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Número 842,

Internacional

Israel

Em Israel, uma vitória contra a paz

por Gianni Carta publicado 21/03/2015 09h32, última modificação 21/03/2015 10h50
Reeleito pela quarta vez consecutiva nas parlamentares, o premier mais longevo da história do país mostra sua face. Por Gianni Carta
Menahem Kahana/AFP
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O gesto recorda tempos sombrios

Conseguir a maioria de assentos no Parlamento por parte do Likud, o partido de Benjamin Netanyahu, nas legislativas de terça-feira 17, parecia menos previsível do que nos três pleitos anteriores. O povo israelense está dividido. Precisa de mais segurança? Ou de uma sociedade mais igualitária, e um país onde, segundo o Banco de Israel, 20 famílias controlam empresas que representam metade do valor total do mercado de ações do país? Pesquisas de intenções de voto davam vantagem à União Sionista, liderada pelo líder trabalhista Yitzhak Herzog e, em segundo lugar, a Tsipi Livni, no comando da sigla centrista Hatnua.

O programa da União Sionista é redistribuir as riquezas. E, além da economia, Herzog e Livni preocuparam-se com a segurança do país. Herzog, de 54 anos, mantém boas relações com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. O líder trabalhista é favorável ao congelamento de assentamentos na Cisjordânia. Acredita na chamada “solução de dois Estados”. Portanto, cerca de 20% de árabes israelenses, parte de uma população de 8 milhões no território de Israel, representado por um bloco esquerdista no Knesset, apoiaram Herzog. Isso sem levar em conta legendas centristas, centro-esquerdistas, esquerdistas e ecológicas.

Netanyahu raramente aborda o tema da paz. Em vez de redistribuição da riqueza, prefere falar sobre como evitar a recessão a afetar o mundo. Nisso, diga-se, ele se saía bem, para alegria da mídia neoliberal do Ocidente, inclinada a descurar dos menos favorecidos. No entanto, além da desigualdade galopante, o custo de vida em Israel é elevadíssimo. Para se ter ideia, em 2013, quando cobri as eleições parlamentares de então, o preço dos imóveis havia crescido 40%. O déficit orçamentário era de 8 bilhões de euros.

Já no plano de política de vizinhança, apoiado pelos costumeiros falcões, Netanyahu finalmente disse o que sempre murmurou: “Enquanto eu for premier, não haverá um Estado Palestino”. Vale lembrar: até o ano passado, Netanyahu negociava com o presidente da Autoridade Palestina Abbas a possibilidade de uma “solução de dois Estados”. A mediação cabia ao secretário de Estado americano, John Kerry. No entanto, para angariar votos, o que não faria o veterano Netanyahu do alto dos seus 65 anos? Impedir a criação de um Estado Palestino é, na visão de Netanyahu, medida de segurança, embora a chamada comunidade internacional começe a registrar a brutalidade de Israel contra os árabes-israelenses e os palestinos.

Outra medida de segurança a fazer parte do discurso de Netanyahu, é claro, tem sido o Irã. Enquanto Barack Obama finalmente fazia algo de interessante e encontrava-se em Teerã para dar continuidade às negociações, Netanyahu aceitou o convite do presidente da Câmara dos EUA, o republicano John Boehner, para exprimir as percepções dele sobre o Irã. Era 3 de março. O objetivo de Netanyahu: defender Israel de um “acordo ruim”. Para a oposição americana, no entanto, o presidente israelense mergulhou em uma delicada questão bipartidária nos EUA, com claras intenções de esnobar o democrata Obama. James Baker, ex-secretário de Estado, avaliou, em entrevista à rede de TV CBS, como “um erro” a decisão de Netanyahu de se dirigir a deputados americanos, tanto mais às vésperas do pleito em Israel. Em miúdos, Netanyahu violou princípios básicos de protocolo diplomático.

A partir do voto, o premier tem seis dias para formar uma maioria no Parlamento. A mídia de Israel informava, horas após Herzog ter admitido a derrota na quarta-feira 18, que Netanyahu já iniciara os contatos destinados a levar a cabo a composição. A saber com Naftali Bennett, ultradireitista líder do partido Lar Judaico, favorável ao incremento dos assentamentos na Cisjordânia. Ele teria um cargo no gabinete. Outro, Avigdor Lieberman, leão de chácara moldávio com QI baixo (tive o desprazer de entrevistá-lo). É adorado pelos russófilos, a viver em guetos em Tel-Aviv, onde se fala principalmente o russo. Os russos (e israelenses nacionalistas) o veneram por suas posições reacionárias. Liberman propõe até pagar a árabes-israelenses para se mudarem para a Palestina, ou o que sobra dela.

Israelenses nos bairros de predominância russa, onde aluguei quartos de hotéis, gostam dos russos: quase todos são brancos, loiros de olhos azuis. É o mesmo branqueamento que houve no Sul do Brasil e na Argentina no século XIX. Os israelenses são, em grande parte, racistas. Basta ver Netanyahu convidar os judeo-franceses após os atentados de 11 de janeiro, que deixaram 17 mortos, a se mandarem para Israel. Comentou um editorialista do Haaretz, diário israelense de língua inglesa: “Trocam o antissemitismo francês pelo racismo israelense”. Mas não é bem assim. O israelense não é aberto como se imagina ao judeu. O etíope, o judeu e o negro, não serão bem-vindos. A loira russa é outra coisa.

Netanyahu precisa, nesses próximos dias, do apoio de Moshe Kahlon, deputado do Likud, que passou a liderar uma agremiação centrista chamada Kulanu. Como aliado de Netanyahu parece atípico. Mostra-se interessado em favorecer questões sociais e econômicas. Ganhou, porém, dez cadeiras no Knesset. Trata-se de um joker no jogo de formações políticas. Ex-ministro das Comunicações e da Segurança do Estado, cansou-se da prepotência de Netanyahu. Mas o premier, por exemplo, usou velhas frases de Kahlon ao elogiá-lo durante sua campanha. O elogiado, claro, não achou graça. A realpolitik tem sua força de persuasão, contudo, e Kahlon neste exato instante está disposto a flertar com o desafeto. É o jogo do poder.  Kahlon poderia ser decisivo para o futuro de Netanyahu.

As histórias se repetem. E as personagens tragicômicas, idem. Lembro-me, em 2013, em Israel, de Yair Lapid, ex-jornalista líder da legenda Existe um Futuro. Uma correspondente americana, sorriso nos lábios, anunciou tratar-se “do homem mais sexy de Israel”. Lapid, jovem, pregava negociações de paz com a Palestina. Mas em Ariel, assentamento ilegal na Cisjordânia, ele havia dito: “Não acho que os árabes queiram a paz”. Ademais, não acreditava em um futuro que dividiria Jerusalém entre judeus e muçulmanos. Resultado: foi ministro de Netanyahu. Kahlon, a “esperança”, ficará ao lado de Netanyahu. Ele não é nada diferente de Lapid.

Surpreende (ou não?) a postura dos presidentes americanos. Ingenuidade ou fingimento? De verdade, eles são controlados, em grande parte, pelo voto dos lobbies judeus, como o Aipac. Mesmo assim, uma exceção poderia ser Obama. Ele parece ter acordado. Até quinta-feira 19, não havia dados os parabéns de praxe a Netanyahu. A Casa Branca falou em “retórica a dividir a opinião pública”, por parte do governo israelense. Mais: “condenaram Israel por incitar o povo israelense em um vídeo de 28 minutos gravados por Netanyahu, a promover a corrida às urnas porque os “árabes israelenses estão sendo transportados de ônibus, em massa”.

Parece que Obama resolveu esclarecer o quadro. Mas e quando ele for susbstituído, em breve, pelo novo presidente?

*Reportagem publicada originalmente na edição 842 de CartaCapital, com o título "Vitória contra a paz"