já antecipam “correções” dos preços inflados. Diz o relatório apelidado “Mercados Mercuriais” (Quicksilver Markets): quem aposta na elevação do juro da senhora Janet Yellen deveria levar em conta os efeitos do Quantitative Easing sobre os mercados secundários de ações e títulos de dívida, os soberanos e os privados. Medida adequadamente, a relação preço/rendimento das ações tem cheiro de crash. A elevação brusca da taxa dos Federal Funds desataria uma forte desvalorização do monumental estoque de ativos financeiros existentes.

Nos emergentes, suas moedas inconversíveis já padecem as dores e as vantagens do “rearranjo de portfólios” que infla a bolha americana e valoriza o dólar. (As vantagens devem ser computadas na conta que apura o saldo líquido entre os ganhos dos exportadores de manufaturas e as perdas dos devedores “desprotegidos” em moeda estrangeira.)

A experiência das globalizações financeiras demonstra que os humores dos mercados financeiros globalizados impõem suas razões às políticas monetária e fiscal dos países de moeda inconversível que abrem suas contas de capital, surfam nos ciclos de crédito externo, permitem a valorização cambial e se tornam devedores em moeda estrangeira.

O plano apresentado por Keynes em Bretton Woods não só cuidava de contornar o inconveniente de submeter o dinheiro universal às políticas econômicas do país emissor, mas, sobretudo, estava concebido para impedir que a moeda internacional assumisse a função reserva de valor, forma final da riqueza, perigoso agente da “fuga para a liquidez”.

No plano Keynes não haveria lugar para a livre movimentação de capitais em busca de arbitragem ou de ganhos especulativos. Em 1944, em Bretton Woods, a utopia monetária de Keynes capitulou diante da afirmação da hegemonia americana que impôs o dólar – ancorado no ouro – como moeda universal investida na função perturbadora de reserva universal de valor.

Os títulos de riqueza denominados na moeda não conversível e os carimbados com o selo das moedas conversíveis são substitutos imperfeitos. Diante da hierarquia de moedas, o teorema da paridade descoberta das taxas de juro não funciona. Isso permite aos mercados financeiros prosseguir sem sustos na “arbitragem” entre juros internos e externos e sem convergência das taxas de juro, descontados os diferenciais de inflação esperada.

Nas últimas semanas, os comentários a respeito das desvalorizações generalizadas nos ditos emergentes insistiram na prevalência dos fatores “internos” em detrimento dos “externos”. Mas, na era da abertura financeira turbinada, os fatores “externos” estão sempre abrigados nos “internos”, como parasitas nos intestinos. No banquete da grana abundante, os “externos” empanturram os gulosos. Quando a festa vira fome, sobram na barriga os protozoários das crises fiscais e monetárias.

Não há que descartar os desatinos fiscais e monetários dos governos. Mas há quem teime em ignorar os desastres fiscais e monetários no Brasil dos 1980 e 1990, no México em 1994, na Ásia em 1997, na Rússia em 1998, na Argentina em 2001 pelas “viradas de mesa” dos provedores privados de financiamento externo.

Pois, no surto recente de desvalorização do real, a grita dos sabichões da mídia atacou os fatores “internos”. Quando observam movimentos do câmbio, as pitonisas e sabichões falam fiado de “fundamentos”, sempre prontos a proclamar que é preciso fazer um ajuste fiscal e elevar a taxa Selic. Nos festivais eletrônicos de celebração dos “ajustes”, percebo os movimentos faciais dos profetas das telas: suas bochechas dançam à cata de um sestro entre o sorriso da Mona Lisa e o deboche do Coringa...

Amigos de tempos idos entupiram minha caixa de mensagens com comentários favoráveis aos palpites de celebrados e celebradas comentaristas de telejornais. Veja, caro leitor, como o País avançou. Nos tempos do getulismo juscelinista, esses companheiros se engalfinhavam com Cícero, Júlio Cesar, Horácio e Virgílio, Juvenal, aqueles chatos que escreviam em latim, língua morta. No Brasil do século XXI, na posteridade da era Vargas, os rapazes não conseguem segurar o queixo diante da língua viva dos vivos da tevê.