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Número 842,

Economia

Câmbio

A valorização do dólar abala os emergentes

por Carlos Drummond publicado 09/04/2015 04h30
O fortalecimento da moeda americana e uma nova bolha especulativa ameaçam o equilíbrio dos países em desenvolvimento

Na segunda-feira 16, as projeções do mercado para dezembro indicavam o dólar a 3,80 reais e a inflação na casa de 8,77%, puxada por uma alta de tarifas acumulada em 9,82% nos últimos 12 meses. O mercado futuro de juros apontava uma taxa de juros Selic em ascensão para 14,75% em 2021, após uma alta de 75 pontos porcentuais e duas de 50 pontos. Feitas todas as contas, o ano fecharia com uma queda do PIB entre 2% e 2,5%. Um resultado da soma de causas internas e de uma conjuntura externa adversa tanto ao Brasil quanto ao conjunto dos países emergentes, os alvos da crise mundial depois dos Estados Unidos, em 2008, e da Europa, em 2011, avaliam diversos economistas.

Ao contrário do alardeado no Brasil, “os Estados Unidos não estão plenamente recuperados, a Zona do Euro mal iniciou sua retomada e os países em desenvolvimento têm perdido força”, destaca Yilmaz Akyuz, economista-chefe do instituto de pesquisas South Centre, da Suíça, e ex-diretor e economista-chefe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. O emprego nos EUA não deverá retornar aos níveis de 2007 antes de 2018.  Na Zona do Euro, com uma demanda 5% inferior à de 2008, as perspectivas são de deflação. Nos países periféricos, a demanda está, na média, 15% abaixo daquela do ano do início da crise.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, geralmente otimista por força do ofício, admitiu na segunda-feira 16 que a recuperação econômica global continua “muito lenta, muito frágil e muito desigual”. Na quinta-feira 19 o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, confirmou essas avaliações ao rever para baixo as suas previsões para o PIB e a inflação, sinalização de adiamento da elevação dos juros, inferiores a 0,25% ao ano desde 2008. Em consequência da revisão, a cotação do dólar caiu 55 pontos porcentuais e a Bolsa subiu 2,47% no Brasil. Pouco antes da manifestação do Fed, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, divulgara uma avaliação oposta, de otimismo quanto à recuperação da economia dos EUA.

Os fatos caminham na direção inversa das estimativas do BC. A crise iniciada há seis anos entrou na sua fase final, de uma guerra de moedas entre as principais economias do mundo, todas presas à mesma política monetária comodista que intensificou a volatilidade, aumentou as pressões deflacionárias e preparou o terreno para outro crash tumultuado, afirma o economista Mike Whitney. “O dólar em alta fez os índices de ações dos Estados Unidos mergulharem, na medida em que os investidores esperam lucros corporativos em queda, crédito apertado e exportações mais fracas. O impacto provoca um estrago nos mercados emergentes, presos ao anzol de 5,7 trilhões de dólares de passivos denominados em dólar.” Para Whitney, uma alta das taxas de juro dos Estados Unidos “apenas jogará gasolina no fogo”. O Banco Mundial alertou em janeiro para a possibilidade de uma “evolução desordenada de vulnerabilidades financeiras”.

A economia brasileira passa por dificuldades, mas está longe de ser uma exceção em um contexto global de bonança crescente, como defendem economistas de bancos e o noticiário locais. Tampouco a alta expressiva do dólar no mercado local é exceção. Essa visão não explicaria como o euro manteve-se estável nos últimos 12 meses em relação ao real (3,28 reais há um ano e 3,31 reais no dia 12). “Não só o real desvalorizou-se diante do dólar. De 21 moedas de economias relevantes, 20 perderam valor neste início de ano”, aponta Rafael Bistafa, economista da Rosenberg Associados, ouvido pela BBC.  No dia 13, o dólar fechara a 3,24 reais, a maior cotação em 12 anos, anunciaram os jornais. Exatamente o mesmo recorde atingido neste mês pelo euro, segundo noticiou a mídia europeia.

A probabilidade maior, portanto, é de a valorização do dólar retratar uma corrida desenfreada para acumular a moeda reserva global, uma proteção diante do esperado aumento das instabilidades com a elevação das taxas de juro pelo Fed. A reunião de dois dias para sancionar a mudança, prevista para abril ou, mais provavelmente, junho, poderá ocorrer só em setembro, segundo boletim da Rosenberg Associados divulgado antes da reunião do Fed.

Tanta incerteza do banco central mais poderoso do mundo tem sua razão de ser. “O aumento dos juros dos Estados Unidos será o Armagedon”, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. “Assim que a entrada de recursos nos bancos chegar ao fim e o Fed parar de comprar títulos, a atenção se voltará para a questão da normalização e das expectativas de crescente instabilidade do mercado financeiro para os Estados Unidos e as economias emergentes. Essa saída criará problemas fiscais para os Estados Unidos. Na medida em que os títulos em poder do Fed maturarem e a hiperliquidez, provocada pela política de quantitative easing, terminar, as taxas de juro de longo prazo subirão e os benefícios fiscais dessa política monetária serão revertidos”, diz Akyuz.

A perspectiva de aumento dos juros levou insegurança às empresas brasileiras, principalmente aquelas mais dependentes da taxa de câmbio, incluídas as dos setores de turismo e de comércio exterior e as indústrias com alto porcentual de insumos importados. Um exemplo é o segmento de eletroeletrônicos, com mais de 80% de componentes adquiridos fora do País.

Muito da instabilidade mundial deve-se a decisões dos países avançados. As respostas dos Estados Unidos e da Europa à crise até o momento “padecem de sérios defeitos que retardarão a recuperação, provocarão perdas desnecessárias de renda e de empregos e ameaçarão o crescimento e a estabilidade futuros”, diz Whitney. Relutou-se em remover o peso da dívida por meio de uma renegociação abrangente, tanto no caso das hipotecas dos Estados Unidos quanto no da dívida bancária e dos governos na União Europeia. O foco foi salvar os credores. Hesitou-se em solucionar o problema das hipotecas e não se tentou taxar os ricos e dar suporte aos pobres, em especial no Reino Unido e nos Estados Unidos, em comparação à Europa Continental. No Brasil e demais países emergentes, sabe-se, esses impostos, quando existem, são irrisórios.

O comércio global foi redistribuído à custa dos países em desenvolvimento, enquanto a Zona do Euro, em especial a Alemanha, tornou-se um peso morto na expansão global. A instabilidade financeira sistêmica permaneceu intocada, apesar do entusiasmo inicial quanto a uma reforma da governança da finança internacional. Não bastasse isso, há novas fragilidades em consequência da hiperliquidez.

Os países em desenvolvimento, entre eles os emergentes, beneficiaram-se em alguma medida, no curto prazo, da política monetária americana, mas ficaram expostos a “sérios choques”.  Para Akyuz, “é difícil o Fed sair do quantitative easing sem uma ruptura, ou manter a sua política sem a criação de novas bolhas. Quanto maior for a duração dessa condução, mais abrupta será a saída, o que cria um dilema para as economias emergentes”.

A vulnerabilidade financeira dos países em desenvolvimento está ligada à sua integração aos mercados financeiros globais e à significativa liberalização da finança externa e da conta de capital. A dívida de curto prazo do conjunto dos emergentes deve aumentar de 1 trilhão de dólares para 2,1 trilhões de 2014 a 2018. O Brasil está entre os emergentes com maior acúmulo de dívidas de curto prazo, com vencimento de no máximo um ano, no mercado internacional, o que o torna mais vulnerável a elevação prevista dos juros nos Estados Unidos. A dívida de curto prazo passou de 47,8 bilhões de dólares, em 2008, para 112,7 bilhões, entre 2014 e 2018, e o seu tamanho como proporção das reservas cambiais aumentou de 23,1% para 30% no mesmo período, segundo levantamento do Royal Bank of Canada. Na Turquia, considerada uma das economias mais vulneráveis, a dívida chega a 95,2 bilhões de dólares, equivalente a 80% das reservas internacionais. Brasil, Turquia, Indonésia, México e África do Sul compõem o grupo dos países mais frágeis, diz o banco Morgan Stanley, uma avaliação tão crível quanto a declaração do mesmo banco de que “Estados Unidos, Europa e Japão mostram uma guinada rumo ao crescimento”.

A realidade insiste na direção oposta. Uma quarta bolha especulativa, depois daquelas de crédito imobiliário, dos anos 1980, das empresas de internet e tecnologia, nos anos 2000, e das hipotecas podres de 2007, ameaça a economia mundial. Desta vez, envolve ações das bolsas de valores, bônus americanos e papéis e das moedas dos países emergentes, diz Belluzzo. Todas foram originadas nos Estados Unidos, a partir de um problema crônico de demanda. Segundo os economistas Lawrence Summers e Paul Krugman, “há uma lacuna constante de demanda nos Estados Unidos, que enfrentaria uma estagnação circular sem as bolhas que têm conduzido o crescimento desde os anos 1980”.

Uma frase do ex-secretário do Tesouro americano John Connally dirigida aos seus pares no encontro do G-10, de países avançados, em Roma, em novembro de 1971, sintetiza a desigualdade da relação entre os países e as moedas. “O dólar é a nossa moeda, mas é o seu problema”, disse Connally. Na véspera, o ex-presidente Richard Nixon decretara o fim da conversibilidade do dólar em ouro e a mudança do sistema monetário internacional para o regime de taxa de câmbio flutuante, uma das causas da perenização da instabilidade financeira e econômica.

“Os mercados financeiros, entregues à própria lógica, são sujeitos a surtos de euforia e pessimismo. Crises sistêmicas são inerentes à dinâmica financeira, uma ameaça permanente ao crescimento das economias e transformam-se inevitavelmente, nos países emergentes, em crises cambiais”, diz Belluzzo.

O mundo sofre com os regimes cambiais flutuantes “desde que os Estados Unidos obtiveram o exorbitante privilégio de emitir a moeda reserva e de comércio, depois da Segunda Guerra Mundial”, observam os economistas Michèle Brand e Rémy Herrera, do Centre d’Économie da universidade francesa Sorbonne. O mundo, segundo eles, vive “a edição de 2015 do imperialismo do dólar”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 842 de CartaCapital, com o título "Emergentes? Strike"