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Número 842,

Cultura

Cinema

Ficção científica para relatar a sociedade desigual

por Rosane Pavam publicado 21/03/2015 09h32, última modificação 21/03/2015 10h54
'Branco Sai, Preto Fica', de Adirley Queirós, vencedor do Festival de Brasília em 2014, narra as chagas brasileiras de um modo novo
Divulgação
Branco sai, preto fica

O radialista dos confins condenado à cadeira de rodas

O título do filme de Adirley Queirós remete à ordem proferida pela polícia em um baile funk dos anos 1980. A expressão “branco sai, preto fica” antecedeu, naquele contexto, a usual limpeza étnica promovida pela polícia. Saíram feridos do evento na periferia dois amigos negros, e um deles, a perna arrancada, tornou-se especialista em próteses. O outro, um radialista pirata dos confins, está condenado a uma cadeira de rodas, ainda que sua movimentação possa ser recuperada por uma inalcançável fisioterapia. A esse jogo de aproximações se soma um terceiro personagem, um policial negro vindo do futuro para recolher provas de que o passado cometera atrocidades contra os carentes.

Alguém tem de pagar pelo que fez, raciocinam os três personagens às voltas com uma estranha engenharia (fios, aparelhos rudimentares e ultrapassados, a bricolagem da gambiarra, cujos propósitos serão conhecidos no decorrer do filme), feita para corrigir os erros sociais. Misturados em três tempos, passado, presente e futuro, os personagens costuram uma punição a Brasília, cidade que exige dos habitantes da Ceilândia um passaporte de entrada. A Brasília dos ricos, contudo, nunca aparece. E os únicos desautorizados a desejar seu fim são os do futuro, porque, destruída a cidade do poder, simplesmente não haverá um mundo onde todos possam viver o amanhã.

Vencedor do Festival de Brasília em 2014, Branco Sai, Preto Fica narra as chagas brasileiras de um modo novo, se consideramos a tradição cinematográfica local. É documental enquanto ficcionaliza não o fato, mas sua reflexão sobre ele. A Ceilândia do filme, como acontece em ficções científicas à moda da Alphaville, de Jean-Luc Godard, é também a de hoje, invisível sob as pontes, seus habitantes condenados às ruínas urbanas em campo vasto. Todos proferem o que pensam com casualidade, e os três atores principais, entre eles Marquim do Tropa (melhor intérprete do festival), falam à perfeição, com calma, a língua dos excluídos. O Brasil está quase todo lá, seus maravilhosos seres cotidianos, os homens negros que alguns protestos recentes talvez teimem em excluir. Algo entre Stanley Kubrick e Vittorio De Sica, Adirley Queirós desacelera o tempo para devolver aos olhos do espectador uma realidade terrível.

Veja o trailler:

Veja a entrevista feita pela TV Carta com o diretor Adirley Queirós: