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Número 842,

Política

Análise / Mauricio Dias

O fantasma da UDN

por Mauricio Dias publicado 21/03/2015 09h33
Espalha-se o cheiro de um retorno ao passado, como se o objetivo final fosse entregar o Brasil a Tio Sam
Tarso Marcelo
Impeachment

A participação foi maior na Marcha da Família

A reação conservadora e golpista mostrou a cara nas manifestações de rua no domingo 15 de março. Os números foram inflacionados, como, por exemplo, em São Paulo. De qualquer forma, o contingente de pessoas foi grande e espalhou-se por diversas capitais do País e algumas poucas cidades do interior.

Nessas marchas os participantes, com trajes verde-amarelos, tinham focos difusos expressados em cartazes e faixas de variados tamanhos e agressividade: o impeachment da presidenta Dilma, corrupção, apelo à intervenção militar imediata, agressão verbal ao PT e aos petistas, entre outras. Algumas senhoras sessentonas reviveram o movimento dos caras-pintadas formado pela juventude dos anos 90 do século passado. Lutavam, no ocaso da ditadura, por eleições “Diretas Já”. Hoje, o conjunto da obra, como constatam as palavras de ordem, convergia para um só objetivo, possível de ser traduzido pelo lema “Direita Já!”

Uma parte da imprensa debitou as manifestações na conta de um suposto esforço em “defesa da democracia”. Essa expressão, uma ofensa à história, estava nas páginas do jornal O Globo do dia seguinte, sustentada por uma manchete com números falsos, “Dois milhões nas ruas”, desmentidos por pesquisa do insuspeito Datafolha. O jornal carioca, valendo-se do “olhômetro” da Polícia Militar, afirmava que pela Avenida Paulista desfilaram 1 milhão de pessoas. A pesquisa reduziu tudo a 210 mil, número elevado, mas não gigantesco. Muito inferior, por exemplo, à histórica “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

Naquela ocasião, a população de São Paulo era menor e a aglomeração, que antecipou o golpe militar, foi calculada em 500 mil pessoas. Em 1964, O Globo estava também na vanguarda do reacionarismo. Apoiando, é claro.

Embora as situações sejam diferentes, é necessário manter acesa a luz amarela. Herdeiros da concepção udenista repetem hoje os antecessores de ontem. Em 1964, com apoio da esquerda doidivanas, tiraram a bandeira da democracia das mãos de um governo que tinha alta aprovação. Não adiantou. A sociedade os seguiu. Jango foi derrubado.

A oposição não tem proposta de um programa político-econômico alternativo ao dos governos petistas. Sem alternativa tornou a corrupção o centro dos problemas brasileiros. Alimenta-se de episódios como o chamado “mensalão”, uma tradução oportunista do que de fato ocorreu, a reprovável formação de caixa 2 comum a todos os partidos, e agora da corrupção de empreiteiros e alguns poucos funcionários da Petrobras.

Como se fossem “os puros”, pregam a ética cavalgando na promessa de acabar com a corrupção. Aspas retiradas do livro A Lei e a Ordem, de Ralf Dahrendorf, um sociólogo alemão de cepa liberal, inspirado nas reflexões “de magnífica ironia” da lavra de Heinrich Popitz: “Uma sociedade que revelasse todos os casos de desvio arruinaria a validade de suas normas (...) As normas não suportam a luz forte de um holofote, elas precisam de uma certa obscuridade”.

Em desespero por estarem fora do poder há 12 anos, e vai a 16, inconformados os opositores perderam o freio. Se a afirmação de Popitz for verdadeira, eles algum dia, mantidos na oposição, talvez proponham acabar com o Brasil ou entregá-lo ao Tio Sam.