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Número 842,

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A dieta da Esplanada dos Ministérios

por Cynara Menezes — publicado 28/03/2015 08h54
O segredo do regime que virou sensação entre os poderosos de Brasília
Pillar Veloso
Dieta do poder

O alto escalão de Brasília aderiu ao método criado pelo médico argentino Máximo Ravenna, responsável por emagrecer celebridades como o craque Diego Maradona.

Duas semanas atrás, a ministra-chefe da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci, chega lépida para uma entrevista com internautas em Brasília. A diferença para a rechonchudinha que tomou posse em 2012 é gritante: a ministra está magérrima em seu terninho verde-claro. Eu não resisto.

– A senhora também entrou na tal dieta, foi?

– Entrei, não, eu sou a número 1. Emagreci 17 quilos. A presidenta Dilma é a segunda. Perdeu 13 quilos.

– E como é essa dieta, só pode comer carne?

– Imagina, sou vegetariana.

– Então por que tinha engordado assim?

– Você não sabe de qual tendência do PT eu sou?

– Não.

– Tendência à obesidade!

Menicucci, amiga de Dilma desde a época da ditadura, foi quem iniciou a presidenta na dieta que afinou meia Esplanada dos Ministérios. Uma tarde, ao receber a ministra em audiência no Palácio do Planalto, Dilma surpreendeu-se com a forma física da amiga.

– Você fez bariátrica?, perguntou.

Menicucci disse que não e contou do regime, que conheceu por meio da deputada federal petista Érika Kokay, essa sim, a “descobridora” por aquelas bandas do método criado pelo médico argentino Máximo Ravenna, responsável por emagrecer celebridades como o craque Diego Maradona. Isso foi no fim do ano passado. Em janeiro, na posse, Dilma tinha emagrecido um pouco para caber no vestido rendado que usou, mas ainda estava acima do peso. Recentemente, foi vista com a nova silhueta. Bem mais magra.

A tendência à obesidade, majoritária entre os petistas no governo, tem sofrido cortes tão severos quanto os que precisam ser feitos nos gastos públicos, segundo o ministro Joaquim Levy. E sem bisturi. O ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, outro que perdeu uma circunferência admirável nos últimos anos, diz ter igualado o recorde de Menicucci e enxugado 17 quilos. Ideli Salvatti, dos Direitos Humanos, que se submeteu a uma cirurgia bariátrica em 2009 e voltou a engordar, conta ter perdido 8 quilos com a Ravenna. Kátia Abreu, da Agricultura, e Gilberto Kassab, das Cidades, também aderiram.

Qual o segredo da dieta? Passar fome, muita fome. Seu criador promete (e cumpre) fazer o paciente perder 2 quilos por semana, mas é preciso conseguir sobreviver com apenas 600 calorias diárias nos três primeiros meses, divididas em quatro refeições – alguém com peso dentro do normal pode consumir, em média, 2 mil calorias por dia. Massas e bebidas alcoólicas estão terminantemente proibidas. Uma sopa de legumes antes das refeições é o truque para driblar o apetite. A máxima de Ravenna, que aos 66 anos se gaba de manter o mesmo peso de quando tinha 30: “Comer pouco deixa a mente despejada”. E haja autocontrole.

“Nos primeiros dias, eu queria matar alguém. Estava nervosa, estressada. Depois passou”, diz a ex-deputada petista Arlete Sampaio, uma das maiores entusiastas da dieta no partido. É interessante que quem adere à Ravenna se transforma em especialista. A ex-deputada me falou de coisas como “bioimpedância” (exame que mede a gordura corporal) e “metabolismo basal” com a desenvoltura de quem pede um aparte no plenário. “Quando a gente entra nos ‘enta’, vai perdendo massa magra. Eu sempre fui magra e engordei depois da menopausa. Com a dieta perdi 14 quilos”, conta.

Cardozo também ficou irritado nos primeiros dias. Mas, quando pergunto sobre o efeito das 600 escassas calorias sobre o proverbial mau humor da presidenta, um assessor ri. “Não deu nem para notar a diferença.” O que se comenta é que Dilma, com os quilos a menos, ficou algo mais leve. E começou a pegar no pé de todo mundo ao redor para que emagreça. “Mas, quando estava gordinha, ninguém podia falar nisso...”

Disciplinada, a presidenta faz os exercícios de musculação e segue o regime à risca nos jantares oficiais e até mesmo em viagens. No Uruguai, conseguiu resistir à tentação de devorar a macarronada com almôndegas oferecida no almoço de despedida do ex-presidente Pepe Mujica, no início do mês. Comeu uma polpetinha de nada, só para matar a vontade. Sobre a visita-surpresa a um supermercado de Montevidéu para comprar doce de leite, Dilma negou a intenção de burlar a dieta, como foi noticiado, e jurou que foicomprar o acepipe para a filha.

Me contam que Dilma é gulosa e jamais resistiu a um acarajé em suas viagens à Bahia. E que costumava devorar bombons Sonho de Valsa no avião presidencial. Isso antes da Ravenna. Agora contenta-se com uns suspiros diet meio insossos, mas liberados por sua algoz, perdão, nutricionista. Nos momentos mais tensos, quando se intensifica o massacre midiático e tanta gente vai às ruas pedir a cabeça da presidenta, um grito ecoa pelos corredores do Planalto:

– Cadê os suspiros?