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Número 842,

Economia

Análise / Delfim Netto

A única saída

por Delfim Netto publicado 24/03/2015 04h31
A construção da sociedade civilizada tem de resultar do jogo democrático dinâmico e continuado entre o mercado e a urna
Diego Rivera/Mural at the Detroit Institute of Arts
Diego Rivera

"Os socialistas podem ganhar, mas não o socialismo. Esse perecerá no mesmo momento que seus seguidores triunfarem", Robert Michels, sociólogo alemão

Há quase um século (20/8/1918), Lenin escreveu uma carta aos trabalhadores americanos onde afirmou: “Mesmo se para cada cem coisas corretas que estamos fazendo cometermos 10 mil erros, nossa revolução será ainda – e o será no julgamento da História – grande e invencível. Porque esta é a primeira vez que não apenas uma minoria, não apenas os ricos, não apenas os educados, mas a massa real, a maioria esmagadora dos trabalhadores, está construindo uma nova vida e está, com sua própria experiência, resolvendo os mais difíceis problemas da organização socialista”. Obviamente, Clio, musa da História, negou-lhe o seu aval.

Todos sabemos que a URSS implodiu em 1991 por uma constelação de erros econômicos e corrupção política, sob o jugo dos herdeiros daquela “vanguarda” partidária que em 1917 convencera o mundo intelectual de que era portadora do segredo do sonho generoso de como organizar a sociedade para a felicidade geral, o “socialismo”. Com ele todos os trabalhadores teriam ao mesmo tempo, liberdade igualdade e eficiência produtiva gerada não pelo lucro egoísta estimulado pelo “capitalismo”, mas pelo natural altruísmo dos homens. Tudo terminou melancolicamente 70 anos depois, mas não sem antes de ter-lhes roubado as três.

O curioso é que, em 1919, durante a revolução comunista de Bela Kun, na Hungria, Georg Lukacs, pragmaticamente, já esquecera o “altruísmo” e escreveu: “Se os trabalhadores não adotarem imediata e espontaneamente uma disciplina de trabalho e aumentarem a sua produtividade, o proletariado deve aplicar a ditadura a si mesmo (sic), isto é, devem ser criadas instituições que os obriguem a fazê-lo”. Tinha razão George Orwell, “um homem tem de pertencer à ‘intelligentsia’ para acreditar numa coisa como essa!” Os ainda não convencidos não devem perder Miklos Haraszti (A Worker in a Worker’s State, 1977).

A esquerda consagrou Luckacs como o Galileu do século XX, mas no século XXI persiste a indignação de alguns de nossos intelectuais que continuam a se pretender “vanguarda”. Não se conformam com a “alienação” que os trabalhadores revelam nas urnas nos processos democráticos livres. Como é possível que, apenas porque gozam de relativo conforto no emprego, têm um salário razoável para sustentar sua família, contam com alguma segurança e têm alguma garantia de uma modesta aposentadoria, rendem-se à sociedade “consumista” e “exploradora” produzida pelo indecente “capitalismo”? Por que, afinal, negam-se o “direito” de se entregarem à “democracia” que eles lhes oferecem e que os levará ao paraíso do “socialismo”?

A explicação cínica e talvez a verdadeira é que o trabalhador “alienado” aprendeu que a tal “esquerda” está, em geral, confortavelmente instalada no serviço público, gozando seus “direitos” pagos com os recursos que o maldito Estado capitalista extrai dele! Aprendeu na vida real o que a “vanguarda” finge ignorar: a igualdade prometida significa, no fundo, mais Estado e a busca da igualdade absoluta significa o Estado absoluto, que, para compensar sua ineficiência também absoluta, sempre exige o fim da liberdade.

O grande sociólogo alemão Robert Michels, que estudou a dinâmica organizacional dos partidos políticos, enunciou uma proposição até agora não desmentida: “Os socialistas podem ganhar, mas não o socialismo. Esse perecerá no mesmo momento em que seus seguidores triunfarem”. Não há como conciliar pela força liberdade, igualdade e eficiência produtiva. O insuperável Adam Smith, 250 anos atrás, na sua Teoria dos Sentimentos Morais (1759), já alertava seus leitores contra aqueles que se julgam sábios e “imaginam que podem organizar os membros de uma grande sociedade com a mesma facilidade com que organizam as peças de xadrez num tabuleiro”.

No momento em que nossa juventude continua sendo miseravelmente deseducada pela história “criativa” promovida pelos mesmos “intelectuais” financiados pelo governo, é preciso insistir. Não há caminho especial para a realeza na construção da sociedade civilizada! Ela tem de resultar do jogo democrático dinâmico e continuado, entre o “mercado” e a “urna”. As alternativas propostas nunca levarão a ela. São atalhos propostos ou pela direita boçal, cuja ditadura consome 20 anos, ou pela esquerda imbecil, que costuma durar 70.